terça-feira, 5 de junho de 2012

Com Tudo Que Possuis, Adquire A Unção


Na igreja moderna, a reunião de oração é uma espécie de
Cinderela. Essa serva do Senhor é desprezada e desdenhada porque
não se adorna com as pérolas do intelectualismo, nem se veste com as
sedas da Filosofia; nem se acha ataviada com o diadema da Psicologia.
Mas se apresenta com a roupagem simples da sinceridade e da
humildade, e por isso não tem receio de se ajoelhar.
O “mal” da oração é que ela não se acha necessariamente
associada a grandes façanhas mentais. (Não quero dizer, porém, que
se confunda com preguiça mental). A oração só exige um requisito:
a espiritualidade. Ninguém precisa ser espiritual para pregar, isto é, a
preparação e pregação de um sermão perfeito segundo as regras da
homilética e com exatidão exegética, não requer espiritualidade.
Qualquer um que possua boa memória, vasto conhecimento, forte
personalidade, vontade, autoconfiança e uma boa biblioteca pode
pregar em qualquer púlpito hoje em dia. E uma pregação dessas pode
sensibilizar as pessoas; mas a oração move o coração de Deus.

A pregação toca o que é temporal; a oração, o que é eterno. O púlpito
pode ser uma vitrine onde expomos nossos talentos; o aposento da
oração, pelo contrário, desestimula toda a vaidade pessoal.
A grande tragédia de nossos dias é que existem muitos pregadores
sem vida, no púlpito, entregando sermões sem vida, a ouvintes sem
vida. Que lástima! Tenho constatado um fato muito estranho que
ocorre até mesmo em igrejas fundamentalistas: a pregação sem
unção. E o que é unção? Não sei. Mas sei muito bem o que é não ter
unção (ou pelo menos sei quando não estou ungido).

Uma pregação sem unção mata a alma do ouvinte, em vez de vivificá-la. Se o
pregador não estiver ungido, a Palavra não tem vida. Pregador, com
tudo que possuis, adquire unção.
Irmão, nós poderíamos ter a metade da capacidade intelectual que
possuímos se fôssemos duas vezes mais espirituais. A pregação é
uma tarefa espiritual. Um sermão gerado na mente só atinge a mente
de quem a ouve. Mas gerada no coração, chega ao coração. Um
pregador espiritual, sob o poder de Deus, produz mentalidade
espiritual em seus ouvintes. A unção não é uma pombinha mansa
esvoaçando à janela da alma do pregador; não. Pelo contrário; temos
que batalhar por ela e conquistá-la. Também não é algo que se
aprenda; é bênção que se obtém pela oração.

Ela é o prêmio que
Deus concede ao combatente da fé, que luta em oração, e consegue
a vitória. E não é com piadinhas e tiradas intelectuais que se chega à
vitória no púlpito, não. Essa batalha é ganha ou perdida antes mesmo
de o pregador pôr os pés lá. A unção é como dinamite. Não é
recebida pela imposição de mãos, nem tampouco cria mofo se o
pregador for lançado numa prisão. Ela penetra e permeia a alma;
abranda-a e tempera-a. E se o martelo da lógica e o fogo do zelo
humano não conseguirem quebrar o coração de pedra, a unção o
fará.
Que febre de construção de templos estamos presenciando hoje.
No entanto, sem pregadores ungidos, o altar dessas igrejas não verá
pecadores rendidos a Cristo. Suponhamos que todos os dias diversos
pescadores saiam para o alto-mar com seus barcos, levando o mais
moderno equipamento que existe para o exercício desse ofício, mas
retornem sempre sem apanhar um só peixe. Que desculpa poderiam
dar para tal fracasso? No entanto é isso que acontece nas igrejas.
Milhares delas estão abrindo as portas dominicalmente, mas não
vêem conversão. Depois tentam encobrir sua esterilidade
interpretando textos bíblicos a seu bel-prazer.

 Mas a Bíblia diz:
“Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim
vazia...”E o mais triste em tudo isso é que o fogo que devia haver nesses
altares encontra-se apagado ou arde em combustão muito lenta. A
reunião de oração está morrendo ou já morreu. Com a atitude que
temos em relação à oração, estamos dizendo ao Senhor que o que
ele começou no Espírito, nós terminaremos na carne. Qual é a igreja
que pergunta a um candidato ao ministério quanto tempo ele passa
diariamente em oração? A verdade é que o pregador que não passa
pelo menos duas horas por dia em oração, não vale um vintém, por
mais títulos que possua. A igreja hoje se acha como que postada na calçada assistindo,
entre aflita e frustrada, à parada dos maus espíritos de Moscou, que
marcham pomposamente no meio da rua respirando ameaças contra
“tudo que é amável e de boa fama”. Além disso, no lugar da
regeneração, o diabo colocou a reencarnação; no lugar do Espírito
Santo, os espíritos-guias; no lugar do verdadeiro Cristo, o anticristo.
E o que a igreja tem para contrapor aos males do comunismo?
Onde está o poder espiritual? A impressão que se tem é que,
ultimamente, uma forte sonolência tomou o lugar da oposição
religiosa, nos púlpitos e também nas publicações evangélicas.

Quem hoje batalha “diligentemente pela fé que uma vez por todas foi
entregue aos santos”? Onde estão os combatentes divinamente
ungidos de nossos púlpitos? Os pregadores que deviam estar
“pescando homens”, parecem estar pescando mais é o elogio deles.
Os que costumavam espalhar a semente, agora estão colecionando
pérolas intelectuais. (Imagine só, semear pérolas num campo!)
Chega dessa pregação estéril, espiritualmente vazia, que é
ineficaz, porque foi gerada num túmulo e não num ventre, e se
desenvolveu numa alma sem oração, sem fogo espiritual! É possível
alguém pregar e ainda assim se perder; mas é impossível orar e
perecer.

 Se Deus nos chamou para o seu ministério, então, prezados
irmãos, insisto em que precisamos de unção. Com tudo que possuis,
adquire a unção, senão os altares vazios de nossas igrejas serão
exemplos vivos de nosso intelectualismo ressequido.
“Nossas orações precisam ser apoiadas numa energia que nunca
esmorece, numa persistência que não aceita não como resposta, e numa
coragem que nunca se rende”.

— E. M. Bounds. Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no
Espírito Santo”.

— Judas20. “Ah, se pudéssemos sentir-nos mais preocupados com o estado de
nanição em que se encontra hoje a causa de Cristo na terra, com os
avanços do inimigo em Sião e com a devastação que o diabo tem
efetuado nele. Mas infelizmente um espírito de indiferença vem
imobilizando muitos de nós”.

— A. W. Pink. “A oração era seu interesse máximo!”

— O biógrafo de Edwin Payson.
Tenho passado dias e até semanas prostrado ao chão, orando,
silenciosamente ou em voz alta”.

— George Whitefield.
“Todo declínio espiritual começa com a negligência da oração. Nenhum
coração pode desenvolver-se bem sem muita comunhão íntima com
Deus; não existe nada que possa compensar a falta dela”.

— Berridge.
“A impressão que tive foi que ele já havia subido para o céu, e se achava
imerso em Deus. Muitas vezes, após terminar seu momento de oração,
ele estava branco como a cal da parede”.

Comentário de um amigo de Tersteegen, após um contato com ele em

Kronenberg.
       auto:
Leonard Ravenhill

quinta-feira, 31 de maio de 2012


“Numa grande igreja, com capacidade para 1.000 pessoas, há uma placa comemorativa do trabalho de John Geddie, com os seguintes dizeres: Quando ele chegou aqui em 1848, não havia nenhum crente; e quando ele saiu, em 1872, não havia mais incrédulos”. Do Memorial de John Geddie, o“pai” das missões presbiterianas nasIlhas dos Mares do Sul
(envie esse texto a todos os pastore das igreja presbiteriana do brasil.)
.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pr. Charles Haddon Spurgeon Uma Defesa do Calvinismo


É uma grande coisa já começar a vida Cristã crendo em boa e sólida doutrina. Algumas pessoas têm recebido vinte diferentes "evangelhos" neste mesmo número de anos; e quantos mais irão aceitar antes que sua jornada termine é difícil de dizer. Dou graças a Deus por Ele logo cedo ter me ensinado o evangelho, e tenho estado tão perfeitamente satisfeito com ele, que não quero conhecer nenhum outro. Porque, se eu cresse no que alguns pregam sobre uma salvação temporária, e sem importância, que somente dura por um tempo, eu raramente seria grato por ela, se é que seria; mas quando sei que aqueles que Deus salva, Ele os salva com uma salvação eterna, quando sei que Ele lhes dá uma justiça eterna, quando eu sei que Ele os assenta em uma fundação eterna de amor eterno, e que Ele os trará ao Seu reino eterno, oh, então me admiro, e me surpreendo pelo fato de uma bênção tal como esta tenha, em algum momento, sido dada a mim!
Suponho que haja algumas pessoas cujas mentes naturalmente se inclinam em direção à doutrina do livre-arbítrio. Eu posso somente dizer que a minha se inclina naturalmente em direção à doutrina da graça soberana. Algumas vezes, quando vejo algumas das piores personalidades na rua, eu sinto como se meu coração devesse jorrar em lágrimas de gratidão, porque se Deus me tivesse deixado só e não me tivesse tocado por Sua graça, que grande pecador eu teria sido! Eu teria ido aos extremos do pecado, mergulhado nas maiores profundezas do mal, também não teria reprimido qualquer vício ou loucura se Deus não me tivesse restringido. Eu sinto que eu teria sido o próprio rei dos pecadores, se Deus me tivesse deixado só.
Eu não consigo entender a razão pela qual sou salvo, exceto sobre a base de que Deus queria que isto fosse assim. Eu não posso, se olhar sinceramente, descobrir qualquer tipo de razão em mim mesmo pela qual eu deva ser um participante da graça Divina. Se não estou neste momento sem Cristo, é somente porque Cristo Jesus tem Sua vontade para comigo, e que esta vontade é que eu deveria estar com Ele onde Ele estiver, e que deveria partilhar da Sua glória. Não posso por a coroa em nenhum outro lugar exceto sobre a cabeça Daquele cuja poderosa graça tem me salvado de seguir abaixo para o abismo. Foi Ele que transformou meu coração, e me colocou de joelhos diante de Si.
Posso bem me lembrar da maneira pela qual eu aprendi as doutrinas da graça em um único instante. Nascido, como todos nós somos por natureza, um arminiano, ainda cria nas velhas coisas que tinha ouvido continuamente do púlpito, e não via a graça de Deus. Quando estava vindo a Cristo, pensei estar fazendo aquilo tudo por mim mesmo, e ainda que buscasse o Senhor sinceramente, não tinha idéia de que o Senhor estava me buscando. Não penso que o novo convertido esteja, a princípio, consciente disto. Eu posso relembrar o dia e a hora exatos em que pela primeira vez recebi aquelas verdades em minha própria alma, quando elas foram, como diz John Bunyan, gravadas em meu coração como com um ferro em brasa; e eu posso recompor como me senti quando cresci repentinamente de um bebê para um homem que havia feito progressos no conhecimento das Escrituras, por ter encontrado, de uma vez por todas, a chave para a verdade de Deus.  (comigo foi exatamente assim, eu nunca mais esquecerei aquele dia, foi um diviso de agua em minha vida cristã.)
Em uma noite de um dia de semana, quando estava sentado na casa de Deus, não estava pensando muito sobre o sermão do pregador, porque não cria nele. Um pensamento me tocou: "Como você veio a ser um Cristão?" Eu vi o Senhor. "Mas como você veio a buscar o Senhor?" A verdade lampejou por minha mente em um momento, eu não poderia tê-lo buscado a menos que tivesse havido alguma influência prévia em minha mente para me fazer buscá-Lo. Eu orei, pensei eu, mas quando perguntei a mim mesmo, como eu vim a orar? Fui induzido a orar pela leitura das Escrituras. Como eu vim a ler as Escrituras? Eu as havia lido, mas o que me levou a assim proceder? Então em um instante, eu vi que Deus estava na base disto tudo, e que Ele foi o Autor da minha fé, e assim toda a doutrina da graça se tornou acessível a mim, e desta doutrina eu não me afastei até hoje, e desejo fazer desta, a minha confissão perpétua: "Eu atribuo minha conversão inteiramente a Deus".
Certa vez compareci a um culto aonde o texto veio a ser: "[Ele] escolherá para nós a nossa herança"1 e o bom homem que ocupou o púlpito era mais do que apenas um pouco arminiano. Por esta razão, quando começou, ele disse: "Esta passagem se refere inteiramente à nossa herança temporal, não tem nada a ver com nosso destino eterno, porque", disse ele, "nós não queremos que Cristo faça por nós a escolha do Céu ou do inferno. Isto é tão claro e direto, que cada homem que tenha um grão de senso comum irá escolher o Céu, e nenhuma pessoa será tão desajuizada que escolha o inferno. Não temos qualquer necessidade de alguma inteligência superior, ou de qualquer grande Ser, para escolher Céu ou inferno por nós. Isto é deixado para o nosso próprio livre-arbítrio, e temos bastante sabedoria dando-nos meios suficientemente corretos para julgar por nós mesmos," e, portanto, como ele muito logicamente inferiu, não há necessidade de Jesus Cristo, ou de qualquer outro, fazer a escolha por nós. Nós podemos escolher a herança por nós mesmos sem qualquer assistência. "Ah!" eu pensei, "mas, meu bom irmão, pode ser mesmo verdade que nós podemos, mas penso que precisamos querer algo mais que o senso comum antes que possamos escolher corretamente".

Primeiro, deixe-me perguntar, não devemos todos nós admitir uma soberana Providência, e a designação da mão do SENHOR, como os meios através dos quais nós viemos a este mundo? Aqueles homens que pensam que, depois de tudo, nós somos deixados ao nosso próprio livre-arbítrio para escolher este ou aquele para direcionar os nossos passos, deve admitir que nossa entrada neste mundo não aconteceu por nossa própria vontade, mas que Deus teve, naquela hora, que escolher por nós. Que circunstâncias foram aquelas, sob de nosso controle, que nos direcionaram a eleger certas pessoas como sendo nossos pais? Tivemos nós alguma coisa a ver com isto? Não foi o próprio Deus que determinou nossos pais, nosso local de nascimento, e amigos?
John Newton costumava contar uma parábola sobre uma boa mulher que, de modo a provar a doutrina da eleição, dizia: "Ah! meu caro, o Senhor deve ter me amado antes de eu nascer, ou caso contrário Ele não teria visto nada em mim para amar depois". Estou certo que é verdade no meu caso; Eu creio na doutrina da eleição, porque estou bem certo que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca O teria escolhido; e tenho certeza que Ele me escolheu antes de eu nascer, ou caso contrário Ele nunca teria me escolhido depois; e Ele deve ter me eleito por razões desconhecidas por mim, porque eu nunca pude encontrar qualquer razão em mim mesmo pela qual Ele devesse me olhar com especial amor.

Se seria admirável ver um rio brotar da terra já crescido, tanto mais seria olhar pasmado para uma vasta fonte da qual todos os rios da terra saíssem borbulhando de uma só vez; um milhão deles nascendo em um só nascimento? Que visão haveria de ser! Quem pode concebê-la. E ainda assim o amor de Deus é aquela fonte, formando cada um dos rios de misericórdia, os quais têm sempre satisfeito nosso povo com todos os rios de graça durante o tempo, e de glória depois de subirem. Minh'alma, permaneça naquele manancial sagrado, e adore e exalte para todo o sempre a Deus, nosso Pai, que tem nos amado! Bem no início, quando este grande universo estava na mente de Deus, como florestas não nascidas na semente do carvalho; muito antes que os ecos acordassem os ermos; antes que as montanhas fossem geradas; e muito antes que a luz rompesse pelo céu, Deus amou estas criaturas escolhidas. Antes que houvesse qualquer ser criado, quando o éter ainda não havia sido agitado pelas asas do anjos, quando o próprio espaço ainda não tinha existência, quando não havia nada exceto Deus somente, mesmo então, naquela solidão de Deidade, e naquela penetrante quietude e profundidade, Seu coração se moveu com amor por seus escolhidos. Seus nomes estavam escritos em Seu coração, e então eram eles queridos de Sua alma. Jesus amou Seu povo antes da fundação do mundo, mesmo da eternidade! E quando Ele me chamou por Sua graça, me disse: "Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí"2.
Se qualquer um me perguntasse o que eu entendo por um Calvinista, eu responderia: "Ele é alguém que diz: Salvação do Senhor". Eu não consigo encontrar nas Escrituras nenhuma outra doutrina além desta. É a essência da Bíblia. "Só ele é a minha rocha e a minha salvação"3. Me diga qualquer coisa contrária a esta verdade, e será uma heresia; diga-me uma heresia, e eu acharei sua essência aqui: que ela se afastou desta grande, desta fundamental, desta firme verdade, "Deus é minha rocha e minha salvação".
Qual é a heresia de Roma, além da adição de algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, o acréscimo de obras da carne, para auxiliar em nossa justificação? E qual é a heresia do arminianismo além de adicionar algo à obra do Redentor? Cada heresia, se trazida à pedra de toque, irá se descobrir aqui.
Eu tenho minha própria opinião particular de que não há tal coisa como pregar Cristo e Ele crucificado, a menos que nós preguemos que nos dias de hoje isto é chamado de Calvinismo. É um apelido chamar a isto de Calvinismo; o Calvinismo é o evangelho, e nada mais. Eu não creio que podemos pregar o evangelho, se não pregarmos a justificação pela fé, sem obras; nem sem pregarmos a soberania de Deus e Sua dispensação de graça; nem sem exaltarmos a eleição, pelo inalterável, eterno, imutável, conquistador amor do SENHOR; nem penso que podemos pregar o evangelho, a menos que o baseemos sobre a especial e particular redenção de Seu povo eleito e escolhido o qual Cristo formou sobre a cruz; nem posso eu compreender um evangelho que deixa santos decaírem após serem chamados, e sujeitar os filhos de Deus a serem queimados no fogo da condenação após terem uma vez crido em Jesus. Tal evangelho eu abomino.
Não há alma viva que defenda mais firmemente as doutrinas da graça que eu, e se algum homem me pergunta se porventura me envergonho de ser chamado Calvinista, respondo que eu não quero ser chamado de nada além de Cristão; mas se você me perguntar, eu defendo a visão doutrinária que foi defendida por João Calvino, eu replico, estou no centro de sua defesa, e estou feliz por professá-la. Mas, longe de mim, sequer imaginar que Sião não contém nada além de Cristãos Calvinistas dentro de seus muros, ou que não há ninguém salvo que não defenda nossa visão. Creio que há multidões de homens que não conseguem ver estas verdades, ou, pelo menos, não conseguem vê-las do modo em que nós as colocamos, mas que não obstante, têm recebido a Cristo como seu Salvador, e são tão queridos do coração do Deus de graça como o mais ruidoso Calvinista dentro ou fora do Céu.
Frequentemente é dito que estas doutrinas nas quais nós cremos têm uma tendência de nos levar ao pecado. Eu tenho ouvido isto ser declarado muito positivamente: que aquelas grandes doutrinas que amamos, e que encontramos nas Escrituras, são licenciosas. Não sei quem terá a audácia de fazer esta afirmação, quando considerar que os mais santos dentre os homens
têm crido nelas. Pergunto ao homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma religião licenciosa, o que ele pensa do caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou de Whitefield, que em sucessivas eras foram grandes expoentes do sistema da graça; ou o que diria dos Puritanos, cujas obras estão cheias delas? Se um homem tivesse sido um Arminiano naqueles dias, teria sido considerado o mais vil herege vivente, mas agora nós somos vistos como hereges, e eles como ortodoxos.
Nós temos retornado à velha escola; nós podemos traçar nossa linhagem desde os apóstolos. É aquele veio de livre-graça, correndo através da pregação de Batistas, os quais nos têm salvado como denominação. Não é por isto que nós não podemos permanecer onde estamos hoje. Nós podemos correr uma linha dourada até o próprio Jesus Cristo, através de uma santa sucessão de vigorosos pais, todos os quais defenderam estas gloriosas verdades; e podemos perguntar a seu respeito: "Onde você encontraria homens melhores e mais consagrados no mundo?". Nenhuma doutrina é tão planejada para preservar o homem do pecado quanto a doutrina da graça de Deus. Aqueles que a têm chamado de "doutrina licenciosa" não sabem nada a seu respeito. Coisas pobres da ignorância, eles mal souberam que seu próprio material ruim foi a mais licenciosa doutrina sob o céu. Se eles conhecessem a graça de Deus em verdade, eles logo iriam ver que não houve nada que preservasse mais da queda que o conhecimento de que somos eleitos de Deus desde a fundação do mundo. Não há nada como a crença na perseverança eterna, e na imutabilidade da afeição de meu Pai, que possa me manter mais perto Dele, pela simples razão da gratidão. Nada faz um homem mais virtuoso que a crença na verdade. Uma mentira doutrinária irá logo produzir uma prática mentirosa. Um homem não pode ter uma crença errada sem em algum momento futuro ter uma vida errônea. Eu creio que uma coisa naturalmente leva à outra.
De todos os homens, os que têm a mais desinteressada piedade, a mais sublime reverência, a mais ardente devoção, são aqueles que crêem que são salvos pela graça, sem obras, através da fé, e não de si mesmos, a qual é dom de Deus.4 Os Cristãos devem ter cautela, e ver que isto sempre é assim, a fim de que por quaisquer meios Cristo não seja novamente crucificado, e exposto ao vitupério5.

sábado, 26 de maio de 2012

A Incompreensibilidade de Deus


[PDF] formatado                                                                                altamente indicado para leitura.

                        Vincent Cheung,

COLOSSENSES 1:9-14

Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual. E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus e sendo fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força da sua glória, para que tenham toda a perseverança e paciência com alegria, dando graças ao Pai, que nos tornou dignos de participar da herança dos santos no reino da luz. Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. (Colossenses 1:9-14)

As cartas e orações de Paulo demonstram que sua prioridade é que os cristãos cresçam em conhecimento. Embora leve a outras coisas que ele também valoriza, o conhecimento espiritual – ou teologia, que é apenas um termo formal para a mesma coisa – vem em primeiro lugar para o apóstolo (1:28-29). Aqui ele escreve: “não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual” (1:9). Ou, como ele escreve aos efésios: “Peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai, lhes dê o Espírito de sabedoria e de revelação, no pleno conhecimento dele” (Efésios 1:17). E aos filipenses diz: “Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção, para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo” (Filipenses 1:9-10).
Sabedoria, conhecimento, percepção, e coisas semelhantes, são necessárias e fundamentais para o desenvolvimento espiritual. Sem elas, é impossível compreender a “vontade de Deus”, ter o “pleno conhecimento dele”, discernir “o que é melhor”, e sermos “puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo”. Portanto, é auto-contraditório afirmar: “Posso não conhecer muito a Bíblia, mas conheço a Deus”, ou mesmo “posso não saber muito teologia, mas sei muito sobre Deus”.
Essa ênfase bíblica sobre sabedoria e conhecimento não limita o desenvolvimento espiritual a apenas um pequeno número de cristãos. Existem realmente aqueles que praticam uma forma de elitismo – eles considerarão a teologia ou ministério de alguém como ilegítimo porque ele não obteve um diploma de certo seminário, ou porque não escreve para uma audiência erudita. Essas são pessoas que criticariam um livro não porque o mesmo carece de verdade ou zelo, mas porque não cita os acadêmicos importantes em suas notas de rodapé. Em todo o caso, elitistas geralmente não são a elite espiritual de forma alguma, mas são covardes e hipócritas incompetentes. E esse é o porquê eles não criticariam o mesmo ponto em outro escritor, se este for famoso ou idolatrado o suficiente, de forma que o zelo e cinismo deles apenas sairia pela culatra.
Esses elitistas são os descendentes espirituais dos fariseus, e existem por toda a parte. Eles gostam de perguntar: “Com que autoridade estás fazendo estas coisas?” (Mateus 21:23), quando na verdade é a autoridade deles que vem de outro. Como no caso dos fariseus, o apelo deles não é feito a Cristo, mas a ídolos e tradições humanas. Eles condenariam alguém por seguir a prática bíblica de xingamento, mas não hesitariam em praticar a idolatria de citar pessoas famosas como autoridade.[1] A sabedoria deles não é pura e espiritual, mas demoníaca. Por mera influência ao invés de razão, eles tentam intimidar os cristãos à submissão. Eles não devem ser temidos, mas resistidos, zombados e desprezados.
A Escritura não tolera o elitismo. Ela não exclui alguém por causa de padrões mundanos e tradições humanas. A sabedoria espiritual está disponível a todo cristão que pede a Deus por ela. Aqui Paulo ora por todos os crentes em Colosso, para que todos eles recebam “sabedoria e entendimento espiritual”. Tiago escreve: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhes será concedida” (Tiago 1:5), embora ele diga que isso requer fé e paciência. De qualquer forma, essa sabedoria leva à humildade e boas obras (Tiago 3:13), enquanto a sabedoria demoníaca dos incrédulos e elitistas exibe inveja e ambição egoísta (Tiago 3:14), e freqüentemente uma cobiça por poder, controle e admiração.
As boas novas é que a sabedoria espiritual que é necessária para se desenvolver como um crente, e para crescer em fé, amor e esperança, está disponível a todo cristão através dos meios que Deus providenciou, tais como a oração e o estudo. Mas isso também remove qualquer escusa do crente para ignorância espiritual e teológica. Um falta de educação formal não é escusa, visto que a sabedoria espiritual vem de Deus, e não do homem.
A promessa de Deus na Escritura, de que ele derramará sua sabedoria sobre aqueles que pedem, é mais que suficiente para sobrepujar qualquer obstáculo que pareça estar presente devido à carência de treinamento acadêmico. Negar isso é negar também o poder e a promessa de Deus. Por outro lado, existem aqueles que se orgulham em continuar sem uma educação formal, e ao mesmo tempo não se esforçam para adquirir sabedoria e conhecimento através de oração e estudo. Isso não é espiritualidade, mas delírio auto-justificador. O ponto é, quer alguém tenha recebido ou não uma educação formal ou qualquer treinamento facilitado pelo homem, a verdadeira sabedoria vem de Deus, através dos meios apontados por ele, e isso não leva ao elitismo, mas à humildade e serviço com grande intrepidez.
Então, Paulo continua: “E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra” (1:10). A Bíblia ensina uma forte conexão entre a verdadeira sabedoria e a conduta santa. Por exemplo, os versículos que citamos da carta de Paulo aos Filipenses diz que devemos abundar “em conhecimento e em toda a percepção”, para que possam ser “puros e irrepreensíveis”. Nossa passagem fala de ser cheio do “pleno conhecimento da vontade de Deus”. A “vontade” de Deus em tal contexto denota seus preceitos, e não seus decretos, isto é, a moralidade que ele definiu, e não a realidade que ele determinou. Um crente forte e que está progredindo, portanto, é alguém que está aprendendo e obedecendo à vontade de Deus, ou aos ensinos e preceitos da Bíblia.
Há três observações que podemos fazer em conexão com isso. As duas primeiras são dois lados da mesma questão, e a terceira nos levará a uma discussão separada.
Primeiro, Paulo ora para que os crentes recebessem sabedoria espiritual com o intuito que essa também produziria boas obras. O fruto natural da sabedoria piedosa é uma vida piedosa, pois essa sabedoria tem dentro dela o conhecimento que define piedade, o entendimento que essa é a maneira como devemos viver, e a percepção em concordar com tudo o que Deus revelou. Assim, a verdadeira sabedoria leva à conduta piedosa, mas o que parece ser uma conduta piedosa é somente tal se for um produto da sabedoria de Deus. Uma conformidade exterior a um preceito de Deus que esteja baseada num motivo mau, ou num falso entendimento, não é piedosa de forma alguma. A conformidade nesse caso é incidental e não intencional. Além do mais, uma vida piedosa não é caracterizada pelo altruísmo somente, mas também por perseverança, paciência, alegria e gratidão.
O primeiro ponto é provavelmente aceitável para a maioria e amplamente enfatizado, mas no segundo ponto devo desafiar um ensino comum. Essa é a idéia que se o conhecimento não levar às boas obras, então o conhecimento é inútil, e se a teologia de alguém não produzir santidade, então a teologia é defeituosa. Juntamente com isso vem a afirmação que o conhecimento está necessariamente amarrado à piedade, e que o único propósito da teologia é produzir uma vida piedosa. (Existem variações desse ensino, mas a idéia básica é a mesma.) Contudo, a Bíblia não ensina isso.
O que acabamos de mencionar é freqüentemente afirmado sobre a base de passagens como Colossenses 1:9-14, na qual Paulo de fato pede sabedoria espiritual para os seus leitores, para que eles “frutifiquem em toda boa obra”. Mas essa é uma inferência falsa e um uso inapropriado da passagem. Contrário ao ensino popular, essa relação não se sustenta da mesma forma quando é revertida – o fato da teologia intentar produzir piedade não torna a teologia inútil quando não existe piedade. Não há necessidade de explicação detalhada. A idéia está simplesmente ausente da passagem.
Nem mesmo 1 Coríntios 13 apóia o ensino. Ali Paulo diz: “Ainda que eu… saiba todos os mistérios e todo o conhecimento… se não tiver amor, nada serei”. Ele não diz que o conhecimento não é nada, ou que a capacidade de saber não é nada, mas que a pessoa que não tem amor não é nada. Teologia é uma revelação da mente de Deus, e como tal possui valor intrínseco, de forma que denegri-la beira a blasfêmia, se já não o for. Quando existe teologia sadia e nenhuma conduta correta, denigramos a pessoa – ela é inútil e desprezível – e não a teologia.
Terceiro, Paulo ora para que os cristãos sejam “cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (ACF). Diferente de muitos crentes, que exibem humildade fingida ou incredulidade genuína, o apóstolo ora para que seus leitores sejam cheios de conhecimento em toda a sabedoria. Ele pede o máximo para eles – a plenitude – em termos da natureza do conhecimento e a capacidade deles conter e compreendê-lo.
Sem dúvida, mesmo o nosso máximo tem um limite (1 Coríntios 13:12), mas o apóstolo coloca esse limite bem adiante, muito além daqueles que exaltam a doutrina da nossa “mente humana finita” acima da generosidade e promessa de Deus (Tiago 1:5), e seu poder na conversão. Essa plenitude de toda a sabedoria é extensa o suficiente que, se obtida, capacita-nos a “em tudo… agradá-lo, frutificando em toda boa obra” (Colossenses 1:9-10), servi-lo com “todo o poder” e “toda a perseverança” (v. 11). A oração de Paulo é por plenitude em conhecimento, santidade e poder. Visto que essa oração foi escrita sob inspiração divina, mesmo se não obtivermos tal plenitude, nunca devemos sugerir que isso seja impossível em princípio.
Esse ensino bíblico requer que revisemos algumas das formulações teológicas tradicionais que erroneamente exaltam as doutrinas da finitude e depravação humana acima das doutrinas da revelação e salvação. O motivo de não alcançarmos ou recebermos é um assunto, mas o que há para ser alcançado ou recebido é outro. Não devemos reduzir a graça de Deus e a obra de Cristo ao nível do nosso fracasso e incredulidade. Paulo diz que o dom de Deus é maior que o pecado do homem:
Entretanto, não há comparação entre a dádiva e a transgressão. Pois se muitos morreram por causa da transgressão de um só, muito mais a graça de Deus, isto é, a dádiva pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para muitos! Não se pode comparar a dádiva de Deus com a conseqüência do pecado de um só homem: por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação, mas a dádiva decorreu de muitas transgressões e trouxe justificação. Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo. (Romanos 5:15-17)
Visto que a presente discussão concerne à plenitude do conhecimento espiritual, é apropriado considerar a doutrina da incompreensibilidade de Deus em relação ao que foi dito acima. Alguns cursos em dogmática começam sua apresentação dos atributos divinos com a incompreensibilidade de Deus, e de uma maneira que estabelece um tom pessimista para o empreendimento teológico inteiro. Isso é contrário ao padrão bíblico.
Considere o exemplo de Romanos 11:33-35, uma passagem freqüentemente citada em relação à incompreensibilidade de Deus: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! ‘Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?’ ‘Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?’.” É abusar da passagem torná-la um ponto de referência absoluto, como se permanecesse sozinha na Escritura, ou fazer dela o ponto de partida da nossa teologia. O motivo é que, quando consideramos a passagem no contexto, observamos que ela aparece na conclusão de uma longa e extensiva seção doutrinária na qual Paulo expõe todo o escopo da teologia cristã, incluindo a criação divina, a depravação humana, o julgamento presente e futuro, a representação federal de Adão no pecado, a expiação vicária de Cristo na redenção, a justificação pela fé (e não pelas obras), a santificação pelo Espírito, a predestinação e muito mais. Por volta de Romanos 11:33, Paulo tinha resolvido toda questão que ele tinha levantado, incluindo aqueles tópicos que muitos teólogos insistem chamar de mistérios e paradoxos, mesmo em desafio contra a Escritura, tais como o propósito e justiça de Deus na eleição (Romanos 9), e seus decretos soberanos (Romanos 10-11).
Charles Hodge pensa que a passagem afirma “o caráter incompreensível e a excelência infinita da natureza e dispensações divinas”, e que “podemos apenas nos maravilhar e adorar. Nunca podemos entender”.[2] Contudo, isso não é de forma alguma o que a passagem sugere. Quer estejamos considerando o contexto imediato de Romanos 11 e Romanos 9-11, ou todo o material anterior de Romanos 1-11, o que exatamente não entendemos? O que Paulo não explicou? Ele abordou e resolveu todas as questões que levantou com pleno conhecimento e confiança.
Se entendemos ou não Paulo é outro assunto – eu disse que podemos, mas agora esse não é o nosso tópico. E se não entendemos Paulo, ainda não podemos atribuir isso à incompreensibilidade de Deus, visto que Paulo não parece ter problema em entender as coisas que escreve, de forma que não é impossível em princípio entender tudo o que ele expõe na carta. Agora, se Hodge quer dizer que Deus não pode ser “plenamente compreendido”,[3] então poderíamos concordar (todavia, com as qualificações que discutiremos mais tarde), mas certamente é errado dizer que “podemos apenas nos maravilhar e adorar. Nunca podemos entender”. Isso não é o que acontece em Romanos. Em Romanos, nos maravilhamos e adoramos porque entendemos Romanos 1 a 11 – tudo ali.
Consideremos Romanos 11:33-35 em seu contexto imediato. Ele escreve no versículo 25: “Porque quero que entendam este mistério” (ESV). Nosso propósito não requer que consideremos o mistério em si, mas somente que Paulo desejava que seus leitores entendessem o que ele chama de mistério. Como nas outras ocasiões em que usou a palavra, mistério não se refere a algo que é intelectualmente inatingível no sentido técnico, da forma como um cálculo poderia ser para uma criança. Antes, mistério é algo que podemos entender, mas, pelo menos por um período de tempo, não nos foi contado ou explicado.
Eu poderia pensar num número entre 1 e 100.000, e enquanto eu recusar revelá-lo, ele permaneceria um “mistério” para você. Mas você não teria dificuldade em entender caso eu lhe dissesse o número. Mistério na Escritura não indica algo que não possamos entender por causa da nossa compreensão limitada, mas a algo que não podemos descobrir, a menos que nos seja transmitido e explicado por revelação. Então, podemos entendê-lo, em muitos casos, sem qualquer dificuldade. Assim, Romanos 11:33-35 poderia estar expressando um senso de apreciação e maravilha pelo que Paulo tinha acabado de explicar e que acabamos de entender (seja em Romanos 11, 9-11, ou tudo de 1-11). Mas ele não deixa nenhuma questão sem resposta para 11:33-35 expressar uma incapacidade de descobrir ou entender algo.
Em particular, considere 11:34, que procede de Isaías 40:13. Paulo também cita o versículo em 1 Coríntios 2:16. Mas logo após o mesmo, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo”. E no versículo 12 escreve: “Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente”. Seu ponto é que não podemos conhecer a Deus e os seus caminho à parte de sua Palavra e Espírito (1:21), mas porque ele nos deu sua Palavra e Espírito, entendemos – muito bem, de fato (2:6-10, 13-16), pois “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (2:10).
É mais que provável que Paulo está fazendo um ponto similar com Isaías 40:13 e Romanos 11, isto é, não dizer que não podemos entender, mas dizer que podemos e entendemos, e ao mesmo tempo expressar maravilha diante do que já entendemos. E como em Coríntios 1-2, seu uso também transmite a suposição que não podemos entender a Deus e os seus caminhos sem ou além do que ele relevou – MAS, ele de fato revelou e explicou para nós tudo o que Paulo escreveu, e isso inclui a maioria, se não todos os tópicos que os teólogos freqüentemente chamam de misterioso, paradoxal e incompreensível. Paulo usa Isaías 40:13 para enfatizar a abundância de informação revelada aos crentes e o potencial deles para entendê-la, toda ela.
Paulo não começa sua carta aos Romanos com a incompreensibilidade de Deus, mas chamando a atenção para o quanto já sabemos agora sobre Deus – mesmo os incrédulos tentam suprimir este conhecimento – ao invés de quão pouco podemos saber sobre ele. Na verdade, para muitas pessoas, sua visão do nosso conhecimento é muito otimista para confrontar. Ele declara que até mesmo os incrédulos não podem fugir do conhecimento sobre este Deus, incluindo seu poder e sabedoria na criação (Romanos 1). Mesmo alguns dos princípios morais são inatos no homem (Romanos 2). Por toda parte vemos os incrédulos serem chamados corretamente de ignorantes sobre Deus, visto que suprimem o que sabem sobre ele, e não o conhecem no sentido de ter um relacionamento positivo com ele. Nesse instante o ponto é que Paulo não começa sua carta – ou, nessa questão, quaisquer de suas apresentações – com a incompreensibilidade de Deus. Mas descobrimos que ele freqüentemente começa com a cognoscibilidade de Deus, especialmente quando diz respeito aos cristãos – eles podem e de fato conhecem a Deus, e podem e possuem conhecimento extensivo e correto sobre ele.
Ele escreve em 1 Coríntios 1:21: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação”. Deus não pode ser descoberto ou entendido por meio do esforço humano somente, à parte da revelação. Deus se revela por meio do evangelho, que salva aqueles que crêem. Os incrédulos de fato possuem um conhecimento inato de Deus, um conhecimento que Deus colocou neles. Eles não o obtém por sua sabedoria humana. E eles são na verdade tão estúpidos que muitos deles negam esse conhecimento, mesmo quando as suposições no discurso e conduta deles denunciam o contrário. Esse conhecimento universal é suficiente para condená-los, mas insuficiente para iluminá-los para a verdade e produzir fé para com Cristo.
Nosso foco principal, contudo, é sobre como a incompreensibilidade de Deus se aplica aos cristãos. E descobrimos que mesmo antes de 1:21, no início da carta, Paulo diz: “Pois nele vocês foram enriquecidos em tudo, isto é, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês” (1 Corinthians 1:5-6). Então, no final do segundo capítulo, após citar Isaías 40:13, um versículo freqüentemente usado para afirmar a incompreensibilidade de Deus, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (2:16). Tudo isso – que embora os incrédulos saibam sobre ele, negam-no, mas que os crentes o conhecem através de sua auto-revelação – é consistente com o que dissemos sobre Romanos 1-2 e 11.
Tomamos outro exemplo do discurso de Paulo aos gregos na Colina de Marte, como registrado em Atos 17. Ali ele começa com uma afirmação confiante de seu próprio conhecimento sobre Deus em contraste com a ignorância dos não-cristãos (v. 23). O restante do seu discurso traz uma semelhança notável com muitas das nossas dogmáticas em esboço e conteúdo.[4] Podemos multiplicar os exemplos. A carta aos Hebreus começa chamando atenção para a revelação verbal de Deus entregue através dos profetas, e agora por meio do Filho (Hebreus 1:1-2). Assim, ela começa com a nossa extensa e crescentemente clara base de dados de conhecimento espiritual, não com ignorância ou incompreensibilidade divina. E João começa sua primeira carta afirmando contato físico com Cristo, a quem, à parte de sensação (Mateus 16:17; João 6:45; 1 Coríntios 2:9-10), ele reconheceu como a Palavra da Vida (1 João 1:1-3). Assim, ele começa com uma afirmação de conhecimento e entendimento direto, não com a ocultação ou incompreensibilidade de Deus.
Em sua Teologia Sistemática, Louis Berkhof precede sua discussão dos atributos de Deus com um capítulo sobre a “Cognoscibilidade de Deus”. Mas ele começa esse capítulo da seguinte forma: “A igreja cristã confessa, por um lado, que Deus é o Incompreensível, mas também, por outro lado, que ele pode ser conhecido e que conhecê-lo é um requisito absoluto para a salvação”.[5] A declaração é aceitável até onde ela vai, embora a ênfase aqui reverta o padrão que a Escritura exibe quando se dirige aos crentes, que constituem a audiência primária de Berkhof.
Ele continua: “Ela reconhece a força da questão levantada por Zofar: ‘Porventura desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até a perfeição do Todo-Poderoso?’ (Jó 11.7).” Mas isso é um uso incorreto do versículo. Quem disse que estamos tentando conhecer a Deus “desvendando”? Já conhecemos 1 Coríntios 1:21: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação”. Ficamos desesperados ao tentar conhecer a verdade espiritual através dos nossos esforços pecaminosos, mas “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (2:10), tornando Jó 11:7 praticamente irrelevante nesse contexto. Nem mesmo tentamos fazer o que o versículo nos diz que não podemos fazer.
Então, em sua Reformed Dogmatics (Dogmática Reformada), Herman Bavinck começa sua apresentação da teologia propriamente dita como segue:
Mistério é a força vital da dogmática. Sem dúvida, o termo “mistério”na Escritura não significa uma verdade abstrata sobrenatural no sentido católico romano. Todavia, a Escritura está igualmente longe da idéia que os crentes podem compreender os mistérios revelados num sentido científico. Na verdade, o conhecimento que Deus revelou de si mesmo na natureza e na Escritura está muito além da imaginação e entendimento humano. Nesse sentido, é com todo o mistério que a ciência da dogmática se preocupa, pois ela não lida com criaturas finitas, mas do princípio ao fim deixa todas as criaturas para trás e se foca no Eterno e Infinito. Desde o começo dos seus labores, ela encara o Incompreensível.[6]
Isso provavelmente soa como sóbrio e piedoso para muitas pessoas, mas afirma o oposto do padrão e ênfase bíblica. Pelo menos ele levanta o ponto relevante do entendimento da revelação pelos crentes, e não tenta conhecer a Deus por seu próprio esforço. Mas para o nosso desapontamento, ele diz que o cristão mal pode entender o que está revelado. Pelo contrário, Jesus diz, “eu… lhes falarei abertamente a respeito do meu Pai” (João 16:25) e Paulo diz, “nós… temos a mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16). Há suporte zero na Escritura para a idéia que não podemos, mesmo em princípio, entender algo que Deus nos revelou.
De fato, refrasear o parágrafo de Bavinck na direção oposta apresenta um sumário acurado da visão bíblica:
Entendimento é a força vital da dogmática. A Escritura está longe da idéia que os crentes não podem compreender a plenitude da revelação. Na verdade, o conhecimento que Deus revelou de si mesmo na Escritura é apropriado para o intelecto redimido. Nesse sentido, é com todo o entendimento que a ciência da dogmática se preocupa, pois ela não lida com a investigação de criaturas finitas e pecaminosas, mas do princípio ao fim deixa todas as criaturas para trás e se foca no Eterno e Infinito, que revelou a si mesmo. Desde o começo dos seus labores, ela encara Aquele que conhece a mente humana, e que iluminou os que crêem, e que se revelou claramente a eles numa forma que podem entender.
Começar o empreendimento teológico com ignorância e pessimismo, ao invés de afirmação confiante do conhecimento, embora já tenhamos recebido a Palavra e o Espírito de Deus, é colocara nós mesmos na posição de não-cristãos. Isso não é humildade, mas uma negação arrogante e rebelde da graça de Deus e a obra que ele tem realizado em nós.
O padrão bíblico é começar pela cognoscibilidade de Deus – não somente que ele é cognoscível, mas que como cristãos o conhecemos – e se deve ser mencionada de alguma forma, concluir com a incompreensibilidade de Deus após todas as questões terem sido respondidas e resolvidas. A única razão aceitável para introduzir essa doutrina no princípio é incluir o tópico sob a cognoscibilidade de Deus, e então usar a doutrina para enfatizar o fato que Deus se fez cognoscível e conhecido, especialmente àqueles que crêem (1 Coríntios 1-2).[7]
A doutrina bíblica é que não podemos conhecer a Deus por nossos esforços e métodos, mas conhecemos somente o que ele nos revela – isto é, o que ele nos diz. Não podemos conhecer e não deveríamos especular além do que ele revelou. Deus revelou uma abundância de informação para nós, muito mais do que muitos teólogos estão dispostos a reconhecer. Essa quantidade de informação é suficiente para constituir uma cosmovisão completa que responda todas as questões necessárias, e de uma forma que seja explícita e consistente, sem contradições aparentes ou reais.
Os teólogos freqüentemente apresentam uma visão diferente concernente à extensão real dessa revelação e a natureza do nosso entendimento dela. Meu julgamento é que as propostas comuns são falsas, e geralmente blasfemas, pelo menos por implicação.
Primeiro, há a afirmação prematura, veementemente defendida, que Deus não revelou nada além do que temos entendido. Assim, algumas questões são ditas estarem além da revelação que temos, quando a verdade é que as questões estão além do nosso entendimento ou as respostas estão além da nossa disposição em aceitar. Toda essa conversa sobre “mente humana finita” equivale a mensurar a revelação divina por nossa finitude humana. É o próprio oposto da humildade.
Segundo, há a insistência violenta que a revelação como a temos contém inúmeros paradoxos e contradições, e que somente revelação adicional, que não receberemos nessa vida presente, fornecerá material necessário para o entendimento e reconciliação. Essa negação da clareza da revelação e o efeito da redenção é tão essencial para o pensamento teológico e a postura eclesiástica de alguns teólogos, que eles até mesmo tentam remover ministros que insistem que a revelação de Deus é inteligível e auto-consistente.
J. H. Thornwell conclui sua palestra sobre “"The Nature and Limits of Our Knowledge of God” (A Natureza e Limites do Nosso Conhecimento de Deus) da seguinte forma:
Nossa ignorância do Infinito é a verdadeira solução dos problemas mais perplexantes que encontramos a cada passo no estudo da verdade divina. Temos ganhado um grande ponto quando descobrimos que eles são realmente insolúveis – que contém um elemento que não podemos entender, e sem o qual o todo deve permanecer um mistério inexplicável. As doutrinas da Trindade, da encarnação, da presciência de Deus e da liberdade do homem, a permissão da queda, a propagação do pecado original, as operações da graça eficaz, todos esses são fatos claramente ensinados; como fatos podem ser prontamente aceitos, mas desafiam todos os esforços de reduzi-los à ciência.[8]
Ele parece dizer que se não podemos “reduzi-los à ciência”, então eles são “inexplicáveis”. Ele está realmente afirmando essa relação? Algo é “ciência” ou então é inexplicável? Por que? E o que ele quer dizer por “ciência”? Por que deveríamos reduzir algo à “ciência”? Não gastaremos tempo com essas perguntas. Nesse ponto, precisamos observar apenas que ele chama aquelas doutrinas mencionadas de “inexplicáveis”, e que carregam problemas que são “insolúveis”.
Primeiro, os “problemas” com todas essas doutrinas têm sido conclusivamente resolvidos, freqüentemente apenas apontando que não existem problemas em primeiro lugar – eles foram inventados pela tradição e filosofia humana.[9] Se Thornwell não conhece ou recusa aceitar essas soluções, isso é falha dele. Mas quando ele propõe que a “ignorância” é a “solução” para todos esses problemas, então devemos protestar que tudo da Escritura é contra ele, tanto em seu padrão como conteúdo. A Escritura não usa a ignorância como uma escusa para os crentes ou como uma defesa contra os incrédulos. Ela não admite nenhuma incoerência interna, e não apela à infinitude de Deus ou à finitude do homem para “resolver” o problema. Quando seguimos Thornwell, que representa apenas um dos muitos como ele, introduzimos confusão e falsa humildade nos cristãos, e ao invés de exaltar a verdade do evangelho diante dos incrédulos, confirmamos eles em sua descrença e irreverência.
De fato, começar nossa consideração da doutrina de Deus com sua incompreensibilidade, e introduzir pessimismo para os crentes, é modelar a disposição pagã de suprimir o conhecimento de Deus, talvez a partir de um motivo similar, isto é, abrir lugar para a incredulidade, discórdia e desobediência contra ele. A diferença é o ponto de partida para a negação – os incrédulos negam a Deus num ponto anterior – mas o princípio é idêntico. E de fato descobrimos que a incompreensibilidade de Deus é freqüentemente usada como uma escusa para rejeitar as respostas de Deus a inúmeras questões doutrinárias.
Insistir que não podemos entender algo quando Deus repetidamente a explica e responde todas as questões sobre ela – por exemplo, quando diz respeito ao “problema” do mal – é apenas uma forma polida de dizer que rejeitamos a revelação de Deus sobre o assunto. É uma tentativa de pensar como o diabo, mas falar como um santo. E é dessa forma que ensinos sobre a incompreensibilidade de Deus e a finitude da mente humana são, na maioria dos casos, usados para demonstrar falsa humildade e disfarçar rebelião grosseira contra a revelação explícita e completa de Deus.
Suponha que exista uma criança cujos pais entendam como ela processa a informação e forneçam a ela explicações e instruções detalhadas, mas ela tapa seus ouvidos e grita: “Não! Não! Não! Eu não entendo! Vocês são por demais sábios e maduros, muito além de mim, mas eu sou apenas uma criança. Não posso entender o que vocês estão dizendo”. Não há humildade aqui; antes, ela zomba de seus pais e despreza a autoridade deles. El é uma criança irritante e desobediente que precisa de correção e disciplina.
Agora, é Deus infinitamente maior que os pais humanos, de forma que ele está de fato muito além do nosso entendimento? Sim, mas ele é também infinitamente mais versado sobre a mente humana, infinitamente mais capaz de explicar a si mesmo, com um acesso infinitamente maior às nossas almas pelo seu Espírito. Se falamos com fé e honestidade, teremos que dizer que podemos conhecer a Deus e sua vontade muito mais do que podemos conhecer nossos pais humanos. Isso pode não ser muito ainda, comparado a tudo o que existe para ser conhecido sobre um ser infinito. Nunca poderemos saber tudo sobre ele, mas conhecemos nossos pais bem menos.
Paulo escreve: “Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus. Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente” (1 Coríntios 2:11-12). Em nós mesmos, não temos acesso à mente do homem nem à mente de Deus, mas Deus nos revelou a sua mente (não a mente de outros homens) pelo seu Espírito. A Escritura é consistentemente otimista sobre a capacidade dos cristãos conhecer a Deus. A doutrina tradicional da incompreensibilidade de Deus que ensina o posto é absolutamente condenável.
Os críticos podem dizer agora: “Ah, agora ele alega ter todas as respostas”. Baseado no padrão das objeções anteriores, deveríamos antecipar isso como uma possível reação. Mas essa resposta mostra uma vez mais quão obcecados eles estão com personalidade e consigo mesmo. Quanto um cristão em particular sabe é irrelevante para uma formulação apropriada da doutrina. Nossa preocupação principal tem sido a posição bíblica, ou o princípio do assunto. Também, durante toda a nossa discussão deixamos claro que esse otimismo bíblico é aplicado a todos os cristãos, embora seja retido daqueles que permanecem em incredulidade. Por outro lado, os nossos críticos e os teólogos que eles seguem desejam impor suas próprias limitações sobre todos os crentes, e mesmo sobre o conteúdo da Palavra de Deus e o poder do Espírito de Deus.
Ao revisar a doutrina tradicional da incompreensibilidade de Deus, devemos reconsiderar também a terminologia que é usada e a cetegoria que é assumida. Concorda-se que Deus é infinito e, portanto, há quantidade infinita de informação que poderia ser conhecida sobre ele. E visto que somos finitos, isso significa que nunca podemos saber tudo sobre Deus. Nesse sentido, Deus é incompreensível. Não é que não possamos entender algo sobre ele de forma alguma, mas que ele pode ser conhecido somente até o ponto que revelou a si mesmo.
Os teólogos caem em erro, e eu diria heresia e blasfêmia, quando dizem que não podemos conhecer nem mesmo a revelação escrita de Deus. Mas eles são freqüentemente ambíguos e inconsistentes nesse ponto. Em todo o caso, a questão importante agora é observar que “incompreensível” freqüentemente significa que não podemos entender nada sobre Deus, e não apenas algo sobre Deus. E a dourtina é geralmente introduzida como uma característica intrínseca da natureza de Deus, ou um atributo de Deus.
Com respeito à terminologia, a palavra “incompreensível” poderia ser enganosa, visto que pode, e geralmente é usada em dois sentidos diferentes. A primeira definição no Merriam-Webster's Dictionary, designada como arcaica, é “não ter ou não estar sujeito a limites”. Essa definição é apropriada para a doutrina, visto que de fato admitimos que não podemos conhecer a totalidade de Deus, pois ele é infinito. Contudo, a segunda definição, não arcaica, é “impossível de se compreender: ininteligível”. Essa não é a idéia que desejamos transmitir pela doutrina. Sem dúvida existem teólogos que algumas vezes afirmam que Deus é incompreensível nesse sentido, mas já dissemos o suficiente sobre eles até aqui – a Escritura expõe a falsa humildade deles. Deus e sua revelação não são ininteligíveis. Visto que a primeira definição é arcaica, talvez o Webster's New World Dictionary esteja correto em reverter a ordem, de forma que sua primeira definição da palavra é “não compreensível; que não pode ser entendido; obscuro ou ininteligível”. Novamente, não devemos dizer que Deus e sua revelação são incompreensíveis nesse sentido.
O ponto é que o significado primário para “incompreensível” é agora “ininteligível”. E esse é o primeiro significado que vem à mente quando muitos crentes e incrédulos tomam conhecimento da doutrina. Se isso é o que queremos dizer, então estamos errados. Mas se não é isso, então estamos enganando nossa audiência e comprometendo a fé. Os crentes que lutam contra os assultos de fora, bem como suas próprias dúvidas, pensarão que não temos respostas para eles. E os incrédulos que já pensam que o Cristianismo é irracional e que os cristãos são tolos receberão confirmação de sua suspeita – seus próprios teólogos chamam Deus e sua revelação de “ininteligível”, que não está muito longe de dizer “completo absurdo”.
Nossa única opção é repudiar os teólogos e crentes que falam dessa forma (eles não representam a fé cristã), e declarar novamente a nossa doutrina de acordo com a Escritura – que Deus revelou a si mesmo de uma maneira clara e coerente, e de uma forma apropriada para o intelecto humano, que entendemos muito sobre Deus e sua revelação, e que somos capazes de responder todas as questões e desafios contra a fé, e que enquanto os não-cristãos permanecem em cegueira e ignorância, nós lhes proclamamos a plenitude da vontade de Deus a partir de uma posição de conhecimento e autoridade (Atos 17:23).
Para corrigir esse problema de termilogia enganosa, podemos incluir essa doutrina sob o tópico “cognoscibilidade” de Deus (e enquanto estivermos no assunto, talvez “compreensibilidade” seja uma palavra melhor), ou inclui-la sob o tópico “infinidade” de Deus. Ele é infinito, mas inteligível e compreensível. Ele tem falado abundante e claramente à humanidade. E é a partir desse fundamento de revelação, conhecimento e entendimento que proclamamos: “Agora [Deus] ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos 17:30).
Com respeito à categoria, deveríamos observar que a incompreensibilidade de Deus é de fato um atributo do homem. Se um gato não pode me entender completamente, isso não significa que a incompreensiblidade seja inerente em mim, ou que seja um dos meus atributos. Se eu pudesse ser plenamente entendido, mesmo que apenas em princípio ou somente por Deus, então a incompreensibilidade não seria um dos meus atributos.
Deus é incompreensível às suas criaturas, mas visto que ele é onisciente, ele não é incompreensível para si mesmo. Visto que ele entende plenamente a si mesmo, a incompreensibilidade não pode ser uma das suas qualidades intrínsecas. Ele não é incompreensível; nós o achamos incompreensível. E o atributo divino que o torna incompreensível a nós é a sua infinidade, não um atributo intrínseco de incompreensibilidade.
Se nao houvessem criaturas, Deus ainda seria triúno, espiritual, eterno, auto-existente, imutável, onipotente, onisciente, onipresente, e assim por diante. Mas não haveria ninguém para achá-lo incompreensível. Ele ainda seria infinito, e o seu entendimento infinito compreenderia completamente o seu proprio ser infinito.

[1] Nota do tradutor: O autor usa o termo “name-dropping”, que é a prática de freqüentemente mencionar nomes de pessoas famosas ou intelectuais como se essas lhes fossem íntimas, para impressionar os outros.
[2] Charles Hodge, A Commentary on Romans (The Banner of Truth Trust, 1997), p. 378.
[3] Ibid.
[4] Veja Vincent Cheung, Confrontações Pressuposicionalistas.
[5] Louis Berkhof, Systematic Theology (The Banner of Truth Trust, 2003), p. 29.
[6] Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Volume Two: God and Creation (Baker Academic, 2004), p. 29.
[7] Isso é o que eu fiz em minha Teologia Sistemática.
[8] James Henley Thornwell, The Collected Writings of James Henley Thornwell (Solid Ground Christian
Books, 2004), p. 141-142.
[9] Veja Vincent Cheung, Teologia Sistemática, Questões Últimas, Confrontações Pressuposicionalistas, Apologética na Conversação, Commentary on Ephesians, O Autor do Pecado e Cativo à Razão.


Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto.