quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pr. Charles Haddon Spurgeon Uma Defesa do Calvinismo


É uma grande coisa já começar a vida Cristã crendo em boa e sólida doutrina. Algumas pessoas têm recebido vinte diferentes "evangelhos" neste mesmo número de anos; e quantos mais irão aceitar antes que sua jornada termine é difícil de dizer. Dou graças a Deus por Ele logo cedo ter me ensinado o evangelho, e tenho estado tão perfeitamente satisfeito com ele, que não quero conhecer nenhum outro. Porque, se eu cresse no que alguns pregam sobre uma salvação temporária, e sem importância, que somente dura por um tempo, eu raramente seria grato por ela, se é que seria; mas quando sei que aqueles que Deus salva, Ele os salva com uma salvação eterna, quando sei que Ele lhes dá uma justiça eterna, quando eu sei que Ele os assenta em uma fundação eterna de amor eterno, e que Ele os trará ao Seu reino eterno, oh, então me admiro, e me surpreendo pelo fato de uma bênção tal como esta tenha, em algum momento, sido dada a mim!
Suponho que haja algumas pessoas cujas mentes naturalmente se inclinam em direção à doutrina do livre-arbítrio. Eu posso somente dizer que a minha se inclina naturalmente em direção à doutrina da graça soberana. Algumas vezes, quando vejo algumas das piores personalidades na rua, eu sinto como se meu coração devesse jorrar em lágrimas de gratidão, porque se Deus me tivesse deixado só e não me tivesse tocado por Sua graça, que grande pecador eu teria sido! Eu teria ido aos extremos do pecado, mergulhado nas maiores profundezas do mal, também não teria reprimido qualquer vício ou loucura se Deus não me tivesse restringido. Eu sinto que eu teria sido o próprio rei dos pecadores, se Deus me tivesse deixado só.
Eu não consigo entender a razão pela qual sou salvo, exceto sobre a base de que Deus queria que isto fosse assim. Eu não posso, se olhar sinceramente, descobrir qualquer tipo de razão em mim mesmo pela qual eu deva ser um participante da graça Divina. Se não estou neste momento sem Cristo, é somente porque Cristo Jesus tem Sua vontade para comigo, e que esta vontade é que eu deveria estar com Ele onde Ele estiver, e que deveria partilhar da Sua glória. Não posso por a coroa em nenhum outro lugar exceto sobre a cabeça Daquele cuja poderosa graça tem me salvado de seguir abaixo para o abismo. Foi Ele que transformou meu coração, e me colocou de joelhos diante de Si.
Posso bem me lembrar da maneira pela qual eu aprendi as doutrinas da graça em um único instante. Nascido, como todos nós somos por natureza, um arminiano, ainda cria nas velhas coisas que tinha ouvido continuamente do púlpito, e não via a graça de Deus. Quando estava vindo a Cristo, pensei estar fazendo aquilo tudo por mim mesmo, e ainda que buscasse o Senhor sinceramente, não tinha idéia de que o Senhor estava me buscando. Não penso que o novo convertido esteja, a princípio, consciente disto. Eu posso relembrar o dia e a hora exatos em que pela primeira vez recebi aquelas verdades em minha própria alma, quando elas foram, como diz John Bunyan, gravadas em meu coração como com um ferro em brasa; e eu posso recompor como me senti quando cresci repentinamente de um bebê para um homem que havia feito progressos no conhecimento das Escrituras, por ter encontrado, de uma vez por todas, a chave para a verdade de Deus.  (comigo foi exatamente assim, eu nunca mais esquecerei aquele dia, foi um diviso de agua em minha vida cristã.)
Em uma noite de um dia de semana, quando estava sentado na casa de Deus, não estava pensando muito sobre o sermão do pregador, porque não cria nele. Um pensamento me tocou: "Como você veio a ser um Cristão?" Eu vi o Senhor. "Mas como você veio a buscar o Senhor?" A verdade lampejou por minha mente em um momento, eu não poderia tê-lo buscado a menos que tivesse havido alguma influência prévia em minha mente para me fazer buscá-Lo. Eu orei, pensei eu, mas quando perguntei a mim mesmo, como eu vim a orar? Fui induzido a orar pela leitura das Escrituras. Como eu vim a ler as Escrituras? Eu as havia lido, mas o que me levou a assim proceder? Então em um instante, eu vi que Deus estava na base disto tudo, e que Ele foi o Autor da minha fé, e assim toda a doutrina da graça se tornou acessível a mim, e desta doutrina eu não me afastei até hoje, e desejo fazer desta, a minha confissão perpétua: "Eu atribuo minha conversão inteiramente a Deus".
Certa vez compareci a um culto aonde o texto veio a ser: "[Ele] escolherá para nós a nossa herança"1 e o bom homem que ocupou o púlpito era mais do que apenas um pouco arminiano. Por esta razão, quando começou, ele disse: "Esta passagem se refere inteiramente à nossa herança temporal, não tem nada a ver com nosso destino eterno, porque", disse ele, "nós não queremos que Cristo faça por nós a escolha do Céu ou do inferno. Isto é tão claro e direto, que cada homem que tenha um grão de senso comum irá escolher o Céu, e nenhuma pessoa será tão desajuizada que escolha o inferno. Não temos qualquer necessidade de alguma inteligência superior, ou de qualquer grande Ser, para escolher Céu ou inferno por nós. Isto é deixado para o nosso próprio livre-arbítrio, e temos bastante sabedoria dando-nos meios suficientemente corretos para julgar por nós mesmos," e, portanto, como ele muito logicamente inferiu, não há necessidade de Jesus Cristo, ou de qualquer outro, fazer a escolha por nós. Nós podemos escolher a herança por nós mesmos sem qualquer assistência. "Ah!" eu pensei, "mas, meu bom irmão, pode ser mesmo verdade que nós podemos, mas penso que precisamos querer algo mais que o senso comum antes que possamos escolher corretamente".

Primeiro, deixe-me perguntar, não devemos todos nós admitir uma soberana Providência, e a designação da mão do SENHOR, como os meios através dos quais nós viemos a este mundo? Aqueles homens que pensam que, depois de tudo, nós somos deixados ao nosso próprio livre-arbítrio para escolher este ou aquele para direcionar os nossos passos, deve admitir que nossa entrada neste mundo não aconteceu por nossa própria vontade, mas que Deus teve, naquela hora, que escolher por nós. Que circunstâncias foram aquelas, sob de nosso controle, que nos direcionaram a eleger certas pessoas como sendo nossos pais? Tivemos nós alguma coisa a ver com isto? Não foi o próprio Deus que determinou nossos pais, nosso local de nascimento, e amigos?
John Newton costumava contar uma parábola sobre uma boa mulher que, de modo a provar a doutrina da eleição, dizia: "Ah! meu caro, o Senhor deve ter me amado antes de eu nascer, ou caso contrário Ele não teria visto nada em mim para amar depois". Estou certo que é verdade no meu caso; Eu creio na doutrina da eleição, porque estou bem certo que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca O teria escolhido; e tenho certeza que Ele me escolheu antes de eu nascer, ou caso contrário Ele nunca teria me escolhido depois; e Ele deve ter me eleito por razões desconhecidas por mim, porque eu nunca pude encontrar qualquer razão em mim mesmo pela qual Ele devesse me olhar com especial amor.

Se seria admirável ver um rio brotar da terra já crescido, tanto mais seria olhar pasmado para uma vasta fonte da qual todos os rios da terra saíssem borbulhando de uma só vez; um milhão deles nascendo em um só nascimento? Que visão haveria de ser! Quem pode concebê-la. E ainda assim o amor de Deus é aquela fonte, formando cada um dos rios de misericórdia, os quais têm sempre satisfeito nosso povo com todos os rios de graça durante o tempo, e de glória depois de subirem. Minh'alma, permaneça naquele manancial sagrado, e adore e exalte para todo o sempre a Deus, nosso Pai, que tem nos amado! Bem no início, quando este grande universo estava na mente de Deus, como florestas não nascidas na semente do carvalho; muito antes que os ecos acordassem os ermos; antes que as montanhas fossem geradas; e muito antes que a luz rompesse pelo céu, Deus amou estas criaturas escolhidas. Antes que houvesse qualquer ser criado, quando o éter ainda não havia sido agitado pelas asas do anjos, quando o próprio espaço ainda não tinha existência, quando não havia nada exceto Deus somente, mesmo então, naquela solidão de Deidade, e naquela penetrante quietude e profundidade, Seu coração se moveu com amor por seus escolhidos. Seus nomes estavam escritos em Seu coração, e então eram eles queridos de Sua alma. Jesus amou Seu povo antes da fundação do mundo, mesmo da eternidade! E quando Ele me chamou por Sua graça, me disse: "Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí"2.
Se qualquer um me perguntasse o que eu entendo por um Calvinista, eu responderia: "Ele é alguém que diz: Salvação do Senhor". Eu não consigo encontrar nas Escrituras nenhuma outra doutrina além desta. É a essência da Bíblia. "Só ele é a minha rocha e a minha salvação"3. Me diga qualquer coisa contrária a esta verdade, e será uma heresia; diga-me uma heresia, e eu acharei sua essência aqui: que ela se afastou desta grande, desta fundamental, desta firme verdade, "Deus é minha rocha e minha salvação".
Qual é a heresia de Roma, além da adição de algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, o acréscimo de obras da carne, para auxiliar em nossa justificação? E qual é a heresia do arminianismo além de adicionar algo à obra do Redentor? Cada heresia, se trazida à pedra de toque, irá se descobrir aqui.
Eu tenho minha própria opinião particular de que não há tal coisa como pregar Cristo e Ele crucificado, a menos que nós preguemos que nos dias de hoje isto é chamado de Calvinismo. É um apelido chamar a isto de Calvinismo; o Calvinismo é o evangelho, e nada mais. Eu não creio que podemos pregar o evangelho, se não pregarmos a justificação pela fé, sem obras; nem sem pregarmos a soberania de Deus e Sua dispensação de graça; nem sem exaltarmos a eleição, pelo inalterável, eterno, imutável, conquistador amor do SENHOR; nem penso que podemos pregar o evangelho, a menos que o baseemos sobre a especial e particular redenção de Seu povo eleito e escolhido o qual Cristo formou sobre a cruz; nem posso eu compreender um evangelho que deixa santos decaírem após serem chamados, e sujeitar os filhos de Deus a serem queimados no fogo da condenação após terem uma vez crido em Jesus. Tal evangelho eu abomino.
Não há alma viva que defenda mais firmemente as doutrinas da graça que eu, e se algum homem me pergunta se porventura me envergonho de ser chamado Calvinista, respondo que eu não quero ser chamado de nada além de Cristão; mas se você me perguntar, eu defendo a visão doutrinária que foi defendida por João Calvino, eu replico, estou no centro de sua defesa, e estou feliz por professá-la. Mas, longe de mim, sequer imaginar que Sião não contém nada além de Cristãos Calvinistas dentro de seus muros, ou que não há ninguém salvo que não defenda nossa visão. Creio que há multidões de homens que não conseguem ver estas verdades, ou, pelo menos, não conseguem vê-las do modo em que nós as colocamos, mas que não obstante, têm recebido a Cristo como seu Salvador, e são tão queridos do coração do Deus de graça como o mais ruidoso Calvinista dentro ou fora do Céu.
Frequentemente é dito que estas doutrinas nas quais nós cremos têm uma tendência de nos levar ao pecado. Eu tenho ouvido isto ser declarado muito positivamente: que aquelas grandes doutrinas que amamos, e que encontramos nas Escrituras, são licenciosas. Não sei quem terá a audácia de fazer esta afirmação, quando considerar que os mais santos dentre os homens
têm crido nelas. Pergunto ao homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma religião licenciosa, o que ele pensa do caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou de Whitefield, que em sucessivas eras foram grandes expoentes do sistema da graça; ou o que diria dos Puritanos, cujas obras estão cheias delas? Se um homem tivesse sido um Arminiano naqueles dias, teria sido considerado o mais vil herege vivente, mas agora nós somos vistos como hereges, e eles como ortodoxos.
Nós temos retornado à velha escola; nós podemos traçar nossa linhagem desde os apóstolos. É aquele veio de livre-graça, correndo através da pregação de Batistas, os quais nos têm salvado como denominação. Não é por isto que nós não podemos permanecer onde estamos hoje. Nós podemos correr uma linha dourada até o próprio Jesus Cristo, através de uma santa sucessão de vigorosos pais, todos os quais defenderam estas gloriosas verdades; e podemos perguntar a seu respeito: "Onde você encontraria homens melhores e mais consagrados no mundo?". Nenhuma doutrina é tão planejada para preservar o homem do pecado quanto a doutrina da graça de Deus. Aqueles que a têm chamado de "doutrina licenciosa" não sabem nada a seu respeito. Coisas pobres da ignorância, eles mal souberam que seu próprio material ruim foi a mais licenciosa doutrina sob o céu. Se eles conhecessem a graça de Deus em verdade, eles logo iriam ver que não houve nada que preservasse mais da queda que o conhecimento de que somos eleitos de Deus desde a fundação do mundo. Não há nada como a crença na perseverança eterna, e na imutabilidade da afeição de meu Pai, que possa me manter mais perto Dele, pela simples razão da gratidão. Nada faz um homem mais virtuoso que a crença na verdade. Uma mentira doutrinária irá logo produzir uma prática mentirosa. Um homem não pode ter uma crença errada sem em algum momento futuro ter uma vida errônea. Eu creio que uma coisa naturalmente leva à outra.
De todos os homens, os que têm a mais desinteressada piedade, a mais sublime reverência, a mais ardente devoção, são aqueles que crêem que são salvos pela graça, sem obras, através da fé, e não de si mesmos, a qual é dom de Deus.4 Os Cristãos devem ter cautela, e ver que isto sempre é assim, a fim de que por quaisquer meios Cristo não seja novamente crucificado, e exposto ao vitupério5.

sábado, 26 de maio de 2012

A Incompreensibilidade de Deus


[PDF] formatado                                                                                altamente indicado para leitura.

                        Vincent Cheung,

COLOSSENSES 1:9-14

Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual. E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus e sendo fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força da sua glória, para que tenham toda a perseverança e paciência com alegria, dando graças ao Pai, que nos tornou dignos de participar da herança dos santos no reino da luz. Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. (Colossenses 1:9-14)

As cartas e orações de Paulo demonstram que sua prioridade é que os cristãos cresçam em conhecimento. Embora leve a outras coisas que ele também valoriza, o conhecimento espiritual – ou teologia, que é apenas um termo formal para a mesma coisa – vem em primeiro lugar para o apóstolo (1:28-29). Aqui ele escreve: “não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual” (1:9). Ou, como ele escreve aos efésios: “Peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai, lhes dê o Espírito de sabedoria e de revelação, no pleno conhecimento dele” (Efésios 1:17). E aos filipenses diz: “Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção, para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo” (Filipenses 1:9-10).
Sabedoria, conhecimento, percepção, e coisas semelhantes, são necessárias e fundamentais para o desenvolvimento espiritual. Sem elas, é impossível compreender a “vontade de Deus”, ter o “pleno conhecimento dele”, discernir “o que é melhor”, e sermos “puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo”. Portanto, é auto-contraditório afirmar: “Posso não conhecer muito a Bíblia, mas conheço a Deus”, ou mesmo “posso não saber muito teologia, mas sei muito sobre Deus”.
Essa ênfase bíblica sobre sabedoria e conhecimento não limita o desenvolvimento espiritual a apenas um pequeno número de cristãos. Existem realmente aqueles que praticam uma forma de elitismo – eles considerarão a teologia ou ministério de alguém como ilegítimo porque ele não obteve um diploma de certo seminário, ou porque não escreve para uma audiência erudita. Essas são pessoas que criticariam um livro não porque o mesmo carece de verdade ou zelo, mas porque não cita os acadêmicos importantes em suas notas de rodapé. Em todo o caso, elitistas geralmente não são a elite espiritual de forma alguma, mas são covardes e hipócritas incompetentes. E esse é o porquê eles não criticariam o mesmo ponto em outro escritor, se este for famoso ou idolatrado o suficiente, de forma que o zelo e cinismo deles apenas sairia pela culatra.
Esses elitistas são os descendentes espirituais dos fariseus, e existem por toda a parte. Eles gostam de perguntar: “Com que autoridade estás fazendo estas coisas?” (Mateus 21:23), quando na verdade é a autoridade deles que vem de outro. Como no caso dos fariseus, o apelo deles não é feito a Cristo, mas a ídolos e tradições humanas. Eles condenariam alguém por seguir a prática bíblica de xingamento, mas não hesitariam em praticar a idolatria de citar pessoas famosas como autoridade.[1] A sabedoria deles não é pura e espiritual, mas demoníaca. Por mera influência ao invés de razão, eles tentam intimidar os cristãos à submissão. Eles não devem ser temidos, mas resistidos, zombados e desprezados.
A Escritura não tolera o elitismo. Ela não exclui alguém por causa de padrões mundanos e tradições humanas. A sabedoria espiritual está disponível a todo cristão que pede a Deus por ela. Aqui Paulo ora por todos os crentes em Colosso, para que todos eles recebam “sabedoria e entendimento espiritual”. Tiago escreve: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhes será concedida” (Tiago 1:5), embora ele diga que isso requer fé e paciência. De qualquer forma, essa sabedoria leva à humildade e boas obras (Tiago 3:13), enquanto a sabedoria demoníaca dos incrédulos e elitistas exibe inveja e ambição egoísta (Tiago 3:14), e freqüentemente uma cobiça por poder, controle e admiração.
As boas novas é que a sabedoria espiritual que é necessária para se desenvolver como um crente, e para crescer em fé, amor e esperança, está disponível a todo cristão através dos meios que Deus providenciou, tais como a oração e o estudo. Mas isso também remove qualquer escusa do crente para ignorância espiritual e teológica. Um falta de educação formal não é escusa, visto que a sabedoria espiritual vem de Deus, e não do homem.
A promessa de Deus na Escritura, de que ele derramará sua sabedoria sobre aqueles que pedem, é mais que suficiente para sobrepujar qualquer obstáculo que pareça estar presente devido à carência de treinamento acadêmico. Negar isso é negar também o poder e a promessa de Deus. Por outro lado, existem aqueles que se orgulham em continuar sem uma educação formal, e ao mesmo tempo não se esforçam para adquirir sabedoria e conhecimento através de oração e estudo. Isso não é espiritualidade, mas delírio auto-justificador. O ponto é, quer alguém tenha recebido ou não uma educação formal ou qualquer treinamento facilitado pelo homem, a verdadeira sabedoria vem de Deus, através dos meios apontados por ele, e isso não leva ao elitismo, mas à humildade e serviço com grande intrepidez.
Então, Paulo continua: “E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra” (1:10). A Bíblia ensina uma forte conexão entre a verdadeira sabedoria e a conduta santa. Por exemplo, os versículos que citamos da carta de Paulo aos Filipenses diz que devemos abundar “em conhecimento e em toda a percepção”, para que possam ser “puros e irrepreensíveis”. Nossa passagem fala de ser cheio do “pleno conhecimento da vontade de Deus”. A “vontade” de Deus em tal contexto denota seus preceitos, e não seus decretos, isto é, a moralidade que ele definiu, e não a realidade que ele determinou. Um crente forte e que está progredindo, portanto, é alguém que está aprendendo e obedecendo à vontade de Deus, ou aos ensinos e preceitos da Bíblia.
Há três observações que podemos fazer em conexão com isso. As duas primeiras são dois lados da mesma questão, e a terceira nos levará a uma discussão separada.
Primeiro, Paulo ora para que os crentes recebessem sabedoria espiritual com o intuito que essa também produziria boas obras. O fruto natural da sabedoria piedosa é uma vida piedosa, pois essa sabedoria tem dentro dela o conhecimento que define piedade, o entendimento que essa é a maneira como devemos viver, e a percepção em concordar com tudo o que Deus revelou. Assim, a verdadeira sabedoria leva à conduta piedosa, mas o que parece ser uma conduta piedosa é somente tal se for um produto da sabedoria de Deus. Uma conformidade exterior a um preceito de Deus que esteja baseada num motivo mau, ou num falso entendimento, não é piedosa de forma alguma. A conformidade nesse caso é incidental e não intencional. Além do mais, uma vida piedosa não é caracterizada pelo altruísmo somente, mas também por perseverança, paciência, alegria e gratidão.
O primeiro ponto é provavelmente aceitável para a maioria e amplamente enfatizado, mas no segundo ponto devo desafiar um ensino comum. Essa é a idéia que se o conhecimento não levar às boas obras, então o conhecimento é inútil, e se a teologia de alguém não produzir santidade, então a teologia é defeituosa. Juntamente com isso vem a afirmação que o conhecimento está necessariamente amarrado à piedade, e que o único propósito da teologia é produzir uma vida piedosa. (Existem variações desse ensino, mas a idéia básica é a mesma.) Contudo, a Bíblia não ensina isso.
O que acabamos de mencionar é freqüentemente afirmado sobre a base de passagens como Colossenses 1:9-14, na qual Paulo de fato pede sabedoria espiritual para os seus leitores, para que eles “frutifiquem em toda boa obra”. Mas essa é uma inferência falsa e um uso inapropriado da passagem. Contrário ao ensino popular, essa relação não se sustenta da mesma forma quando é revertida – o fato da teologia intentar produzir piedade não torna a teologia inútil quando não existe piedade. Não há necessidade de explicação detalhada. A idéia está simplesmente ausente da passagem.
Nem mesmo 1 Coríntios 13 apóia o ensino. Ali Paulo diz: “Ainda que eu… saiba todos os mistérios e todo o conhecimento… se não tiver amor, nada serei”. Ele não diz que o conhecimento não é nada, ou que a capacidade de saber não é nada, mas que a pessoa que não tem amor não é nada. Teologia é uma revelação da mente de Deus, e como tal possui valor intrínseco, de forma que denegri-la beira a blasfêmia, se já não o for. Quando existe teologia sadia e nenhuma conduta correta, denigramos a pessoa – ela é inútil e desprezível – e não a teologia.
Terceiro, Paulo ora para que os cristãos sejam “cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (ACF). Diferente de muitos crentes, que exibem humildade fingida ou incredulidade genuína, o apóstolo ora para que seus leitores sejam cheios de conhecimento em toda a sabedoria. Ele pede o máximo para eles – a plenitude – em termos da natureza do conhecimento e a capacidade deles conter e compreendê-lo.
Sem dúvida, mesmo o nosso máximo tem um limite (1 Coríntios 13:12), mas o apóstolo coloca esse limite bem adiante, muito além daqueles que exaltam a doutrina da nossa “mente humana finita” acima da generosidade e promessa de Deus (Tiago 1:5), e seu poder na conversão. Essa plenitude de toda a sabedoria é extensa o suficiente que, se obtida, capacita-nos a “em tudo… agradá-lo, frutificando em toda boa obra” (Colossenses 1:9-10), servi-lo com “todo o poder” e “toda a perseverança” (v. 11). A oração de Paulo é por plenitude em conhecimento, santidade e poder. Visto que essa oração foi escrita sob inspiração divina, mesmo se não obtivermos tal plenitude, nunca devemos sugerir que isso seja impossível em princípio.
Esse ensino bíblico requer que revisemos algumas das formulações teológicas tradicionais que erroneamente exaltam as doutrinas da finitude e depravação humana acima das doutrinas da revelação e salvação. O motivo de não alcançarmos ou recebermos é um assunto, mas o que há para ser alcançado ou recebido é outro. Não devemos reduzir a graça de Deus e a obra de Cristo ao nível do nosso fracasso e incredulidade. Paulo diz que o dom de Deus é maior que o pecado do homem:
Entretanto, não há comparação entre a dádiva e a transgressão. Pois se muitos morreram por causa da transgressão de um só, muito mais a graça de Deus, isto é, a dádiva pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para muitos! Não se pode comparar a dádiva de Deus com a conseqüência do pecado de um só homem: por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação, mas a dádiva decorreu de muitas transgressões e trouxe justificação. Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo. (Romanos 5:15-17)
Visto que a presente discussão concerne à plenitude do conhecimento espiritual, é apropriado considerar a doutrina da incompreensibilidade de Deus em relação ao que foi dito acima. Alguns cursos em dogmática começam sua apresentação dos atributos divinos com a incompreensibilidade de Deus, e de uma maneira que estabelece um tom pessimista para o empreendimento teológico inteiro. Isso é contrário ao padrão bíblico.
Considere o exemplo de Romanos 11:33-35, uma passagem freqüentemente citada em relação à incompreensibilidade de Deus: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! ‘Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?’ ‘Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?’.” É abusar da passagem torná-la um ponto de referência absoluto, como se permanecesse sozinha na Escritura, ou fazer dela o ponto de partida da nossa teologia. O motivo é que, quando consideramos a passagem no contexto, observamos que ela aparece na conclusão de uma longa e extensiva seção doutrinária na qual Paulo expõe todo o escopo da teologia cristã, incluindo a criação divina, a depravação humana, o julgamento presente e futuro, a representação federal de Adão no pecado, a expiação vicária de Cristo na redenção, a justificação pela fé (e não pelas obras), a santificação pelo Espírito, a predestinação e muito mais. Por volta de Romanos 11:33, Paulo tinha resolvido toda questão que ele tinha levantado, incluindo aqueles tópicos que muitos teólogos insistem chamar de mistérios e paradoxos, mesmo em desafio contra a Escritura, tais como o propósito e justiça de Deus na eleição (Romanos 9), e seus decretos soberanos (Romanos 10-11).
Charles Hodge pensa que a passagem afirma “o caráter incompreensível e a excelência infinita da natureza e dispensações divinas”, e que “podemos apenas nos maravilhar e adorar. Nunca podemos entender”.[2] Contudo, isso não é de forma alguma o que a passagem sugere. Quer estejamos considerando o contexto imediato de Romanos 11 e Romanos 9-11, ou todo o material anterior de Romanos 1-11, o que exatamente não entendemos? O que Paulo não explicou? Ele abordou e resolveu todas as questões que levantou com pleno conhecimento e confiança.
Se entendemos ou não Paulo é outro assunto – eu disse que podemos, mas agora esse não é o nosso tópico. E se não entendemos Paulo, ainda não podemos atribuir isso à incompreensibilidade de Deus, visto que Paulo não parece ter problema em entender as coisas que escreve, de forma que não é impossível em princípio entender tudo o que ele expõe na carta. Agora, se Hodge quer dizer que Deus não pode ser “plenamente compreendido”,[3] então poderíamos concordar (todavia, com as qualificações que discutiremos mais tarde), mas certamente é errado dizer que “podemos apenas nos maravilhar e adorar. Nunca podemos entender”. Isso não é o que acontece em Romanos. Em Romanos, nos maravilhamos e adoramos porque entendemos Romanos 1 a 11 – tudo ali.
Consideremos Romanos 11:33-35 em seu contexto imediato. Ele escreve no versículo 25: “Porque quero que entendam este mistério” (ESV). Nosso propósito não requer que consideremos o mistério em si, mas somente que Paulo desejava que seus leitores entendessem o que ele chama de mistério. Como nas outras ocasiões em que usou a palavra, mistério não se refere a algo que é intelectualmente inatingível no sentido técnico, da forma como um cálculo poderia ser para uma criança. Antes, mistério é algo que podemos entender, mas, pelo menos por um período de tempo, não nos foi contado ou explicado.
Eu poderia pensar num número entre 1 e 100.000, e enquanto eu recusar revelá-lo, ele permaneceria um “mistério” para você. Mas você não teria dificuldade em entender caso eu lhe dissesse o número. Mistério na Escritura não indica algo que não possamos entender por causa da nossa compreensão limitada, mas a algo que não podemos descobrir, a menos que nos seja transmitido e explicado por revelação. Então, podemos entendê-lo, em muitos casos, sem qualquer dificuldade. Assim, Romanos 11:33-35 poderia estar expressando um senso de apreciação e maravilha pelo que Paulo tinha acabado de explicar e que acabamos de entender (seja em Romanos 11, 9-11, ou tudo de 1-11). Mas ele não deixa nenhuma questão sem resposta para 11:33-35 expressar uma incapacidade de descobrir ou entender algo.
Em particular, considere 11:34, que procede de Isaías 40:13. Paulo também cita o versículo em 1 Coríntios 2:16. Mas logo após o mesmo, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo”. E no versículo 12 escreve: “Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente”. Seu ponto é que não podemos conhecer a Deus e os seus caminho à parte de sua Palavra e Espírito (1:21), mas porque ele nos deu sua Palavra e Espírito, entendemos – muito bem, de fato (2:6-10, 13-16), pois “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (2:10).
É mais que provável que Paulo está fazendo um ponto similar com Isaías 40:13 e Romanos 11, isto é, não dizer que não podemos entender, mas dizer que podemos e entendemos, e ao mesmo tempo expressar maravilha diante do que já entendemos. E como em Coríntios 1-2, seu uso também transmite a suposição que não podemos entender a Deus e os seus caminhos sem ou além do que ele relevou – MAS, ele de fato revelou e explicou para nós tudo o que Paulo escreveu, e isso inclui a maioria, se não todos os tópicos que os teólogos freqüentemente chamam de misterioso, paradoxal e incompreensível. Paulo usa Isaías 40:13 para enfatizar a abundância de informação revelada aos crentes e o potencial deles para entendê-la, toda ela.
Paulo não começa sua carta aos Romanos com a incompreensibilidade de Deus, mas chamando a atenção para o quanto já sabemos agora sobre Deus – mesmo os incrédulos tentam suprimir este conhecimento – ao invés de quão pouco podemos saber sobre ele. Na verdade, para muitas pessoas, sua visão do nosso conhecimento é muito otimista para confrontar. Ele declara que até mesmo os incrédulos não podem fugir do conhecimento sobre este Deus, incluindo seu poder e sabedoria na criação (Romanos 1). Mesmo alguns dos princípios morais são inatos no homem (Romanos 2). Por toda parte vemos os incrédulos serem chamados corretamente de ignorantes sobre Deus, visto que suprimem o que sabem sobre ele, e não o conhecem no sentido de ter um relacionamento positivo com ele. Nesse instante o ponto é que Paulo não começa sua carta – ou, nessa questão, quaisquer de suas apresentações – com a incompreensibilidade de Deus. Mas descobrimos que ele freqüentemente começa com a cognoscibilidade de Deus, especialmente quando diz respeito aos cristãos – eles podem e de fato conhecem a Deus, e podem e possuem conhecimento extensivo e correto sobre ele.
Ele escreve em 1 Coríntios 1:21: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação”. Deus não pode ser descoberto ou entendido por meio do esforço humano somente, à parte da revelação. Deus se revela por meio do evangelho, que salva aqueles que crêem. Os incrédulos de fato possuem um conhecimento inato de Deus, um conhecimento que Deus colocou neles. Eles não o obtém por sua sabedoria humana. E eles são na verdade tão estúpidos que muitos deles negam esse conhecimento, mesmo quando as suposições no discurso e conduta deles denunciam o contrário. Esse conhecimento universal é suficiente para condená-los, mas insuficiente para iluminá-los para a verdade e produzir fé para com Cristo.
Nosso foco principal, contudo, é sobre como a incompreensibilidade de Deus se aplica aos cristãos. E descobrimos que mesmo antes de 1:21, no início da carta, Paulo diz: “Pois nele vocês foram enriquecidos em tudo, isto é, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês” (1 Corinthians 1:5-6). Então, no final do segundo capítulo, após citar Isaías 40:13, um versículo freqüentemente usado para afirmar a incompreensibilidade de Deus, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (2:16). Tudo isso – que embora os incrédulos saibam sobre ele, negam-no, mas que os crentes o conhecem através de sua auto-revelação – é consistente com o que dissemos sobre Romanos 1-2 e 11.
Tomamos outro exemplo do discurso de Paulo aos gregos na Colina de Marte, como registrado em Atos 17. Ali ele começa com uma afirmação confiante de seu próprio conhecimento sobre Deus em contraste com a ignorância dos não-cristãos (v. 23). O restante do seu discurso traz uma semelhança notável com muitas das nossas dogmáticas em esboço e conteúdo.[4] Podemos multiplicar os exemplos. A carta aos Hebreus começa chamando atenção para a revelação verbal de Deus entregue através dos profetas, e agora por meio do Filho (Hebreus 1:1-2). Assim, ela começa com a nossa extensa e crescentemente clara base de dados de conhecimento espiritual, não com ignorância ou incompreensibilidade divina. E João começa sua primeira carta afirmando contato físico com Cristo, a quem, à parte de sensação (Mateus 16:17; João 6:45; 1 Coríntios 2:9-10), ele reconheceu como a Palavra da Vida (1 João 1:1-3). Assim, ele começa com uma afirmação de conhecimento e entendimento direto, não com a ocultação ou incompreensibilidade de Deus.
Em sua Teologia Sistemática, Louis Berkhof precede sua discussão dos atributos de Deus com um capítulo sobre a “Cognoscibilidade de Deus”. Mas ele começa esse capítulo da seguinte forma: “A igreja cristã confessa, por um lado, que Deus é o Incompreensível, mas também, por outro lado, que ele pode ser conhecido e que conhecê-lo é um requisito absoluto para a salvação”.[5] A declaração é aceitável até onde ela vai, embora a ênfase aqui reverta o padrão que a Escritura exibe quando se dirige aos crentes, que constituem a audiência primária de Berkhof.
Ele continua: “Ela reconhece a força da questão levantada por Zofar: ‘Porventura desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até a perfeição do Todo-Poderoso?’ (Jó 11.7).” Mas isso é um uso incorreto do versículo. Quem disse que estamos tentando conhecer a Deus “desvendando”? Já conhecemos 1 Coríntios 1:21: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação”. Ficamos desesperados ao tentar conhecer a verdade espiritual através dos nossos esforços pecaminosos, mas “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (2:10), tornando Jó 11:7 praticamente irrelevante nesse contexto. Nem mesmo tentamos fazer o que o versículo nos diz que não podemos fazer.
Então, em sua Reformed Dogmatics (Dogmática Reformada), Herman Bavinck começa sua apresentação da teologia propriamente dita como segue:
Mistério é a força vital da dogmática. Sem dúvida, o termo “mistério”na Escritura não significa uma verdade abstrata sobrenatural no sentido católico romano. Todavia, a Escritura está igualmente longe da idéia que os crentes podem compreender os mistérios revelados num sentido científico. Na verdade, o conhecimento que Deus revelou de si mesmo na natureza e na Escritura está muito além da imaginação e entendimento humano. Nesse sentido, é com todo o mistério que a ciência da dogmática se preocupa, pois ela não lida com criaturas finitas, mas do princípio ao fim deixa todas as criaturas para trás e se foca no Eterno e Infinito. Desde o começo dos seus labores, ela encara o Incompreensível.[6]
Isso provavelmente soa como sóbrio e piedoso para muitas pessoas, mas afirma o oposto do padrão e ênfase bíblica. Pelo menos ele levanta o ponto relevante do entendimento da revelação pelos crentes, e não tenta conhecer a Deus por seu próprio esforço. Mas para o nosso desapontamento, ele diz que o cristão mal pode entender o que está revelado. Pelo contrário, Jesus diz, “eu… lhes falarei abertamente a respeito do meu Pai” (João 16:25) e Paulo diz, “nós… temos a mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16). Há suporte zero na Escritura para a idéia que não podemos, mesmo em princípio, entender algo que Deus nos revelou.
De fato, refrasear o parágrafo de Bavinck na direção oposta apresenta um sumário acurado da visão bíblica:
Entendimento é a força vital da dogmática. A Escritura está longe da idéia que os crentes não podem compreender a plenitude da revelação. Na verdade, o conhecimento que Deus revelou de si mesmo na Escritura é apropriado para o intelecto redimido. Nesse sentido, é com todo o entendimento que a ciência da dogmática se preocupa, pois ela não lida com a investigação de criaturas finitas e pecaminosas, mas do princípio ao fim deixa todas as criaturas para trás e se foca no Eterno e Infinito, que revelou a si mesmo. Desde o começo dos seus labores, ela encara Aquele que conhece a mente humana, e que iluminou os que crêem, e que se revelou claramente a eles numa forma que podem entender.
Começar o empreendimento teológico com ignorância e pessimismo, ao invés de afirmação confiante do conhecimento, embora já tenhamos recebido a Palavra e o Espírito de Deus, é colocara nós mesmos na posição de não-cristãos. Isso não é humildade, mas uma negação arrogante e rebelde da graça de Deus e a obra que ele tem realizado em nós.
O padrão bíblico é começar pela cognoscibilidade de Deus – não somente que ele é cognoscível, mas que como cristãos o conhecemos – e se deve ser mencionada de alguma forma, concluir com a incompreensibilidade de Deus após todas as questões terem sido respondidas e resolvidas. A única razão aceitável para introduzir essa doutrina no princípio é incluir o tópico sob a cognoscibilidade de Deus, e então usar a doutrina para enfatizar o fato que Deus se fez cognoscível e conhecido, especialmente àqueles que crêem (1 Coríntios 1-2).[7]
A doutrina bíblica é que não podemos conhecer a Deus por nossos esforços e métodos, mas conhecemos somente o que ele nos revela – isto é, o que ele nos diz. Não podemos conhecer e não deveríamos especular além do que ele revelou. Deus revelou uma abundância de informação para nós, muito mais do que muitos teólogos estão dispostos a reconhecer. Essa quantidade de informação é suficiente para constituir uma cosmovisão completa que responda todas as questões necessárias, e de uma forma que seja explícita e consistente, sem contradições aparentes ou reais.
Os teólogos freqüentemente apresentam uma visão diferente concernente à extensão real dessa revelação e a natureza do nosso entendimento dela. Meu julgamento é que as propostas comuns são falsas, e geralmente blasfemas, pelo menos por implicação.
Primeiro, há a afirmação prematura, veementemente defendida, que Deus não revelou nada além do que temos entendido. Assim, algumas questões são ditas estarem além da revelação que temos, quando a verdade é que as questões estão além do nosso entendimento ou as respostas estão além da nossa disposição em aceitar. Toda essa conversa sobre “mente humana finita” equivale a mensurar a revelação divina por nossa finitude humana. É o próprio oposto da humildade.
Segundo, há a insistência violenta que a revelação como a temos contém inúmeros paradoxos e contradições, e que somente revelação adicional, que não receberemos nessa vida presente, fornecerá material necessário para o entendimento e reconciliação. Essa negação da clareza da revelação e o efeito da redenção é tão essencial para o pensamento teológico e a postura eclesiástica de alguns teólogos, que eles até mesmo tentam remover ministros que insistem que a revelação de Deus é inteligível e auto-consistente.
J. H. Thornwell conclui sua palestra sobre “"The Nature and Limits of Our Knowledge of God” (A Natureza e Limites do Nosso Conhecimento de Deus) da seguinte forma:
Nossa ignorância do Infinito é a verdadeira solução dos problemas mais perplexantes que encontramos a cada passo no estudo da verdade divina. Temos ganhado um grande ponto quando descobrimos que eles são realmente insolúveis – que contém um elemento que não podemos entender, e sem o qual o todo deve permanecer um mistério inexplicável. As doutrinas da Trindade, da encarnação, da presciência de Deus e da liberdade do homem, a permissão da queda, a propagação do pecado original, as operações da graça eficaz, todos esses são fatos claramente ensinados; como fatos podem ser prontamente aceitos, mas desafiam todos os esforços de reduzi-los à ciência.[8]
Ele parece dizer que se não podemos “reduzi-los à ciência”, então eles são “inexplicáveis”. Ele está realmente afirmando essa relação? Algo é “ciência” ou então é inexplicável? Por que? E o que ele quer dizer por “ciência”? Por que deveríamos reduzir algo à “ciência”? Não gastaremos tempo com essas perguntas. Nesse ponto, precisamos observar apenas que ele chama aquelas doutrinas mencionadas de “inexplicáveis”, e que carregam problemas que são “insolúveis”.
Primeiro, os “problemas” com todas essas doutrinas têm sido conclusivamente resolvidos, freqüentemente apenas apontando que não existem problemas em primeiro lugar – eles foram inventados pela tradição e filosofia humana.[9] Se Thornwell não conhece ou recusa aceitar essas soluções, isso é falha dele. Mas quando ele propõe que a “ignorância” é a “solução” para todos esses problemas, então devemos protestar que tudo da Escritura é contra ele, tanto em seu padrão como conteúdo. A Escritura não usa a ignorância como uma escusa para os crentes ou como uma defesa contra os incrédulos. Ela não admite nenhuma incoerência interna, e não apela à infinitude de Deus ou à finitude do homem para “resolver” o problema. Quando seguimos Thornwell, que representa apenas um dos muitos como ele, introduzimos confusão e falsa humildade nos cristãos, e ao invés de exaltar a verdade do evangelho diante dos incrédulos, confirmamos eles em sua descrença e irreverência.
De fato, começar nossa consideração da doutrina de Deus com sua incompreensibilidade, e introduzir pessimismo para os crentes, é modelar a disposição pagã de suprimir o conhecimento de Deus, talvez a partir de um motivo similar, isto é, abrir lugar para a incredulidade, discórdia e desobediência contra ele. A diferença é o ponto de partida para a negação – os incrédulos negam a Deus num ponto anterior – mas o princípio é idêntico. E de fato descobrimos que a incompreensibilidade de Deus é freqüentemente usada como uma escusa para rejeitar as respostas de Deus a inúmeras questões doutrinárias.
Insistir que não podemos entender algo quando Deus repetidamente a explica e responde todas as questões sobre ela – por exemplo, quando diz respeito ao “problema” do mal – é apenas uma forma polida de dizer que rejeitamos a revelação de Deus sobre o assunto. É uma tentativa de pensar como o diabo, mas falar como um santo. E é dessa forma que ensinos sobre a incompreensibilidade de Deus e a finitude da mente humana são, na maioria dos casos, usados para demonstrar falsa humildade e disfarçar rebelião grosseira contra a revelação explícita e completa de Deus.
Suponha que exista uma criança cujos pais entendam como ela processa a informação e forneçam a ela explicações e instruções detalhadas, mas ela tapa seus ouvidos e grita: “Não! Não! Não! Eu não entendo! Vocês são por demais sábios e maduros, muito além de mim, mas eu sou apenas uma criança. Não posso entender o que vocês estão dizendo”. Não há humildade aqui; antes, ela zomba de seus pais e despreza a autoridade deles. El é uma criança irritante e desobediente que precisa de correção e disciplina.
Agora, é Deus infinitamente maior que os pais humanos, de forma que ele está de fato muito além do nosso entendimento? Sim, mas ele é também infinitamente mais versado sobre a mente humana, infinitamente mais capaz de explicar a si mesmo, com um acesso infinitamente maior às nossas almas pelo seu Espírito. Se falamos com fé e honestidade, teremos que dizer que podemos conhecer a Deus e sua vontade muito mais do que podemos conhecer nossos pais humanos. Isso pode não ser muito ainda, comparado a tudo o que existe para ser conhecido sobre um ser infinito. Nunca poderemos saber tudo sobre ele, mas conhecemos nossos pais bem menos.
Paulo escreve: “Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus. Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente” (1 Coríntios 2:11-12). Em nós mesmos, não temos acesso à mente do homem nem à mente de Deus, mas Deus nos revelou a sua mente (não a mente de outros homens) pelo seu Espírito. A Escritura é consistentemente otimista sobre a capacidade dos cristãos conhecer a Deus. A doutrina tradicional da incompreensibilidade de Deus que ensina o posto é absolutamente condenável.
Os críticos podem dizer agora: “Ah, agora ele alega ter todas as respostas”. Baseado no padrão das objeções anteriores, deveríamos antecipar isso como uma possível reação. Mas essa resposta mostra uma vez mais quão obcecados eles estão com personalidade e consigo mesmo. Quanto um cristão em particular sabe é irrelevante para uma formulação apropriada da doutrina. Nossa preocupação principal tem sido a posição bíblica, ou o princípio do assunto. Também, durante toda a nossa discussão deixamos claro que esse otimismo bíblico é aplicado a todos os cristãos, embora seja retido daqueles que permanecem em incredulidade. Por outro lado, os nossos críticos e os teólogos que eles seguem desejam impor suas próprias limitações sobre todos os crentes, e mesmo sobre o conteúdo da Palavra de Deus e o poder do Espírito de Deus.
Ao revisar a doutrina tradicional da incompreensibilidade de Deus, devemos reconsiderar também a terminologia que é usada e a cetegoria que é assumida. Concorda-se que Deus é infinito e, portanto, há quantidade infinita de informação que poderia ser conhecida sobre ele. E visto que somos finitos, isso significa que nunca podemos saber tudo sobre Deus. Nesse sentido, Deus é incompreensível. Não é que não possamos entender algo sobre ele de forma alguma, mas que ele pode ser conhecido somente até o ponto que revelou a si mesmo.
Os teólogos caem em erro, e eu diria heresia e blasfêmia, quando dizem que não podemos conhecer nem mesmo a revelação escrita de Deus. Mas eles são freqüentemente ambíguos e inconsistentes nesse ponto. Em todo o caso, a questão importante agora é observar que “incompreensível” freqüentemente significa que não podemos entender nada sobre Deus, e não apenas algo sobre Deus. E a dourtina é geralmente introduzida como uma característica intrínseca da natureza de Deus, ou um atributo de Deus.
Com respeito à terminologia, a palavra “incompreensível” poderia ser enganosa, visto que pode, e geralmente é usada em dois sentidos diferentes. A primeira definição no Merriam-Webster's Dictionary, designada como arcaica, é “não ter ou não estar sujeito a limites”. Essa definição é apropriada para a doutrina, visto que de fato admitimos que não podemos conhecer a totalidade de Deus, pois ele é infinito. Contudo, a segunda definição, não arcaica, é “impossível de se compreender: ininteligível”. Essa não é a idéia que desejamos transmitir pela doutrina. Sem dúvida existem teólogos que algumas vezes afirmam que Deus é incompreensível nesse sentido, mas já dissemos o suficiente sobre eles até aqui – a Escritura expõe a falsa humildade deles. Deus e sua revelação não são ininteligíveis. Visto que a primeira definição é arcaica, talvez o Webster's New World Dictionary esteja correto em reverter a ordem, de forma que sua primeira definição da palavra é “não compreensível; que não pode ser entendido; obscuro ou ininteligível”. Novamente, não devemos dizer que Deus e sua revelação são incompreensíveis nesse sentido.
O ponto é que o significado primário para “incompreensível” é agora “ininteligível”. E esse é o primeiro significado que vem à mente quando muitos crentes e incrédulos tomam conhecimento da doutrina. Se isso é o que queremos dizer, então estamos errados. Mas se não é isso, então estamos enganando nossa audiência e comprometendo a fé. Os crentes que lutam contra os assultos de fora, bem como suas próprias dúvidas, pensarão que não temos respostas para eles. E os incrédulos que já pensam que o Cristianismo é irracional e que os cristãos são tolos receberão confirmação de sua suspeita – seus próprios teólogos chamam Deus e sua revelação de “ininteligível”, que não está muito longe de dizer “completo absurdo”.
Nossa única opção é repudiar os teólogos e crentes que falam dessa forma (eles não representam a fé cristã), e declarar novamente a nossa doutrina de acordo com a Escritura – que Deus revelou a si mesmo de uma maneira clara e coerente, e de uma forma apropriada para o intelecto humano, que entendemos muito sobre Deus e sua revelação, e que somos capazes de responder todas as questões e desafios contra a fé, e que enquanto os não-cristãos permanecem em cegueira e ignorância, nós lhes proclamamos a plenitude da vontade de Deus a partir de uma posição de conhecimento e autoridade (Atos 17:23).
Para corrigir esse problema de termilogia enganosa, podemos incluir essa doutrina sob o tópico “cognoscibilidade” de Deus (e enquanto estivermos no assunto, talvez “compreensibilidade” seja uma palavra melhor), ou inclui-la sob o tópico “infinidade” de Deus. Ele é infinito, mas inteligível e compreensível. Ele tem falado abundante e claramente à humanidade. E é a partir desse fundamento de revelação, conhecimento e entendimento que proclamamos: “Agora [Deus] ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos 17:30).
Com respeito à categoria, deveríamos observar que a incompreensibilidade de Deus é de fato um atributo do homem. Se um gato não pode me entender completamente, isso não significa que a incompreensiblidade seja inerente em mim, ou que seja um dos meus atributos. Se eu pudesse ser plenamente entendido, mesmo que apenas em princípio ou somente por Deus, então a incompreensibilidade não seria um dos meus atributos.
Deus é incompreensível às suas criaturas, mas visto que ele é onisciente, ele não é incompreensível para si mesmo. Visto que ele entende plenamente a si mesmo, a incompreensibilidade não pode ser uma das suas qualidades intrínsecas. Ele não é incompreensível; nós o achamos incompreensível. E o atributo divino que o torna incompreensível a nós é a sua infinidade, não um atributo intrínseco de incompreensibilidade.
Se nao houvessem criaturas, Deus ainda seria triúno, espiritual, eterno, auto-existente, imutável, onipotente, onisciente, onipresente, e assim por diante. Mas não haveria ninguém para achá-lo incompreensível. Ele ainda seria infinito, e o seu entendimento infinito compreenderia completamente o seu proprio ser infinito.

[1] Nota do tradutor: O autor usa o termo “name-dropping”, que é a prática de freqüentemente mencionar nomes de pessoas famosas ou intelectuais como se essas lhes fossem íntimas, para impressionar os outros.
[2] Charles Hodge, A Commentary on Romans (The Banner of Truth Trust, 1997), p. 378.
[3] Ibid.
[4] Veja Vincent Cheung, Confrontações Pressuposicionalistas.
[5] Louis Berkhof, Systematic Theology (The Banner of Truth Trust, 2003), p. 29.
[6] Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Volume Two: God and Creation (Baker Academic, 2004), p. 29.
[7] Isso é o que eu fiz em minha Teologia Sistemática.
[8] James Henley Thornwell, The Collected Writings of James Henley Thornwell (Solid Ground Christian
Books, 2004), p. 141-142.
[9] Veja Vincent Cheung, Teologia Sistemática, Questões Últimas, Confrontações Pressuposicionalistas, Apologética na Conversação, Commentary on Ephesians, O Autor do Pecado e Cativo à Razão.


Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Progressistas, reacionários, histeria e a longa marcha gramsciana


Por que a esquerda sempre faz uma oposição histérica a toda e qualquer ínfima medida ou iniciativa que seja por ela tida como "antiprogressista" ou, pior ainda, "reacionária"? Seja no quesito aborto, no quesito dos "direitos" dos homossexuais ("direitos", no linguajar esquerdista, nada mais são do que deveres impingidos aos pagadores de impostos), nos privilégios raciais e sindicais, no feminismo, no desarmamento e até mesmo em tímidas propostas de reformas assistencialistas, a esquerda progressista sempre reage com um furor frenético contra qualquer pessoa — seja político, comentarista político ou apenas alguém da mídia alternativa — que se atreva a fazer algo que leve a um pequeno recuo destes sagrados esquemas socialistas.

O frenesi progressista que vem varrendo o mundo começou realmente no final dos anos 1930. Naquela época, vivendo em Nova York, minha família, meus amigos e meus vizinhos, todos esquerdistas, haviam chegado ao paroxismo do medo e da raiva por causa da contrarrevolução de Franco e da iminente derrocada do governo espanhol esquerdista durante a Guerra Civil Espanhola. Superabundavam denúncias e vituperações lacrimosas contra Franco, além de contínuas exortações para que "alguma coisa fosse feita". Houve a criação de organizações especializadas em enviar de tudo para a Espanha, desde leite até armas e soldados. Era a "Brigada Internacional", criada para defender a esquerda espanhola (alcunhada de "Legalistas" pelo sempre simpatizante The New York Times e por outros veículos da mídia "respeitável").

Vale enfatizar que estas pessoas jamais — nem antes e nem durante — haviam demonstrado qualquer tipo de interesse pela história, cultura ou política espanhola. Logo, por que repentinamente passaram a se preocupar com o país? O historiador esquerdista Allen Guttman chegou até a documentar e celebrar esta histeria em relação à Espanha em seu livro A Ferida no Coração (o título já diz tudo). Certa vez perguntei ao meu amigo Frank S. Meyer, que havia sido um proeminente comunista americano, a respeito deste enigma. Ele deu de ombros: "Nós [os comunistas] nunca conseguimos entender o porquê. Mas tiramos proveito do sentimentalismo progressista da questão".

A explicação ortodoxa dos historiadores é que os esquerdistas da época — cujo quartel-general, a fonte de financiamento, estava nos EUA — estavam especialmente temerosos quanto à "ameaça do fascismo", e defendiam freneticamente a esquerda espanhola porque viam a Guerra Civil daquele país como um prenúncio de uma inevitável Segunda Guerra Mundial. Mas o problema com esta explicação é que, embora a esquerda progressista houvesse defendido entusiasmadamente a "boa" Guerra contra o Eixo, ela nunca realmente arregimentou a mesma emotividade, a mesma exaltação, o mesmo furor que demonstrava em relação a Franco contra Hitler, por exemplo.

Então, qual a verdadeira explicação para a atual postura da esquerda em relação a temas cultural e economicamente progressistas?

Creio que uma pista pode ser encontrada na mini-histeria que a esquerda demonstrou a respeito da contrarrevolução ocorrida contra o regime esquerdista da Salvador Allende no Chile, uma contrarrevolução que colocou o General Augusto Pinochet no poder. A esquerda, até hoje, ainda não perdoou a direita chilena e a CIA por este golpe. Allende ainda é considerado um mártir querido pela esquerda, e sua filha Isabel, um ícone (embora ainda percam para Che Guevara). Seria esta raiva tão duradoura só porque um regime comunista foi derrubado? Quase, mas ainda longe. Afinal, a esquerda não demonstrougrandes emoções, não demonstrou nenhum desespero, quando os regimes comunistas entraram em colapso na União Soviética e no Leste Europeu.

Logo, sugiro que 'A Resposta' para este mistério é a seguinte: a esquerda é, em sua essência, "progressista", o que significa que ela acredita, à moda marxista ou Whig, que a história consiste em uma 'inevitável marcha ascendente' rumo à luz, rumo à utopia socialista. A esquerda progressista acredita no mito do progresso inevitável; ela acredita que a história está ao seu lado, sempre conspirando a seu favor. Sendo ela formada por social-democratas (mencheviques), primos dos comunistas (bolcheviques) — com quem vivem entre tapas e beijos —, a esquerda progressista possui um objetivo similar ao dos comunistas, mas não idêntico: um estado socialista igualitário, gerido totalmente por burocratas, intelectuais, tecnocratas, "terapeutas" e pela Nova Classe iluminada, geralmente em colaboração com — e sempre sendo apoiada por — credenciados membros de todos os tipos de grupos vitimológicos, aquela gente que se diz perseguida e que vive lutando por "direitos iguais" — sendo que o 'iguais' significa na verdade 'superiores'. Estes grupos são formados por negros, mulheres, gays, deficientes, índios, cegos, surdos, mudos etc.

A esquerda progressista acredita que a história está marchando inexoravelmente rumo a este objetivo. Uma parte vital deste objetivo é a destruição da família tradicional, "burguesa" e composta de pai e mãe, que deve ser substituída por um sistema em que as crianças são criadas e educadas pelo estado e por sua Nova Classe de orientadores, tutores, terapeutas e demais "cuidadores" infantis.

A utópica marcha da história, objetivo dos social-democratas, também é similar à dos comunistas, mas não exatamente a mesma. Para os comunistas, o objetivo era a estatização dos meios de produção, a erradicação da classe capitalista, e a tomada de poder pelo proletariado. Já os social-democratas entenderam ser muito melhor um arranjo em que o estado socialista mantém os capitalistas e uma truncada economia de mercado sob total controle, regulando, restringindo, controlando e submetendo todos os empreendedores às ordens do estado. O objetivo social-democrata não é necessariamente a "guerra de classes", mas sim um tipo de "harmonia de classes", na qual os capitalistas e o mercado são forçados a trabalhar arduamente para o bem da "sociedade" e do parasítico aparato estatal. Os comunistas queriam uma ditadura do partido único, com todos os dissidentes sendo enviados para os gulags. Os social-democratas preferem uma ditadura "branda" — aquilo que Herbert Marcuse, em outro contexto, rotulou de "tolerância repressiva" —, com um sistema bipartidário em que ambos os partidos concordam em relação a todas as questões fundamentais, discordando apenas polidamente acerca de detalhes triviais — "a carga tributária deve ser de 37% ou de 36,2%?".

Liberdade de expressão, de imprensa e de ideias é tolerada pelos social-democratas, mas desde que ela se mantenha dentro de um espectro de opiniões pré-aprovadas. Os social-democratas repelem a brutalidade dos gulags; eles preferem fazer com que os dissidentes padeçam da "suave" e "terapêutica" ditadura do politicamente correto, na qual eles forçosamente têm de aprender as maravilhosas virtudes de ser educado na "dignidade de estilos de vida alternativos", sempre submetidos a um intenso "treinamento de sensibilidade". Em outras palavras, Admirável Mundo Novo em vez de 1984. A "marcha ascendente da democracia" em vez da "ditadura do proletariado".

Também típica é a distinção, nas duas utopias, acerca de como lidar com a religião. Os comunistas, como fanáticos ateístas, tinham o objetivo de abolir por completo a religião. Já os social-democratas preferem uma abordagem mais suave: subverter o cristianismo de modo a fazer com que a religião se torne aliada da social-democracia. Daí a sagaz cooptação da esquerda cristã pelos social-democratas: enfatizando o modernismo entre os católicos e o evangelicalismo esquerdo-pietista entre os protestantes — este último objetivando criar um Reino de Deus na Terra na forma de uma coerciva e igualitária "comunidade de amor".

Trata-se de uma estratégia muito mais astuta: cooptar religiosos em vez de assassinar padres e freiras e confiscar igrejas — esta última feita pelo regime republicano espanhol e por seus partidários trotskistas e anarquistas de esquerda, algo que não gerou absolutamente nenhum grito de protesto por parte de seus devotos defensores progressistas e social-democratas ao redor do mundo.

Esta distinção nos objetivos — totalitarismo brando vs. radical — também é refletida na acentuada diferença entre as estratégias e dos meios utilizados. Os comunistas, ao menos em sua clássica fase leninista, ansiavam por uma revolução violenta e apocalíptica que destruiria o estado capitalista e levaria à ditadura do proletariado. Já os mencheviques — social-democratas ou neoconservadores —, fieis ao seu ideal "democrático", sempre se sentiram um tanto desconfortáveis com a ideia de revolução, preferindo muito mais a "evolução" gradual produzida pelas eleições democráticas. O estado deve ser totalmente aparelhado por intelectuais partidários e simpatizantes, de modo a garantir a continuidade da longa marcha gramsciana da conquista das instituições culturais e sociais do país. Daí a desconsideração pelos gulags e pela revolução armada. Por isso o desaparecimento de seus primos (e concorrentes) bolcheviques não ter sido lamentado pelos social-democratas. Muito pelo contrário: os social-democratas agora detêm o monopólio da marcha "progressista" da história rumo à Utopia.

O que me traz de volta à minha 'Resposta' sobre o porquê da histeria da esquerda progressista: ela se torna histérica sempre que percebe a ameaça de uma pequena reversão na Inevitável Marcha da História. Ela se torna histérica quando visualiza alguns empecilhos e, principalmente, retrocessos nesta sua inexorável marcha, retrocessos estes que sempre são rotulados, obviamente, de "reações". Na visão de mundo tanto de comunistas quanto de social-democratas, a mais alta — desde que "progressista" — moralidade é se mostrar não apenas um defensor, mas também, e principalmente, um entusiasmado fomentador da 'inevitável próxima fase da história'. É ser a "parteira" (na famosa expressão de Marx) desta fase. Da mesma forma, a mais profunda, se não a única, imoralidade é ser "reacionário", ser alguém dedicado a se opor a este inevitável progresso — ou, pior ainda, alguém dedicado a fazer retroceder a maré, a restaurar costumes enraizados, a "atrasar o relógio".

Este é o pior pecado de todos, e ele gera todo este frenesi justamente porque qualquer retrocesso bem-sucedido colocaria em dúvida aquele que é o mais profundo e o mais inquestionavelmente aceito mito "religioso" da esquerda progressista: a ideia de que o progresso histórico rumo à sua Utopia é inevitável.

Trata-se, no mais profundo sentido, de uma guerra não apenas cultural e econômica, mas religiosa. "Religiosa" porque social-democracia/progressismo de esquerda é uma visão de mundo passional, uma "religião" no mais profundo sentido, pois guiada unicamente pela fé: trata-se da ideia de que o inevitável objetivo da história é um mundo perfeito, um mundo socialista igualitário, um Reino de Deus na Terra, seja este deus "panteizado" (sob Hegel e os adeptos do Romantismo) ou ateizado (sob Marx).

Esta é uma visão de mundo em relação à qual não deve haver concessões ou clemência. Ela deve ser contrariada e combatida veementemente, com cada fibra de nosso ser.

Quem vai vencer essa guerra? Não se sabe. De que lado está a maioria da população? Certamente perdida, disponível para quem chegar primeiro. A maioria está confusa, vagando de um lado para o outro, dividida entre visões de mundo conflitantes. Ela pode pender para qualquer lado. Durante suas inúmeras batalhas faccionárias dentro do movimento marxista, Lênin certa vez escreveu que há dois grupos batalhando, cada um formado pela minoria da população, sendo que a maioria está no centro, e é formada justamente pelas pessoas confusas, às quais ele se referiu como O Brejo. A maioria da população hoje está confusa e constitui O Brejo; estas pessoas estão no terreno no qual a maioria das batalhas será disputada. E a metáfora é corretamente militar. A batalha iminente é muito mais ampla e profunda do que apenas discutir alíquotas de impostos. Trata-se de uma batalha de vida e morte pelo formato do nosso futuro. Daí se compreende o frenesi que acomete a esquerda sempre que uma medida "reacionária" parece ser favorecida pela sociedade.

A esquerda progressista não se importa muito com — na verdade, ela até gosta de — pequenos revezamentos de poder: uma década de governos abertamente progressistas, nos quais a agenda esquerdista é avançada, seguida de alguns anos de governo "oposicionista" ou "conservador", no qual há apenas uma consolidação ou simplesmente uma redução na velocidade do avanço. O que ela realmente teme é a perspectiva do conservadorismo se tornar reacionário, no sentido de realmente fazer retroceder alguns ganhos "progressistas". É isso que a apavora. Daí a histeria em relação a Franco e a Pinochet; daí o linchamento de Joe McCarthy, que realmente ameaçou ser bem-sucedido em fazer recuar não apenas os comunistas, mas até mesmo os progressistas e social-democratas. Ameace retroceder "direitos" obtidos por grupos de feministas, de gays, de negros, de desarmamentistas, de funcionários públicos, de sindicalistas ou de qualquer outro do ramo vitimológico, e você verá o que é uma fúria progressista.

Portanto, o combate requer, principalmente, coragem e nervos para não ceder e não se dobrar perante as totalmente previsíveis reações caluniosas e difamantes dos oponentes. Acima de tudo, o objetivo não deve ser o de se tornar querido e bem aceito por progressistas ou pela Mídia Respeitável. Tal postura irá gerar apenas mais rendição, mais derrotas. Igualmente, o objetivo não é apenas o de fazer retroceder o estado leviatã, sua cultura niilista e estas pessoas que querem se apossar do estado e impor sua agenda sobre nós. O objetivo tem de ser a eliminação completa e irreversível deste monstruoso sonho de um Perfeito Mundo Socializado gerido por "pessoas de bem".

Que a reação ocorra, que os "direitos" sejam retrocedidos, que esta gente recue, entre em órbita e finalmente perceba que, na realidade, sua religião é maléfica.


Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Sermão do Palácio de Cristal (maior congregação reunida no ministério de C.H.Spurgeon)

SERVIÇO de JEJUM E ORAÇÃO REALIZADO NO PALÁCIO DE CRISTAL, SYDENHAM, LONDRES, QUARTA-FEIRA, 7 DE OUTUBRO DE 1857,
PELO REV. C. H. SPURGEON.
PARA QUASE 24.000 PESSOAS REUNIDAS
(Essa foi a maior congregação reunida no ministério de Spurgeon para ouvir um único sermão)
Sendo o dia nomeado por Proclamação para um jejum solene, humilhação e oração perante o Deus Todo Poderoso, a fim de obter perdão pelos nossos pecados e implorar por Sua bênção e assistência em nosso armamento para a restauração e tranqüilidade na Índia.[2]

O Convertido Acústico do Palácio de Cristal

Spurgeon uma vez contou:
“Em 1857, um dia ou dois antes de pregar no Palácio de Cristal, fui para lá decidir onde a plataforma de onde eu pregaria deveria ser fixada, e, a fim de testar as propriedades acústicas da construção, gritei em alta voz: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo “. Em uma das galerias, um operário, que não sabia de nada do que estava sendo feito, ouviu essas palavras, que lhe veio como uma mensagem do céu para sua alma. Ele foi ferido com convicção por causa do pecado, guardou suas ferramentas, foi para casa, e lá, depois de uma temporada de luta espiritual, encontrado a paz e a vida por contemplar o Cordeiro de Deus. Anos depois, ele contou esta história a uma pessoa que o visitou em seu leito de morte. “

terça-feira, 24 de abril de 2012

O TENTADOR É UM INSTRUMENTO DE DEUs




Se Deus assim decretasse, ele poderia evitar que houvesse tentação no seu mundo. Ele é poderoso para impedir qualquer obra maligna em nosso meio. Todavia, ele é suficientemente soberano para servir-se de instrumentos para que sejamos tentados.
As tentações vieram porque ele enviou o Tentador a este mundo. Quando ele caiu em pecado, Deus o lançou neste mundo, para cumprir o seu propósito instrumental.

Satanás é o grande molestador dos cristãos. Ele vive passeando por nosso mundo (Jó 1.7; 2.2), porque ele é o lugar que lhe foi dado por Deus para que ele pudesse trabalhar como seu instrumento. Se não crermos dessa maneira, como a Escritura apresenta, teremos de admitir que Deus não pode fazer nada para impedir que ele faça o que ele sabe fazer tão sagazmente. Isso tornaria nosso Deus tão pequeno e impotente como alguns pensam que ele é! Portanto, Satanás percorre a face da terra para causar mal-estar aos filhos de Deus, incitando-os a desobedecer as leis estabelecidas do grande e santo Legislador. Ele vive para causar desconforto a nós e a todos os filhos de Deus espalhados pela face da terra.
Todavia, a despeito de todo o seu propósito mau no mundo dos homens, ele é o servo de Deus para cumprir os seus santos propósitos em nossa vida.
A Finalidade do Instrumento divino

A finalidade proposta por Satanás, que é um ser que possui livre agência, é perturbar, azucrinar, humilhar, desassossegar e derrubar os cristãos. Contudo, toda essa tentativa de Satanás é para cumprir o propósito divino de fortalecer a vida dos crentes, criando neles uma perseverança inamovível!
Ser tentado implica em algum tipo de sofrimento (Hb 2.18) e, no sofrimento o cristão é amadurecido, porque a tentação é uma espécie de prova ou teste a que Deus submete os seus filhos. A finalidade do teste é não somente averiguar o estado espiritual dos cristãos mas também torná-los experimentados e amadurecidos nessa esfera tão difícil da caminhada cristã.
É importante aprender da Escritura que a provação está relacionada com a tentação. É bom lembrar que as duas palavras abaixo, provação e tentação, possuem a mesma raiz e estão intimamente relacionadas. Tiago fez essa relação:

Tg 1.12-13 - “Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém ao ser tentado, diga: sou tentado por Deus. Porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta.”
Ser tentado é ser provado por Deus pela instrumentalidade de Satanás e por nós mesmos, de onde a tentação também procede. A finalidade da provação através da tentação é causar perseverança em nós, pois a perseverança produz experiência e a experiência esperança.

A Inteligência do Instrumento Divino

Satanás não é onisciente, mas ele é um astuto observador do comportamento humano. Ele observa você a mim e vai conhecendo o nosso temperamento e o modo como reagimos diante das situações. Ao observar a raça humana por milênios, Satanás aprendeu a lidar com ela e a lançar os seus dardos inflamados de acordo com as fraquezas de nosso temperamento. Como um inteligente lavrador ele lança a semente de acordo com o solo que tem. Como um astuto pescador, ele usa a isca própria para fisgar o tipo de peixe que quer. Não é qualquer isca que serve para pegar todo tipo de peixe como não é qualquer arapuca que serve que caçar todos os tipos de animais. Portanto, Satanás, conhecendo os nossos temperamentos ele adapta o tipo de tentação a que mais somos suscetíveis.

Fonte: O Ser de Deus e as Suas Obras. A Providência – Heber Campos

sexta-feira, 23 de março de 2012

Comece o Dia em Oração




Por Edward M. Bounds

Os homens que mais fizeram
para Deus neste mundo dobravam cedo seus joelhos. Aquele que joga fora o início
da manhã, sua oportunidade e frescor, perseguindo outras coisas ao invés de
buscar a Deus fará pobre progresso no sentido de buscá-lo o resto do dia. Se
Deus não é o primeiro em nossos pensamentos e esforços pela manhã, Ele estará em
último lugar no resto do dia. Por trás do levantar cedo e cedo orar está o
desejo ardente que nos preme no propósito de buscar a Deus. O sono profundo
pela manhã é indício de um coração em sono profundo. O coração que é tardo em
buscar a Deus pela manhã perdeu seu prazer por Deus. O coração de Davi ardia
por buscar a Deus. Ele tinha fome e sede de Deus, e por isso ele buscou a Deus
cedo, antes da luz do dia. A cama e o sono não puderam encarcerar sua alma em
sua ânsia por Deus. Cristo almejou comunhão com o Pai; e por isso levantava-se
muito antes que fosse dia, e ia ao monte orar. Os discípulos, quando
completamente despertos e envergonhados de sua indolência, sabiam onde
encontrá-lo. Nós poderíamos seguir a lista dos homens que impactaram
poderosamente o mundo para Deus, e iríamos encontrá-los buscando-o logo cedo.

Um desejo por Deus que não
quebra as cadeias do sono é algo fraco e fará muito pouco por Ele depois que tiver
satisfeito completamente a si mesmo. O desejo por Deus que mantém a distância
tanto o diabo quanto o mundo no início do dia nunca será escravizado. Não é
simplesmente o levantar que põe os homens à frente e os faz capitães nas hostes
de Deus, mas é o desejo ardente que os instiga e quebra todas as cadeias da
auto-indulgência. Mas o levantar-se traz alento, aumento, e força ao desejo. Se
eles estivessem deitados na cama agradando a si mesmos, o desejo teria se
extinguido. O desejo é o que os desperta e os faz curvar-se perante Deus, e
isto atendendo e agindo em resposta à sua fé; aproximam-se de Deus e seus
corações recebem a mais doce e completa revelação dEle; e esta força de fé e
abundância de revelação os faz santos por eminência, e o halo de sua santidade
chega a nós, e entramos no gozo de suas conquistas. Nos deleitamos com isto,
mas não o executamos. Nós construímos suas tumbas e escrevemos seus epitáfios,
mas não cuidamos em seguir seus exemplos. Precisamos de uma geração de
pregadores que busque a Deus e o busque cedo, que dê o frescor e o orvalho dos
esforços a Deus, e assegure de volta o frescor e a abundância do Seu poder; que
Deus possa ser para eles como o orvalho, pleno de alegria e força, através de
todo o calor e labor do dia. Nossa preguiça por Deus é nosso lamentável pecado.
Os filhos deste mundo são mais sábios do que nós. Eles estão nisto cedo e
tarde. Nós não buscamos a Deus com ardor e diligência. Nenhum homem busca a
Deus e não o segue firme, e nenhuma alma que o segue firme não o busca cedo
pela manhã.


Edward Bounds McKendree foi preparado para ser advogado,
mas em vez de seguir a carreira jurídica, entrou para o ministério com vinte e
poucos anos. Em 1859 ele foi ordenado como pastor da Igreja Metodista
Monticello em Missouri. Bounds foi capelão no exército confederado durante a
Guerra Civil Americana. Ele foi capturado pelo Exército da União, em Franklin,
Tennessee, e mais tarde libertado. Após a sua libertação, ele se esforçou para
reconstruir o estado espiritual de Franklin, iniciando sessões semanais de
oração. Bounds foi editor adjunto do jornal oficial Metodista, o Advogado
Cristão, e é mais conhecido por se
inúmeros livros sobre o tema da oração. Como a respiração
é uma realidade física para nós, a oração era uma realidade vital para Bounds