domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista com o Dr. Douglas Kelly


A Santificação e os Puritanos


1. Dr. Douglas Kelly, por que os Puritanos foram chamados de os Teólogos da santificação?


“Nós poderíamos dizer que os Puritanos, na verdade, restabeleceram a doutrina da justificação pela fé somente, defendida pelos reformadores. Mas podemos dizer, que eles foram um pouco mais além quando trataram desta doutrina. Eles desenvolveram a doutrina de que a justificação deve produzir na pessoa uma total santificação na vida cristã prática. Eles desenvolveram a doutrina da santificação porque entendiam que esta santificação faz parte de todo o ser na vida social. Para eles, a conversão é uma renovação total, tanto da pessoa, como da sociedade”.

2. Se eles pregavam tanto a doutrina da predestinação por que se preocupavam com a santificação?

“Os Puritanos desejavam pregar todo conselho de Deus, todas as partes da Bíblia, não omitiam nenhum assunto. Certamente criam na predestinação porque criam que Deus é soberano. Mas, se cuidadosamente lermos e estudarmos os trabalhos que eles produziram, veremos que eles não superestimaram a questão da soberania de Deus. É um erro pensar que eles, nos seus escritos, superestimaram a predestinação. Posso dizer que a visão do puritano estava cheia da grandeza e do poder de Deus. Da mesma forma, tinham uma visão grandiosa do amor de Deus. Nesta visão do amor de Deus viam a glória do próprio Deus. A verdadeira maneira de expressar nossa gratidão pelo amor de Deus em nossa eleição é oferecer-lhE totalmente nossas vidas. Eles falavam muito da santificação como um elemento para nos capacitar a agradecer a Deus”.

3. Os Puritanos achavam que poderiam ser completamente santos aqui no mundo?

“Se você ler John Owen (o grande teólogo puritano), especialmente no volume 6 de suas obras, na parte que fala do pecado habitando no incrédulo, ou as obras de Richard Sibbes, no seu tratado, “A Cana Abrasada”, ou ainda nas obras de Richard Baxter, no seu livro “Pastor Aprovado”, você verá o equilíbrio com que tratam esta questão da santificação na vida do crente. Eles criam que nós somos feitos santos em Cristo. Mas, apesar disso, o crente deve lutar para buscar a santificação e a mortificação do pecado que vive nele. Dessa forma podemos ver que eles não criam que possamos alcançar uma perfeição aqui na terra. Eles ensinavam que nós podemos contar com a pessoa do Espírito Santo nessa luta. Criam que o Espírito Santo pode transformar nossas vidas, mesmo que não seja de um modo perfeito, mas substancialmente. O ensino deles está perfeitamente de acordo com o que escreve Paulo em Romanos 6, 7 e 8. Com Paulo eles estão em muito boa companhia.”

4. O quanto a santificação é um esforço meu e o quanto é uma obra de Deus?

“Acredito que este é mais um dos mistérios, como a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. O que é básico e fundamental é que o eleito é unido na morte de Cristo e com a Sua ressurreição para vida. Então, toda a capacidade para sermos santos, vem do Espírito Santo que nos aplica os recursos da cruz. Mas isso não significa que a personalidade humana fica inativa e não faz nada. Eu penso que eles se firmavam no que o apóstolo Paulo ensina em

Filipenses 2.2-13: “...desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar”. Em resumo, o que eles criam era: o que Deus faz em mim me capacita a fazer o que eu preciso fazer. A união com Cristo não tira o que o homem tem de fazer, mas torna-o frutífero. Isto pode parecer um mistério filosófico, mas posso dizer que esta é a verdadeira obra que Deus opera na vida”.

5. Eu posso me converter e deixar a santificação para depois, como algo que é opcional na vida cristã? O que pensavam os Puritanos a este respeito?

“ Os Puritanos não criam que você seja convertido sem que tenha havido uma santificação. Isto é o resultado da seriedade como eles viam a doutrina bíblica da regeneração. Eles não criam de forma alguma que ir a Cristo é uma mera decisão humana sem o concurso da graça de Deus. Eles criam que ninguém pode vir a Cristo sem que o Espírito Santo tenha tocado no seu coração e operado uma regeneração. Uma das coisas essenciais que o Espírito Santo opera no coração do eleito é o desejo de santidade. O que os Puritanos diziam é exatamente o que Paulo diz em Romanos 6, capítulo um em diante. Então, o Espírito Santo nos traz unidos com a morte e ressurreição de Cristo. Isso significa que recebemos um novo desejo de sermos santos. Esta é a razão de todo verdadeiro crente ter o real desejo de ser santo, mesmo quando ele falha. Pensar que um crente possa ser um verdadeiro crente e não desejar santidade é simplesmente negligenciar e desmerecer o ensino da Palavra de Deus. Os Puritanos nunca pensariam que esta pessoa fosse de fato convertida”.

6. Em que áreas da vida os Puritanos são um exemplo de santidade para nós e como conseguiram ser tão santos? ( muito bom )

“Me parece que os Puritanos tiveram uma visão real, completa, da santidade na vida. Eles não tinham uma visão dicotômica daquilo que é sagrado e daquilo que é mundano. Por isso tantos historiadores os odeiam. Os Puritanos recusaram aceitar a interferência do governo na educação, por exemplo. Eles pensavam que a vida pessoal, o governo, os negócios, tudo deveria estar debaixo do que ordena a Palavra de Deus. Exatamente por pensar de forma tão séria a respeito disso, é que surgiu a guerra civil na Inglaterra. Isto foi decisivo: a questão da mentalidade secular. Contudo, é importante que nós preservemos o equilíbrio. Os Puritanos nunca quiseram, na verdade, uma revolução política. Isto não era exatamente a preocupação deles. Seu objetivo principal era glorificar a Deus pessoalmente, na família e na Igreja. Isso era porque estavam tão preocupados em ter um culto puro. Por isso receberam o nome de Puritanos. Eu não conheço nenhum outro grupo, como os Puritanos, que buscassem com tanta seriedade e profundidade o serem santos conforme o Senhor nos manda na Sua Palavra. Muitos têm ouvido pregadores e expositores da Palavra de Deus por muitos anos, mas estes Puritanos que pregavam assim, expositivamente, viram a transformação acontecer na Inglaterra. O famoso historiador Richard Green, no século passado, disse que a família puritana elevou o conceito de piedade e de comunhão no lar. Todo pensamento de liberdade e justiça do mundo moderno vem da luta dos Puritanos. Por causa da piedade pessoal puritana, eles tinham a consciência de que Deus tinha de ser glorificado em todas as áreas da vida. Isto sempre causou um conflito com o poder reinante no mundo. Isto é a razão do porque os Puritanos, até hoje, têm um nome enlameado. Mas, na minha opinião, eles foram crentes consistentes de fato, e nós temos de imitar o exemplo deles. Podemos não fazer as coisas exatamente como eles fizeram, mas a idéia de Deus ser glorificado em todas as áreas da nossa vida certamente deve ser também o nosso alvo”.

7. Posso ter a esperança de ter esse mesmo espírito puritano nas Igrejas brasileiras?

Isso depende da pregação fiel da Palavra de Deus e o Espírito Santo ungindo-a. Talvez pudesse responder melhor citando um moto antigo da cidade de Glasgow, depois da Reforma: “Glasgow florescerá pela pregação da Palavra e pelo louvor do Senhor”.De fato podemos dizer que isto aconteceu. Da mesma forma, o Brasil há de florescer também quando a Palavra de Deus for pregada e Deus louvado em Espírito e em verdade. A Palavra de Deus em Hebreus diz que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e será para sempre. Certamente Ele pode fazer no Brasil o que Ele fez nos tempos passados na Escócia. Isto pode dar a você grande esperança. Amém!

Entrevista com Dr. Douglas Kelly, por ocasião do Congresso Nacional de Evangelização e Missões da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Brasília. Dr. Kelly é professor de Teologia Sistemática no Reformed Teological Seminary, Charlotte, U.S.A. e estudioso dos Puritanos.


fonte do texto: revista os puritanos http://www.blogospuritanos.com.br/

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Supralapsarianismo

Gordon Haddon Clark


Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

“... por Deus, que criou o universo para que a multicolorida sabedoria de Deus
pudesse ser agora conhecida, por meio da igreja, pelos governadores e
autoridades nos [domínios] celestiais...” (Efésios 3:9,10, tradução do autor).

A visão de que Deus criou o universo para manifestar sua multiforme sabedoria
é, como Hodge diz, a visão supralapsariana. Contra essa interpretação, Hodge
levanta quatro objeções: (1) A passagem é a única passagem na Escritura
fornecida como diretamente afirmando o supralapsarianismo, e o
supralapsarianismo é estranho ao Novo Testamento. (2) Aparte das objeções
doutrinárias, essa interpretação impõe uma conexão não-natural sobre as
cláusulas. A idéia da criação é inteiramente subordinada e não-essencial: ela
poderia ter sido omitida sem substancialmente afetar o sentido da passagem. (3)
O tema da passagem diz respeito à pregação de Paulo; somente conectando a
cláusula de propósito com a pregação de Paulo é que a unidade do texto pode
ser preservada.

(4) A palavra agora, em contraste com o encobrimento anterior,
apóia a referência à pregação de Paulo. Foi a pregação de Paulo que tinha posto
agora um fim ao mistério oculto. Tais são as quatro objeções de Hodge.
Consideremos a última primeiramente. Admitidamente, foi a pregação de Paulo
que fundou a Igreja, e a fundação da Igreja fez conhecida a sabedoria de Deus
aos poderes no céu. A interpretação supralapsariana não nega que a pregação de
Paulo desempenhou essa parte importante no plano eterno de Deus. Mas
mesmo assim, a pregação de Paulo não foi a causa imediata da revelação da
sabedoria de Deus.

Foi a existência da Igreja que foi a causa imediata. Todavia, a
gramática nos impede de dizer que a Igreja foi fundada para que a sabedoria de
Deus pudesse ser revelada. È verdade que a Igreja foi fundada para revelar a
sabedoria de Deus, mas isso não é o que o versículo diz. Agora, se vários eventos
ocorreram, levando à essa revelação da sabedoria de Deus, incluindo a fundação
da Igreja, a pregação de Paulo, e, certamente, a morte e ressurreição de Cristo
que Paulo pregou, a palavra agora no versículo não pode ser usada para
selecionar a pregação de Paulo em contraste com outros eventos mencionados
na passagem. Portanto, a quarta objeção de Hodge é pobre.
Agora, a primeira objeção diz: Essa é a única passagem na Escritura fornecida
como diretamente afirmando o supralapsarianismo, e o supralapsarianismo é
estranho ao Novo Testamento. A última parte da objeção é, certamente, um
petitio principii, isto é, Hodge usa um argumento circular. Se esse versículo
ensina o supralapsarianismo, então a doutrina não é estranha ao Novo
Testamento.

Devemos primeiramente determinar o que o versículo quer dizer;
então, devemos saber o que está no Novo Testamento e o que não está.
Na verdade, se esse versículo fosse de fato o único versículo na Bíblia com
insinuações supralapsarianas, estaríamos justificados em abrigar alguma


suspeita quanto à interpretação. Hodge não diz explicitamente que esse é o
único versículo; ele diz que ele é o único versículo fornecido como diretamente
afirmando o supralapsarianismo.
Bem, na verdade, nem mesmo esse versículo afirma diretamente toda a
complexa visão supralapsariana. Poucos versículos na Escritura afirmam
diretamente o todo de uma doutrina importante. Portanto, devemos reconhecer
graus de explicitação, de afirmações parciais e até mesmo fragmentárias de uma
doutrina. E com esse reconhecimento, regularmente reconhecido no
desenvolvimento de qualquer doutrina, é evidente que esse versículo não
permanece sozinho em isolação suspeita.
O supralapsarianismo, por toda sua insistência numa certa ordem lógica entre
os decretos divinos, é essencialmente, assim nos parece, a visão inquestionável
de que Deus controla o universo com um propósito. Deus age com um
propósito.

Ele tinha um fim em vista e vê o fim desde o princípio. Todo versículo
na Escritura que, de uma forma ou de outra, se refere à multiforme sabedoria de
Deus, toda declaração indicando que um evento anterior é para o propósito de
causa um evento subseqüente, toda menção de um plano eterno e todoabrangente, contribui para uma visão teleológica, e, portanto, supralapsariana
do controle da história por Deus. Nessa luz, Efésios 3:10 claramente não
permanece sozinho.

A conexão entre o supralapsarianismo e o fato de que Deus sempre age com
propósito depende da observação de que a ordem lógica de qualquer plano é o
reverso exato de sua execução temporal. O primeiro passo em qualquer
planejamento é o fim a ser alcançado; então os meios são decididos com base
nesse fim, até que, por último, a primeira coisa a ser feita é descoberta. A
execução no tempo reverte a ordem de planejamento. Assim, a criação, visto que
é a primeira na história, deve ser logicamente a última nos decretos divinos.
Portanto, toda passagem bíblica que se refere à sabedoria de Deus também
apóia Efésios 3:10.
Consideremos agora a objeção número dois. Hodge reivindica que a
interpretação supralapsariana desse versículo impõe uma conexão não-natural
sobre as cláusulas. A idéia da criação, ele diz, é inteiramente não-essencial e
poderia ter sido omitida sem afetar substancialmente o sentido da passagem.
Não é evidente que Hodge não sabe como tratar a referência à criação? Ele
reivindica que ela não é essencial, uma consideração incidental e impensada que
não afeta o sentido da passagem. Tal estilo de escrita descuidada não me parece
ser o estilo usual de Paulo.

Por exemplo, em Gálatas 1:1, Paulo diz: “Paulo, um apóstolo, não da parte de
homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus
Pai, que o ressuscitou dentre os mortos”. Por que Paulo menciona agora que
Deus ressuscitou Jesus Cristo? Se essa fosse uma consideração incidental, sem
conexão lógica com o sentido da passagem, uma consideração intencionada
somente para falar de algum aspecto da glória de Deus, Paulo poderia ter dito da
mesma forma: “Deus, que criou o universo”.

Mas é bastante claro que Paulo tinha um propósito consciente ao selecionar a
ressurreição ao invés da criação. Ele queria enfatizar, contra seus detratores,
que ele tinha autoridade apostólica recebida do próprio Jesus Cristo. E Jesus
Cristo foi capaz de lhe dar esta autoridade porque ele não estava morto, mas
tinha sido ressuscitado por Deus.
Assim, como Paulo escolhe a idéia de ressurreição ao invés de criação em
Gálatas 1:1, ele também escolhe criação ao invés de ressurreição em Efésios 3:9,
pois a idéia da criação contribui com certo significado para o seu pensamento.
Certamente, a interpretação supralapsariana ou teleológica de Efésios 3:10
acomoda a idéia de criação, e, por outro lado, uma interpretação que não pode
achar nenhum significado nessas palavras é uma interpretação pobre.
A objeção remanescente é que somente fazendo a pregação de Paulo o
antecedente da cláusula de propósito pode preservar a unidade do contexto. O
reverso parece ser o caso. Não somente Hodge falha em reconhecer a menção da
criação, e assim diminuir a unidade, mas, além disso, a ênfase sobre o
propósito, correndo da criação até o presente, unifica a passagem de uma
maneira muito satisfatória.

O entendimento teleológico do operar de Deus de fato nos capacita a combinar
todas essas três interpretações, incluindo a segunda que em si tem pouco a ver
com seu favor, num pensamento unificado. Visto que Deus faz tudo com um
propósito, e visto que o que precede no tempo tem de uma forma geral o
propósito de preparar o que se segue, podemos dizer que Deus guardou o
secreto oculto para revelá-lo agora, e também que Paulo pregou o evangelho
para revelá-lo agora. Mas se Deus não tivesse criado o mundo, não haveria
nenhum Paulo para pregar, nenhuma Igreja pela qual a revelação pudesse ser
feita, nenhum poder celestial sobre o qual imprimir a idéia da sabedoria
multiforme de Deus. Somente conectando a cláusula de propósito com o
antecedente imediato com respeito à criação, um senso de unificação pode ser
obtido a partir da passagem como um todo.

Portanto, em conclusão, embora a outra interpretação seja gramaticamente
possível, a idéia de que Deus criou o mundo para o propósito de revelar sua
sabedoria torna tal sentido melhor.

Fonte: Ephesians, Gordon Clark, Trinity Foundation, páginas 110-114

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Importância da Instrução Através do Catecismo



Anthony A. Hoekema


Numa palestra dada (em 1952) aos membros da Primeira Igreja Reformada em Paterson, Nova Jersey, o Rev. John P. Muilenburg, anteriormente missionário na China, disse, entre outras coisas, “Desde que voltei para América, eu olho para a igreja com temor e tremor porque muitos dentre nosso povo não sabem realmente o que a igreja significa. Em nosso Cristianismo Americano temos uma tola tolerância que diz que não faz diferença no que você crê, contanto que você tente viver uma boa vida. Esta atitude é totalmente errada. Nós devemos saber no que cremos e o que significamos”.


“Os Comunistas não cometem este engano”, continuou a apontar o Sr. Muilenburg. “Eles realmente treinam e educam o seu povo”. Não disse o nosso Senhor certa vez, “Os filhos deste mundo são para a sua própria geração mais sábios do que os filhos da luz” (Lucas 16:8)? Talvez possamos aprender uma lição até mesmo dos Comunistas. A questão freqüentemente me ocorre: o membro normal de nossas igrejas de persuasão Reformada está pronto para defender as doutrinas que cremos e ensinamos? Se não, de quem é a culpa? É, quem sabe, culpa da igreja?

História

Não havia catecismos – no sentido de pedagogia eclesiástica dos jovens do pacto – na igreja medieval. A instrução das crianças era considerada um dever mais doméstico do que eclesiástico. O Protestantismo, contudo, com sua ênfase nas Escrituras como a única regra de fé e prática, enfatizou a doutrinação das crianças como uma das implicações eclesiásticas do batismo infantil. Os Reformados particularmente começaram a pensar em termos do pacto da graça como logicamente correlacionado com a doutrina do batismo infantil. Esta ênfase sobre o pacto da graça naturalmente implicou numa ênfase sobre a instrução através de catecismos das crianças do pacto.

A instrução através de catecismos continuou a florescer à medida que a Reforma Protestante se espalhou para outros países. Na América também, inicialmente, havia muita ênfase sobre o catecismo. A instrução, naqueles dias primitivos, era principalmente uma questão de memorizar respostas e perguntas, e os livros de catecismo consistiam somente de séries de perguntas e respostas.

Desde 1850, tem havido nas igrejas Americanas, em geral, um definido abandono da instrução através de catecismo. Gradualmente a escola Dominical, que pretendia ser originalmente uma instituição missionária, entrou sorrateiramente nas igrejas e tomou o lugar das classes de catecismo. Em muitas igrejas Americanas hoje, as classes de catecismo não existem mais.

Obrigação Pactual

Isto, contudo, não deveria ser assim. A instrução através de catecismo é definitivamente uma parte da obrigação das igrejas para com os seus jovens. Esta obrigação, de fato, como indicado acima, está fixada na própria relação pactual que existe entre Deus e o Seu povo. A questão pode ser levantada: É tarefa da igreja doutrinar as crianças? Esta tarefa não pode ser deixada

para o lar, ou para a escola Cristã (quando há uma)? A resposta a esta questão é que é mais decididamente tarefa da igreja doutrinar seus jovens, visto que os jovens da igreja estão incluídos no pacto que Deus fez com o Seu povo. A doutrina do pacto é um princípio fundamental da teologia Reformada – tanto que Herman Bavinck disse que a teologia Reformada não pode ser entendida em nenhum ponto, à parte da doutrina do pacto.

Mas a doutrina do pacto é muito mais. Ela é também o princípio regulador da vida Reformada, a qual deve ser vivida totalmente à luz do fato de que somos o povo do pacto de Deus – somos Sua possessão peculiar. Deste princípio regulador flui a necessidade do catecismo. A igreja, que administra o batismo como um sinal e um selo da membresia pactual, deve, depois do batismo, assumir a responsabilidade de treinar as crianças do pacto no entendimento de sua relação pactual, e de conduzi-las à aceitação de suas obrigações pactuais. Tendo recebido o primeiro selo da membresia pactual (batismo), a criança deve ser treinada de forma que possa no tempo devido receber o segundo selo da membresia pactual (a Ceia do Senhor), e possa viver uma vida completamente cercada de obediência pactual e de serviço ao reino. A igreja, que administra os selos do pacto, não pode se omitir de sua obrigação de treinar aqueles a quem ela administra estes selos. A tarefa de treinar os jovens do pacto nas doutrinas do pacto é, portanto, de uma importância primária. Deve ser categorizada ao lado da pregação, como uma das principais tarefas da igreja.

A Abordagem Pactual

Permita-me adicionar aqui que a instrução através do catecismo é precisamente a pactual, ao contrário da não-pactual, abordando o treinamento das crianças da igreja. O treinamento não-pactual da criança, exemplificado, por exemplo, pelo Movimento de Evangelização da Criança, ignora a distinção entre as crianças dentro e fora do pacto da graça, e o significado do batismo infantil. Preocupado principalmente com as crianças terem aceitado o Senhor Jesus Cristo como Salvador pessoal, este tipo de abordagem tende a ignorar a segunda parte da Grande Comissão de Cristo: “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:20). Mas a abordagem através do catecismo, reconhecendo a benção da membresia pactual, aspira ajudar as crianças batizadas a apreciar seus distintos privilégios como um membro do pacto da graça, a entender as implicações desta membresia pactual, e a aceitar as obrigações envolvidas nesta membresia pactual, pelo poder do Espírito Santo. Este é a única abordagem apropriada para qualquer igreja que ensina e pratica o batismo infantil.

Podemos olhar para a importância da instrução através do catecismo a partir de um outro ponto de vista. A criança do pacto deve aprender qual é a principal mensagem da Bíblia (como interpretada à luz dos padrões Reformados), qual é o ensinamento doutrinal de sua igreja, e no que sua igreja difere das demais. Em outras palavras, ela deve saber o que significa ser um Cristão Reformado. Embora a casa e a escola Cristã representem uma parte também no processo de ensiná-la tudo isto, a igreja deve assumir primariamente a responsabilidade por três razões. Primeiro, de acordo com a Bíblia, a igreja é “a coluna e baluarte da verdade” (1Timóteo 3:15). Por conseguinte, o ensinamento da verdade doutrinária é peculiarmente sua tarefa. Em segundo lugar, esta matéria doutrinária pode ser mais bem ensinada pelo pastor, que teve uma educação teológica. Em terceiro lugar, porque o domínio deste tipo de assunto

requer uma definida quantia de memorização e assimilação, as classes oficiais de catecismo da igreja são o melhor lugar para isto ser feito.

Concluo arriscando uma definição de catequese: "Catequese é o treinamento eclesiástico dos filhos da aliança com vistas a prepará-los para a profissão de fé, para serem membros ativos na igreja, e para serem úteis ao reino. À luz dessa definição o propósito da catequese será o de ensinar o filho da aliança naquilo que ele precisa saber para fazer uma profissão de fé consciente, da igreja a que pertence; para ser um bem informado membro dessa igreja; para estar preparado para testemunhar do ensinamento da igreja; e para viver uma vida cristã totalmente de acordo com os princípios ensinados pela sua igreja.

Anthony Hoekma nasceu na Holanda (1913) e mudou-se para os Estados Unidos com a família em 1923. Foi pastor de várias igrejas e professor de Teologia Sistemática no Calvin Theological Seminary. Autor de vários livros entre eles “A Bíblia e o Futuro” e “Salvos Pela Graça” da Editora Cultura Cristã. Artigo extraído da New Horizons, January 2003 com permissão. Extraído de uma palestra dada em 15 de Março de 1952, num encontro patrocinado pelo Comitê de Educação Cristã da OPC. Reimpresso (com uma pequena edição) do The Presbyterian Guardian, 15 de Abril de 1952, pp. 57-58. O autor cita a ASV. Reimpresso do New Horizons, Janeiro

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Salmofobia


Medo de Cantar os Salmos

Tenho me surpreendido com o fato de que Igrejas de herança reformada, como as presbiterianas, têm resistido à prática cúltica de cantar os Salmos e vão além, se opõem frontalmente ao cântico dos hinos de Sião. O fato de igrejas presbiterianas no Brasil não cantarem salmos há dezenas de gerações, não traz surpresa, pois hoje sabemos a razão básica. A Igreja Presbiteriana quando foi estabelecida no Brasil já não cantava exclusivamente os salmos, visto que os missionários que aqui aportaram vinham de um contexto americano onde esta prática havia cessado. Além disso, vinham de um contexto onde uma de chuva hinos foram compostos e incluídos, de forma inovadora, na liturgia do culto e especialmente na evangelização. Neste período o amor pelo cântico dos salmos começou a se desvanecer. Mas ainda que não os cantassem exclusivamente, cantavam-nos inclusivamente nos cultos de adoração com alegria no coração. Não é de admirar que uma igreja que esquece sua história, seus padrões de fé e sua tradição reformada, desconheça o culto reformado e o saltério. Hoje, a existência de uma igreja presbiteriana que canta salmos é fato muitíssimo raro.

Fui de uma geração que conheceu ainda os Salmos e Hinos[1] como o hinário adotado pelas igrejas presbiterianas do Brasil. Para ser sincero, nunca vi nenhuma ênfase dada à importância de se salmodiar, como era próprio dos presbiterianos e reformados de outrora. Porém ainda havia resquícios desta antiga prática Congregacional e Presbiteriana. Vi a transição do hinário Salmos e Hinos para um hinário que quase exclui os salmos, usado hoje pela IPB e com o reforço de cânticos chamados de “espirituais”, muitos deles de autores desconhecidos, de teologia rasa e confusa. Sei que alguns hinos são apenas baseados em algum salmo, ou apenas parte de alguns deles.


Posso dizer que, nascido no final da década de 40, fiquei por mais de 40 anos ignorando o valor que historicamente os calvinistas e presbiterianos do mundo inteiro davam à salmodia. Permaneci tanto tempo na ignorância sem saber que o cantar salmos com gratidão no coração sempre foi uma marca distintiva das igrejas reformadas oriundas da Reforma, especialmente de Calvino[2] e, como a maioria dos presbiterianos, eu não conhecia esta assertiva da Confissão de Fé de Westminster. Não precisamos falar muito para mostrar que o povo cristão “reformado” do Brasil viveu também nesta ignorância, como eu. Quantos líderes de música nas igrejas presbiterianas conhecem a história da salmodia e seu valor? Por que sua Igreja não canta salmos e porque o Brasil não tem saltério até o dia de hoje? Pergunte ao seu pastor e a seus presbíteros. Pergunte por que o piedoso reformador Calvino afirmava: “Não é possível achar melhores ou mais adequados cânticos para esse fim que os Salmos de Davi, inspirados pelo Espírito Santo”. É importante conhecer a resposta, mesmo que isso o entristeça — Em tristeza o coração é quebrantado.



Hoje sabemos como os reformados valorizavam os salmos, os hinos e os cânticos espirituais de Davi. Hoje já há alguma literatura sendo escrita e traduzida no Brasil sobre o tema. Pequenos grupos têm se organizado ansiosos pela confecção do primeiro saltério Brasileiro mas, infelizmente sem a iniciativa de algum órgão oficial eclesiástico ou mesmo de algum profissional experimentado designado e supervisionado pela Igreja. Para muitos se tornou um sonho ter nas mãos um saltério para o crescimento na piedade e para edificação da Igreja brasileira e dos lares evangélicos, usufruindo da profundidade teológica encontrada nos Salmos e raramente encontrada nos escritos não inspirados. Muitos pais sonham em ver os filhinhos da aliança salmodiando ao Senhor com os cânticos soprados pelo Espírito, e seus velhinhos sendo confortados antes da morte com sua mensagem de esperança.

Philip Schafff, um historiador reformado, assim se expressou: “O cântico de salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que tornou-se proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada. O salmo 68 era a Marselhesa huguenote”.

Hoje muitos têm louvado a Deus com estes cânticos inspirados nas igrejas, simpósios, congressos e conferências. Há uma explosão de alegria em muitos corações pelo fato de terem descoberto esta recomendação bíblica e confessional (CFW, Cap. XXI.V). Creio que, pela providência de Deus, muitas igrejas no Brasil já cantam os salmos inclusive igrejas Batistas e Congregacionais. O desejo por esta prática cresce a cada dia e muitos não apenas desejam ser ouvintes, mas praticantes cantores dos salmos.

No entanto, ainda estamos muito longe de uma Reforma cúltica onde as Igrejas Presbiterianas sejam conhecidas pelo zelo no seu louvor congregacional. Mais que isso, muitos líderes estão atemorizados pela possibilidade de que isso venha a acontecer. “Seria um retrocesso”, dizem eles; “seria uma confusão nas igrejas”, advertem; “o que faríamos com nosso hinário e nossos hinos e corinhos tão amados...?, alguns indagam; “temos de ser prudentes e sábios, pois nosso contexto é outro”, concluem, minimizando a assertiva. Isso apenas revela insegurança e temor, uma quase fobia, claramente incompreensível.

Maior temor
Para atemorizar mais ainda, há aqueles que defendem a salmodia exclusiva, e que são vistos como um grupo presbiteriano e reformado radical como se estes, durante 200 anos após a reforma, concebessem uma “errada teologia” da adoração e que hoje se choca frontalmente com a “teologia correta” da igreja contemporânea. Bem, aqui chegamos ao ponto nevrálgico da questão. Este grupo salmodista provoca medo e repulsa no meio presbiteriano a ponto de muitos não admitirem o fato de que é um dever do povo de Deus cantar a Bíblia e não apenas lê-la. Já pensou? É como se dissessem: Nós só queremos ler os salmos e ouvir suas mensagens, mas não cantá-los. Como pode ser isso? Esse receio brota da possibilidade de serem vistos e confundidos com este grupo “puritânico”. Bem, não concordar com salmodia exclusiva é uma coisa, não cantar os salmos é outra coisa. Radicalizar aqui é cair no pecado da reforma radical quando os anabatistas rejeitavam tudo que lembrasse a aparência de romanismo, mesmo que fosse bíblico. Diríamos que eles “jogavam fora a água do banho com a criança e tudo”. Aliás, naquela época muitos chamavam os reformados de católico-romanos, por se assemelharem aos romanistas que incluíam em sua liturgia fixa o cântico dos salmos através dos corais.

O medo continua
Aqui é necessário, também, mencionar aqueles que desejam cantar os salmos, mas não exclusivamente, como é o caso de muitas igrejas fiéis da América e Europa. Estas igrejas procuram cantá-los, mas também cantar hinos supervisionados e teologicamente aprovados pela história e robustos doutrinariamente. O que dizer destas igrejas? Bem é aqui que reside a gravidade da questão. Por quê? Porque, nem mesmo esta postura criteriosa e zelosa é aceita pelos líderes presbiterianos no Brasil, pois o medo da salmodia ainda assim continua. Eles se acham, se não mais sábios, pelo menos mais prudentes e dizem: “Cuidado, tudo começa assim! Começam cantando os salmos e depois só querem cantá-los exclusivamente; o melhor é cortar o mal pela raiz; nada de cantar salmos, pois enfatizam demasiadamente a ira de Deus, fazem imprecações para destruir e matar os inimigos, quebrar seus dentes e suas queixadas; não falam explicitamente de Cristo; sua melodia é estranha, não é de nossa cultura e não agrada aos jovens...; vamos preferir os nossos corinhos baseados em pedaços de salmos e nossos hinos do cancioneiro brasileiro...; vamos fazer uma distinção entre eles e os hinos tradicionais do hinário, pois temos de satisfazer aos jovens e velhos”. Já pensou? Isso vai totalmente de encontro com a história da Reforma. Isso faria estremecer os nossos pais na fé, Lutero, Martin Bucer, Calvino, os Huguenotes, John Knox e miríades de outros heróis da fé. É bom lembrar que “o saltério tornou-se um dos livros mais importantes da reforma”.

Desafio
A liderança eclesiástica de hoje deve se empenhar para que a salmodia volte a ser uma prática nas igrejas históricas, especialmente as presbiterianas. Pastores e presbíteros, que pela graça de Deus, foram impactados com esta verdade histórica e escriturística devem batalhar pela restauração do culto bíblico e reformado, sem receio porque o povo de Deus sempre salmodiou ao Senhor na certeza de que esta é uma ordenança de Deus. Sendo assim, somos desafiados a vencer a timidez considerando que mais importa obedecer a Deus do que aos homens. As Igrejas devem reformar seu culto, sendo esse um dos maiores desafios da igreja contemporânea; a batalha de fazer reforma é uma empreitada que poucos têm coragem de enfrentar. Podemos também lutar implantando congregações com uma estrutura onde se tem ensino, pregação, adoração e liturgia reformados e onde é possível se cantar os salmos. Mas não devemos abrir uma congregação com receio dos comentários, críticas e acusações infundadas. Muitos são tentados a pensar assim: “Que tal, começarmos uma congregação onde de início não somos explicitamente reformados e não se canta salmos, mas aos poucos vamos reformando o culto?”. Bem, já pensou, se criar uma congregação não reformada e com os mesmos vícios cúlticos contemporâneos para depois torná-la reformada? Não nos parece sensato este pensamento. Reformar significa lutar para se reaver o que foi deteriorado pela ignorância e desobediência e não aquilo que se estabelece deliberadamente deteriorado. Porque não começar uma congregação reformada e ir em frente, “reformada sempre reformando”? Por que não travar esta batalha logo no início, para se entrar em “terra santa”?



Bem, sei que estas minhas palavras podem ser polêmicas e críticas, mas não desejo criticar para destruir, e sim advertir e encorajar. O Senhor é o meu juiz. Se alguém não concorda com a salmodia exclusiva, deve, pelo menos, e no mínimo, concordar com os reformadores e cantar os hinos de Sião. Deve cantá-los com alegria e gratidão no coração; cantar com a família, com seus filhos e netos e contribuir para o Reino de Deus nesta e em outras gerações. Os salmos não foram feitos apenas para serem lidos, mas também para serem cantados como Jesus cantou, e também os apóstolos, e a igreja primitiva, e os pais da Igreja (Agostinho), e os reformadores e também os primeiros presbiterianos o fizeram sem temor.



Cante os Salmos sem medo e rejeição, mas com gratidão a Deus e obedecendo à Sua Palavra!

“Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis” (1 Pedro 3:14).


[1] A coleção Salmos e Hinos, foi organizada pelo casal Dr. Robert Reid Kalley e Sarah Poulton Kalley, fundadores da Igreja Evangélica Fluminense, a primeira igreja evangélica em lingua portuguesa no Brasil no ano de 1855. Com salmos parafraseados e hinos, foi usada pela primeira vez em 17 de novembro de 1861, seis anos depois de sua chegada ao Brasil. Esta coleção foi a primeira coletânea de hinos evangélicos em lingua portuguesa organizada no Brasil. Também foi primeiro hinário usado por diversas denominações.
[2] “Os salmos nos incitam a louvar a Deus, orar a ele, meditar nas suas obras a fim de que os amemos, temamos, honremos e o glorificamos. O que Santo Agostinho diz é totalmente verdade; a pessoa não pode cantar nada mais digno de Deus do que aquilo que recebermos dele” (Calvino).
Fonte: http://ospuritanos.blogspot.com/2010/12/medo-de-cantar-os-salmos.html

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POSTADO : miguel silva

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Neopuritanos[1] são semelhantes aos Puritanos, hoje no Brasil?





1. Em nada.


2. Os puritanos eram profundamente conhecedores e praticantes das Escrituras, os neopuritanos apenas sonham com isso e ainda têm muito a percorrer até que isso aconteça.

3. Os Puritanos eram gigantes da piedade, os neopuritanos são pigmeus, não sabem bem como torná-la experimental, mas anseiam por isso.

4. Os Puritanos amavam e zelosamente santificavam o dia do Senhor como os Presbiterianos do passado também o faziam. Neste ponto os neopuritanos, se opondo e enfrentando a “neo-hermenêutica” contemporânea, lutam quase que desesperadamente para estabelecer esta disciplina de vida pessoal e da sua família, por considerar, como os Puritanos, que este é o único dia santo a ser guardado de forma deleitosa como um santo descanso e guardando-se não somente de tudo quanto é pecaminoso, mas até de todas as ocupações e recreios seculares que são lícitos em outros dias (CM p. 158); mas os neopuritanos ainda sonham por alcançar esta prática.

5. Os Puritanos, seguindo o pensamento de Calvino, louvavam ao Senhor apenas com o Saltério. De forma natural e zelosa, defendiam a salmodia exclusiva por considerarem que, assim como o que se lê no culto deve ter um conteúdo inspirado, o cantar também. E faziam assim por questões hermenêuticas esposadas por todos os grandes teólogos puritanos e por aqueles que escreveram a CFW e os Catecismos e o Diretório de Culto. Os neopuritanos buscam esta prática puritano-reformada, mas ainda “engatinham” nisso, pois nem Saltério organizado têm, mas sonham com um saltério Brasileiro para louvar e glorificar a Deus com aquilo que Ele mesmo compôs sem impor isso às consciências daqueles que não têm esta convicção puritana.

6. Os Puritanos e as puritanas nunca permitiram que as mulheres orassem no culto público, nem que ensinassem à congregação, nem pregassem a Palavra. Eles, como Calvino, sempre entenderam que esta era uma prerrogativa dos homens que lideram a Igreja e que ninguém pode delegar esta autoridade à mulher visto que Deus nunca autorizou qualquer concílio ou liderança eclesiástica a assim proceder. Os Puritanos nunca transferiram para a mulher uma atribuição de autoridade própria dos homens por Deus delegada. Os Puritanos faziam assim, não porque achassem que isso era uma prática apenas cultural, ao contrário, era essencialmente uma questão teológica. Os neopuritanos, ainda que concordem com isso, por falta de maior convicção e hábito, por constrangimento e receio, ainda tropeçam, mas sonham com esta prática na igreja de hoje.

7. Os Puritanos levavam muito a SÉRIO o dia do Senhor e o momento de Culto a Deus. Na pregação, nos sacramentos, nas orações, nos cânticos dos salmos e na leitura bíblica. Na adoração tinham aversão a uma postura irreverente e descontraída por entenderem que estavam na presença de um Deus santíssimo; assim o zelo do Senhor os consumia porque sabiam que Deus é fogo consumidor. Criam que isso não deveria ser um traço de uma época, mas uma essencial prática teológica e piedosa. Os neopuritanos estão longe desta realidade, pois, forçosa e frequentemente, assumem, não sem constrangimento e vergonha, a posição Nicodemita[2] de desconsiderar este temor santo que caracterizava o coração puritano. No entanto, sonham e batalham neste sentido, sendo por isso criticados e ridicularizados.

8. Os Puritanos são chamados de os teólogos da santificação e conseguiram experimentar uma vida de pureza. Os neopuritanos se envergonham de sua mediocridade nesta área. Os neopuritanos não sabem o que isso significa na prática. Pecam por apenas admirar a ortopraxia puritana, mas não vivenciá-la. Nesta área, os neopuritanos são uma vergonha, no entanto sonham com dias melhores, sonham com um grande despertamento santificador na Igreja de Cristo associado a um profundo conhecimento doutrinário.


9. Os Puritanos foram exemplos de piedade e ortodoxia. Foram gigantes na pregação, na interpretação das Escrituras, no ensino, no magistério, mas também na vida santa e piedosa. Para os Puritanos Presbiterianos a ortodoxia estava representada e hermeneuticamente expressa na Confissão de Fé de Westminster, nos Catecismo Maior e Breve e no Diretório de Culto. Fora disso temiam se colocar na posição vulnerável de uma neo-hermenêutica que viesse a permear os púlpitos e o ensino da Igreja. Hoje poucos escrevem e ensinam teologia de uma forma tão ortodoxa, santa e piedosa como os Puritanos fizeram; hoje poucos meditam nas grandezas de Deus e as vivenciam como eles. Os neopuritanos têm conhecimento deste fato e, por suas incoerências, limitações e fraquezas, coram de vergonha, mas sonham com esta vivência doutrinária e experimental.

10. Os Puritanos pregavam e ensinavam que os dons extraordinários do Espírito Santo foram próprios da era apostólica quando “Os apóstolos, os profetas e os que possuíam o dom de línguas, de curar e fazer milagres, foram oficiais extraordinários empregados a princípio por nosso Senhor e Salvador para reunir seu povo de entre as nações, conduzindo-os à família da fé. Esses oficiais e dotes miraculosos cessaram há muito tempo”[3] e que, sendo a Palavra de Deus suficiente, não existem novas revelações do Espírito. O Sola Scriptura era o grande fundamento dos Puritanos. Os neopuritanos, ainda que concordando com esta verdade e lutando por ela com grande ênfase, a têm no coração ainda de forma mais teórica do que prática; no entanto sonham com a pureza desta verdade: Só a Escritura é indispensável, “tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo” (CFW – 1:1).
11. Os Puritanos não comemoravam Páscoa e Pentecostes porque consideravam que estes dias, tanto quanto as festas dos tabernáculos, das primícias, os sacrifícios expiatórios de animais, etc. foram instituições levíticas abolidas em Cristo. Os Puritanos amavam a doutrina da encarnação do Verbo e pregavam sobre os textos que falam claramente sobre este evento, mas não comemoravam o Natal por ser um dia ou uma festa não ordenada por Deus, além de ter origem pagã e papal. Os neopuritanos, porém, ainda sofrem e caem sob a pressão e imposição reivindicadas pela tradição da cultura cristã dos nossos dias, contudo ainda conseguem pelo menos se manifestar pela supressão desta prática não encontrada na Igreja primitiva apostólica.

12. Os Puritanos não tinham corais e solos no culto, mas o louvor era puramente congregacional. O esplendor dos corais e os cantores do Templo de Jerusalém que seguiam uma orientação levítico-sacerdotal-masculina eram considerados prática cerimonial e que os sacerdotes de hoje (sacerdócio de todos os santos) são todos os crentes que congregacionalmente louvam ao Senhor na simplicidade cúltica Reformada. Os Neopuritanos ainda coxeiam nesta área, mas enfrentado grande oposição, resistência e desprezo, lutam e buscam esta visão puritano-reformada.

Conclusão: Os alcunhados Neopuritanos, ou devem ser encorajados a permanecer no mesmo conhecimento bíblico, convicção doutrinária, fé experimental, luta e piedade de seus pais antecessores que redigiram os documentos de Westminster ou devem ser desencorajados e não tolerados por tentarem ser cristãos como os Puritanos foram: Um suposto introspectivo grupo pietista radical de um período distante da história que, de modo não reformado, minimalista, restritivo e legalista, redigiram documentos eclesiásticos próprios da sua cultura e época — CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, O BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER, O DIRETÓRIO DE CULTO DE WESTMINSTER E UM SALTÉRIO (que continha os salmos, hinos e cânticos espirituais “supostamente” recomendados pelo apóstolo Paulo).

[1] Apelido dado pela primeira vez na história do presbiterianismo e do evangelicalismo brasileiro a um grupo indefinido de crentes que lutam por uma reforma da Igreja do Brasil segundo os padrões de Westminster produzidos pelos Puritanos e subscritos pelas Igrejas Presbiterianas em quase todo o mundo. Aqueles que, de forma pejorativa, apelidaram estes irmãos com esta alcunha de Neopuritanos estão a afirmar é que este tipo de puritanismo reformado é diferente, “novo” e “estranho”, aos símbolos de Fé de Westminster ou no mínimo diferente do Presbiterianismo hoje praticado e oficialmente exigido e praticado pela maioria das igrejas Presbiterianas. Ou seja, os aplicadores desta alcunha buscam e vivem um Presbiterianismo diferente dos nossos pais do passado — um “presbiterianismo brasileiro” — como se fosse coerente e sensato viver um neopresbiterianismo com características próprias da cultura evangélica brasileira e da erudição de scolars brasileiros como sendo o padrão de equilíbrio hermenêutico e de prática cristã reformada. Como pode ser isso? Resposta: Caso o presbiterianismo brasileiro afirme que é fidelíssimo aos padrões de Westminster e se oponha à visão puritana explicitada na Confissão de Fé de Westminster e seus Catecismos, somos forçados a responder a esta indagação dizendo que existe um novo entendimento em relação aos Padrões de Westminster e, consequentemente uma “neo-hermenêutica forçosamente advinda de uma reinterpretação deste padrões há séculos já consagrados dentro da herança e tradição reformada.

[2] Uma alusão à Nicodemos, entre os fariseus, um dos principais dos judeus (João 3:1-2) que ocultamente procurou a Jesus, mas ainda permanecendo na prática do judaísmo. O termo "Nicodemitas" foi aplicado a criptoprotestantes franceses que escondiam suas convicções ao assistir a missa e outras ordenanças romanas de adoração. Esses protestantes viviam ocultamente em terras papais e temiam que uma declaração aberta de sua fé lhes traria perseguição ou a perda de suas posses e o status social. Alguns, para se justificar, recorreram ao exemplo de Nicodemos (que veio à noite falar com Jesus), como pretexto para manter suas convicções em segredo, até mesmo ao ponto de fingir serem romanistas no seu comportamento exterior. Calvin rebuked the Nicodemites, by showing that the scriptures require believers to remain undefiled by idolatry (such as the popish Mass). Calvino repreendeu os Nicodemitas, mostrando que as Escrituras exigem que os crentes devem permanecer imaculados da idolatria (como a missa papista). Quase um ano antes da morte do reformador Lutero, Calvino lhe escreveu uma carta pedindo-lhe para escrever em poucas palavras sua opinião sobre os Nicodemitas na França, bem como sua opinião acerca do escrito em que ele, Calvino, rejei­tava sua prática de continuar participando de cerimônias conforme o rito romano mesmo tendo assumi­do uma consciência evangélica. Melanchthon, portador da carta de Calvino, se opôs a entregá-la a Lutero.
[3] MANUAL DE CULTO, da IPB, página 70.

Fonte:revista os puritano ( http://www.blogsptospuritanos.com/.)

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POSTADO POR : miguel silva


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Pecado e Culpa Original‏

Rev. Herman Hoeksema


Essa doutrina da universalidade do pecado por meio de Adão levanta outras questões muito sérias. Pode parecer como se os descendentes do homem Adão fossem as vítimas inocentes de sua transgressão. Ele pecou, e todos eles sofrem e vêm ao mundo com uma natureza corrompida e sem os preciosos dons de conhecimento, justiça e santidade com os quais a natureza humana foi originalmente dotada. Não é isso uma injustiça? Devem os filhos sofrer pelos pecados de seus pais? Não se deve ter piedade dos homens por seu estado deplorável, ao invés de serem condenados por causa de sua impiedade?

Ainda mais, como pode o homem ser considerado responsável por seus pecados e transgressões atuais, se ele nasce com uma natureza que é incapaz de guardar a lei de Deus e que é inclinada a toda impiedade? Eu nasço com uma natureza corrompida, morto em delitos e pecados, e isso certamente não posso reverter. Eu nunca tive uma oportunidade de fazer o bem. Por conseguinte, concluo que não sou responsável pelos meus crimes; não posso ser considerado responsável pela forma como nasci. Eu sou uma vítima de circunstâncias pelas quais mereço receber piedade, ao invés de ser um objeto de ira e condenação. Deus não pode demandar de mim o que não posso e nunca serei capaz de realizar.

Em resposta, devemos lembrar que Deus criou a raça humana não somente como um organismo, com Adão como a raiz e o primeiro pai, mas também como uma corporação legal com Adão como o cabeça representativo. Mesmo de um ponto de vista legal, a raça humana não é um mero agregado de indivíduos no qual cada um permanece de pé e cai como seu próprio mestre, sem ser de forma alguma responsável pelo todo. Pelo contrário, existe responsabilidade comunal, e existe culpa e sofrimento comunal na vida humana. Isso é evidente na vida toda: o individualismo é condenado em todo lugar.

Isso é claramente ilustrado na vida de uma nação em relação ao seu governo. No instante concreto em que os Estados Unidos vai à guerra contra uma nação estrangeira, certamente não é todo cidadão americano que declara guerra contra essa nação. Sem dúvida, por esse ato de declaração oficial de guerra, o governo é responsável diante de Deus. Ao governo é confiada a espada. Ele é o único poder ordenado por Deus que tem a autoridade de manusear a espada, bem como de declarar e travar uma guerra. O soldado que é chamado pelo governo e vai para a batalha não comete assassinato e não é culpado do sangue derramado se mata o inimigo no campo de batalha. Ele meramente manuseia a espada do governo e faz assim em nome do governo. Contudo, isso significa que não existe responsabilidade e sofrimento comunal? Que cidadão em são juízo diria que quando o governo declara guerra, o próprio governo teria lutado melhor suas próprias batalhas? Quando o governo declara guerra, todos os seus cidadãos estão num estado de guerra, e terão que sofrer todas as conseqüências implicadas. Mesmo diante de Deus, uma nação não é um agregado de indivíduos, mas um corpo legal; o governo representa todos os seus cidadãos. Se o governo, para suprir as despesas de uma guerra, acumula um débito de muitos bilhões de dólares, todos os seus cidadãos são responsáveis pelo pagamento do débito; mesmo seus filhos e os filhos dos seus filhos terão que suportar o peso dessa responsabilidade.

Assim acontece em todo departamento da vida. É verdade que existe responsabilidade individual e pecado e culpa individual. É também verdade que nesse sentido os filhos não podem ser considerados responsáveis pelos pecados dos pais. É também verdade, contudo, que existe uma responsabilidade e culpa comunal que percorre as gerações. Deus visita "a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que [o] aborrecem" (Ex. 20:5). Deus criou toda a raça humana em Adão como uma corporação legal representada por nosso primeiro pai. Portanto, ninguém pode dizer que não é responsável pela transgressão de Adão, pois todos pecaram nele e seu pecado é imputado a todos eles.

Essa é a solução apresentada pela Escritura aos problemas do pecado e da morte e de sua universalidade e relações entre si. Todos os homens nascem no pecado porque toda a natureza humana foi corrompida pelo pecado do homem Adão. Através de um homem o pecado entrou no mundo e a morte pelo pecado (Rm. 5:12); assim, todos os homens nascem mortos no sentido pleno. Eles nascem com o poder da morte física tragando-os para a sepultura e com a corrupção da morte espiritual em seus corações, de forma que estão mortos em delitos e pecados quando entram no mundo (Ef. 2:1). A morte é punição: é a execução da sentença justa do juiz supremo do céu e da terra sobre todos.

Se a morte é punição, e se essa punição é infligida sobre toda a raça humana, sobre cada indivíduo antes dele ser capaz de cometer qualquer pecado real, então a razão deve ser que aos olhos de Deus toda a raça humana é culpada com uma culpa comunal, no homem Adão. É assim que as Escrituras nos instruí em Romanos 5:12-14, onde o texto está tratando com o problema da morte universal:

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir.

É verdade que o texto também fala da universalidade do pecado por meio do pecado de um homem. Mas isso é assim somente em conexão com o problema sério da universalidade da morte: a morte passou a todos.

A morte reina suprema. Ela reinava antes que houvesse qualquer lei. Ela reinou de Adão a Moisés, e reinou mesmo sobre aqueles que "não pecaram à semelhança da transgressão de Adão" (v. 14). Eles nunca tiveram um mandamento especial para guardar ou violar. Nunca tiveram o poder, como Adão, de determinar se guardariam ou não a lei de Deus. Todavia, a morte reinou sobre eles. Reinou mesmo sobre os pequeninos no berço que não podiam discernir entre a sua mão direita e esquerda.

Como esse reinado universal da morte é explicado? É explicado nas palavras "porque todos pecaram" (v. 12). Quando, onde e como todos pecaram: Todos os homens pecaram no princípio, no primeiro paraíso, e por meio do primeiro Adão, que era o representante da raça diante de Deus: "por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação" (v. 18)

Fonte: Reformed Dogmatics, Herman Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, vol. 1, pp. 392-395.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Corpo e Seus Membros




O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos. Se o pé disser: “Porque não sou mão, não pertenço ao corpo”, nem por isso deixa de fazer parte do corpo. E se o ouvido disser: “Porque não sou olho, não pertenço ao corpo”, nem por isso deixa de fazer parte do corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria a audição? Se todo o corpo fosse ouvido, onde estaria o olfato? De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, há muitos membros, mas um só corpo. (1 Coríntios 12.14-20)


O plano de Deus é que deveria existir uma dependência mútua entre os crentes; contudo a Bíblia ensina isso primariamente em relação ao ministério público, e não à fé do indivíduo. Diz-se frequentemente, de uma forma ou de outra, que um cristão que está desvinculado de uma comunidade está fadado ao fracasso, mas esse ensino é mais autobiográfico do que bíblico, e é manipulador ao invés de encorajador. Ele é difundido por pessoas fracas ou por líderes que preferem ameaçar pessoas em vez de aprimorar seus próprios ministérios. Ao enfatizarem fé e adoração coletivas, ainda que sua intenção seja supostamente de fortalecer a igreja e seus membros, na verdade seu erro tem sido um fator importante para se perpetuar nos crentes a falta de vigor e compromisso.


O problema é que a sua doutrina equivale a uma negação da plenitude e suficiência de Cristo. Jesus Cristo é suficiente para sustentar e nutrir cada crente em particular totalmente à parte de qualquer outro crente. Há somente um Pai e um mediador entre Deus e o homem, Jesus Cristo. A igreja não é nossa mãe e nosso sacerdote. Antes, cada cristão é um sacerdote divinamente ordenado para a sua posição com plenos direitos de aproximar-se do trono dos céus e receber e administrar tudo o que Deus tem a oferecer por meio de Jesus Cristo. O cristão pode receber tudo de Cristo por meio da fé e pelo contato direto com Deus, sem a assistência da igreja e muito menos a sua permissão. Qualquer doutrina diferente disso é um ataque à suficiência e mediação de Cristo e deve ser considerada heresia.


O foco aqui é o princípio, e não que uma fé isolada é sempre preferível ou que a pessoa deveria deliberadamente buscar esse tipo de fé. E quando a preocupação tem a ver com o princípio, devemos insistir que a doutrina popular que faz da comunidade uma questão de necessidade é uma doutrina que não vem da revelação de Deus, mas da incredulidade e de suposições pessimistas sobre o potencial de um indivíduo perante Cristo. Quando se assume que comunidade é algo necessário para o florescimento ou mesmo para a sobrevivência da fé do indivíduo, encorajar a fé coletiva se torna a mesma coisa que encorajar a fraqueza pessoal. Isso é também um desserviço à comunidade, porque em vez de se reunir por amor, um bando de covardes se reúne agora por necessidade de se deixar arrastar pelos outros.


Jeremias era extremamente solitário, e Paulo teve às vezes de encarar as maiores provações sozinho, mas Jesus Cristo estava com eles e era suficiente para eles. Você diz: “Mas eu não sou Jeremias ou Paulo”. Certo, e enquanto continuar pensando dessa forma você nunca será qualquer coisa parecida com eles. Você não é Jeremias ou Paulo, mas confia no mesmo Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e sempre, e assim não existe nenhuma diferença. Logo, jamais devemos sacrificar a suficiência de Cristo para preservar a importância da comunhão na igreja. E se você não pode passar o dia sem depender de outro homem para sustentá-lo, ao


menos não infecte os outros com a sua incredulidade e fraqueza. Assim também, pregadores que negam a suficiência de Cristo para o indivíduo a fim de preservar a importância da comunidade deveriam ser repelidos. A igreja é de fato plano de Deus, mas não para o propósito de sobrevivência espiritual do indivíduo. Jesus Cristo é suficiente ― mais que suficiente ― para cada pessoa à parte da comunidade. Isso é inegociável.


Quando se trata do contexto público, como em uma reunião de igreja ou tarefas cotidianas da comunidade, o plano de Deus é de fato a dependência mútua, e nenhuma pessoa pode representar todo o corpo ou realizar todas as suas funções. Antes, cada pessoa é posta em seu próprio lugar de acordo com a vontade de Deus. Como escreve Paulo, “De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade”. Não se espera que façamos todos as mesmas coisas ou foquemos igualmente as mesmas coisas. Eventualmente um evangelista poderia enfatizar tanto a primazia do evangelismo que leva todas as outras pessoas se sentirem culpadas por não fazerem tanto quanto ele. Mas ele não está alimentando nenhum órfão. Então aquele que não faz nada mais que alimentar órfãos aparece e faz o evangelista parecer um hipócrita de coração frio. Deus nos colocou em nossas próprias posições, e não devemos definir o corpo como um todo por nenhuma função pela qual estamos obcecados: “Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, há muitos membros, mas um só corpo”.


É aqui que a distinção entre a fé do indivíduo e o ministério público se torna essencial. Como indivíduo, posso realizar em uma pequena escala quase qualquer função no corpo de Cristo, ainda que esse não seja o meu ministério principal. Isto é, posso não ter sido chamado a liderar um projeto nacional para alimentar os famintos, mas eu seria negligente se um pedinte morresse de fome na soleira de minha porta. No entanto, só porque devo alimentar o pedinte na soleira de minha porta, isso não significa que eu deveria liderar um esforço nacional de combate à fome. Em vez disso, talvez Deus tenha me chamado para combater essa confusão ridícula sobre fé pessoal e fé coletiva. Em outras palavras, cada pessoa deveria ser uma crente completa, mas nenhuma pessoa precisa ser uma igreja inteira.


Você pode não pensar em seu dedo mindinho a todo o momento, mas se alguma vez você já o torceu, subitamente percebeu que depende dele o tempo todo. Agora ele dói quando você se levanta, quando se vira, quando caminha. O que acontece se um papel fino corta o seu dedo? Ele dói quando você faz quase qualquer coisa ― dói quando você escreve, quando você dirige, quando você cozinha, quando você lança uma bola ― de modo que “quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele” (v. 26). Da mesma forma, a pessoa que lida com processos burocráticos na igreja, ou talvez faz a contabilidade, recebe pouca atenção; mas imagine o caos se ela for subitamente removida, ou se ela é incompetente ou desonesta.


Para enfatizar uma vez mais o ponto anterior, se você prega na igreja e alguém outro limpa o chão, isso não significa que essa pessoa também limpa o seu chão quando você vai para casa. E se você limpa o seu próprio chão em casa, isso não significa que você deve limpá-lo na igreja, a menos que esse seja o seu emprego. Novamente, Cristo é suficiente para todo crente, para que todo crente pudesse ser completo, mas cada crente não desempenha todas as funções na igreja, de forma que há uma dependência mútua na igreja. Uma teologia da igreja que em


qualquer grau compromete a suficiência total de Cristo ou o potencial e a responsabilidade do indivíduo é uma doutrina falsa.


Ora, uma pessoa pode crescer em proficiência, e um dom pode crescer em poder através da oração, do estudo e do uso regular, mas a capacidade parecerá nativa para ela, e não artificial ou forçada. Uma pessoa que não pode desempenhar, digamos, deveres administrativos pode muito bem receber a capacidade após a conversão, mas isso se tornará natural para ela dali em diante. Um olho é um olho porque Deus o fez um olho. Assim também, para um olho ser um olho, basta apenas ele ser ele mesmo. Ele não tem de ser algo que ele não é nem deveria ser invejoso ou fingir ser outro membro no corpo. É assim que ele funcionará de acordo com o seu verdadeiro propósito e potencial.


Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (janeiro/2011).

Fonte: http://www.vincentcheung.com/

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POSTADO POR : miguel silva