sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Tesouro de Davi Charles H. Spurgeon,



Este trabalho foi publicado pela primeira vez em parcelas semanais ao longo de vinte anos de duração na London Metropolitan Tabernáculo periódico, A Espada e a Espátula Terminado. a seções foram liberados volume por volume, até que o sétimo e último volume foi lançado em 1885. Dentro de uma década mais de 120.000 livros tinham sido vendidos. O Tesouro de Davi é uma UMA REALIZAÇÃO soberba Literária . Eric Hayden, pastor do Tabernáculo Metropolitano um século depois do ministério de
Spurgeon começou , chama isso de "trabalho de magnum opus Spurgeon . A mulher de Spurgeon
disse que, se nunca tivesse escrito qualquer outro trabalho, este teria sido um memorial permanente literário. a muitos comentário do proprio Spurgeon em cada verso dos Salmos e citações de centenas de comentadores - contemporâneos de Spurgeon, assim como os expositores dos grandes puritanos dos séculos XVII e XVIII.
pregadores e os professores Irão apreciar as sugestões homileticas em quase todos os versos, concisa sermão esboços,e sementes de pensamentos Provocantes, Bibliografias úteis, e um índice de autores Oferecem uma ajuda mais prática Se você está ensinando sobre os Salmos, estudá-los para uma Devoção, ou simplesmente intrigado com os escritos perspicaz, e por si só, teria Sido rico o suficiente para uma posteridade. Mas há muito mais em O Tesouro de Davi. Você vai encontrar uma grande variedade de extratos iluminante escritos de Spurgeon, você vai apreciar este clássico .O trabalho continua nos dias de hoje em várias edições. Um conjunto completo de ,o tesouro de Davi em forma de livro está disponível a partir Pilgrim Publications, PO Box 66, em Pasadena, TX 77501
The Spurgeon Archive
texto traduzido do ingles por : miguel silva

domingo, 24 de janeiro de 2010

Comentário de Filemon de calvino


Filemon

Comentário de João Calvino a Filemom

IVv. 1-7}

Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e Timóteo, nosso irmão a Filemom, nosso amado e cooperador; e à nossa irmã Afia, e a Arquipo, nosso companheiro de luta, e à igreja que está em tua casa: graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Dou sempre graças ao meu Deus fazendo menção de ti em minhas orações ouvindo de teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus e para com todos os santos; para que a comunhão de tua fé venha a ser eficaz no conhecimento de todo o bem que há em vós para com Cristo. Tive muita alegria e conforto em teu amor, visto que através de ti; ó irmão, os corações dos santos tem sido refrigerados.


O caráter sublime do espírito de Paulo, ainda que melhor percebido em seus escritos mais importantes, desponta também nesta epístola,.na qual, enquanto se ocupa de um assunto por natureza humilde e sem importância, se volve para Deus em seu modo costumeiro. Ele toma um escravo e ladrão fugitivo e o envia de volta ao seu senhor, com a solicitação que o mesmo fosse perdoado.


Ao advogar sua causa, o apóstolo discute a tolerância cristã com uma habilidade tal que parece estar pensando no interesse de toda a Igreja, e não apenas nos assuntos de um indivíduo. Em favor de um homem da mais baixa condição, ele se condescende com uma modéstia e humildade tais, que em nenhuma outra parte se descreve em cores tão vivas a docilidade de seu caráter.


1. Prisioneiro de Cristo Jesus. No mesmo sentido em que em outro lugar se qualifica de apóstolo ou ministro de Cristo, ele agora se qualifica de seu prisioneiro, visto que as cadeias com que se encontrava acorrentado por causa do evangelho eram os ornamentos ou emblemas da comissão que desempenhava par amor a Cristo. Ele as menciona aqui, não porque sua autoridade necessitasse de corroboração, ou porque temesse ser desprezado - porquanto Filemom indubitavelmente sentia grande estima e reverencia para com ele, e portanto não precisava valer-se de nenhum titulo -, mas porque precisava advogar a causa de um escravo fugitivo, e a parte primordial dela era a suplica por perdão.


A Filemom. E provável que esse Filemom pertencesse a ordem dos pastores, pois Paulo o qualifica de cooperador, e esse não é um titulo que geralmente ele costumava aplicar a um indivíduo em particular.


2. E Arquipo, nosso companheiro de luta. Também se dirige a Arquipo, que provavelmente era também ministro da Igreja; pelo menos pode ser a mesma pessoa mencionada no final da epístola aos Colossenses [4.17], o que não e de todo improvável, pois o apóstolo se dirige a ele como um companheiro de luta, designação esta que se aplica particularmente aos ministros. Pois embora todos os cristãos sejam partícipes nesta guerra, os mestres são, por assim dizer, os porta-estandartes, e como tais devem estar mais dispostos a lutar do que os demais; e Satanás geralmente lhes oprime com mais violência. É provável que Arquipo fosse colega de Paulo e participasse com ele de algumas lutas nas quais estava envolvido, pois essa é 3 palavra que Paulo usa sempre que faz menção de perseguições.


Ele confere o mais elevado enaltecimento a família de Filemom ao dizer, a igreja que está em tua casa, e com certeza não é um enaltecimento de pouca importância o fato de que o cabeça de uma casa que tenha sua família tão bem ordenada, seja a mesma vista como uma igreja, e quando ele desempenha seu ofício de pastor em sua própria casa. E não devemos jamais esquecer que esse homem tinha uma esposa que se assemelhava a ele, porque Paulo teve boas razões para apresentá-la no mesmo tom.


4. Dou sempre graças ao meu Deus. Deve-se notar que ele ora pelas mesmas pessoas por quem rende graças. Mesmo o mais perfeito dos homens, que mereça o mais extremado enaltecimento, necessita de intercessão em seu favor, enquanto viver neste mundo, a fim de que Deus lhe conceda não só a perseverança final, mas também o progresso diário.


5. Ouvindo do teu amor e da fé que tens. O enaltecimento que ele tributa a Filemom inclui resumidamente toda a perfeição de um homem cristão. Ele consiste de duas partes: fé para com Cristo e amor para com o próximo; pois todos os deveres de nossa vida se relacionam com esses dois elementos. Diz-se que a fé e para com Cristo, visto que e a ele que ela especialmente contempla. É através dele só que Deus o Pai pode ser conhecido, e somente nele podem ser encontradas todas as bênçãos que a fé busca.


E para com todos os santos. O apóstolo, porém, não limita o amor aos santos, como se negasse que ele deva ser também demonstrado a outros. O ensino do amor consiste em que não devemos desprezar nossa própria carne, senão que devemos tratar com honra a imagem divina gravada em nossa natureza humana, e assim o amor tem de incluir toda a raça humana. Visto, porém, que aqueles que fazem parte da família da fé estão necessariamente ligados a nos por um laço muito mais estreito, e visto que Deus os recomenda especialmente a nós, é justo que ocupem o primeiro lugar em nosso coração.


A redação desta passagem é um tanto confusa, porem não falta clareza em seu significado, salvo par conta de algumas dúvidas, como, por exemplo, se a advérbio, sempre [v. 4], pertence à primeira ou à segunda cláusula. O significado pode ser indicado da seguinte maneira: sempre que o apóstolo orava par Filemom, ele incluía ações de graças por ele na oração, visto que sua piedade era motivo de tal regozijo, pois as vezes oramos por alguém que outra coisa não nos causa senão tristeza e lágrimas. Não obstante, geralmente se considera preferível tomar 'sempre' como correspondente a segunda cláusula - que Paulo rende graças por Filemom e sempre a menciona em suas orações.


No restante do versículo há uma inversão da ordem natural; porque, depois de falar de amor e fé, ele adiciona: para com Cristo e para com os santos, enquanto que o significado deve, ao contrário, requerer que Cristo seja mencionado imediatamente depois de fé, vista que e para ele que nossa fé olha.


6. Para que a comunhão de tua fé venha a ser eficaz. Esta cláusula é um tanto obscura, contudo tentarei elucidá-la de uma maneira tal que meus leitores venham a apreender a intenção de Paulo. Primeiramente devemos descobrir que o apóstolo não está dando prosseguimento ao seu enaltecimento a pessoa de Filemom, mas esta explicando o que pedira para ele, ao fazer menção dele em suas orações [v. 4]. Então, o que ele pediu? Que sua fé, convertendo-se em boas obras, por si só provasse ser genuína e frutífera. Ele a qualifica: "a comunhão de tua fé', vista que a fé não permanece inativa e escondida, mas se manifesta aos homens através de seus frutos. Pois ainda que a fé tenha sua residência secreta nos recessos do coração, ela se comunica com as homens através das boas obras. É como se ele quisesse dizer: "Tua fé, ao comunicar-se, pode comprovar sua eficácia em todas as coisas saudáveis."

No conhecimento de todo a bem significa experiência. Ele deseja que a fé de Filemom se comprovasse eficaz par seus efeitos, e isso sucede quando as pessoas entre as quais vivemos conhecem nossa vida piedosa e santa. Daí ele falar de todo o bem que há em vós, porque tudo o que existe de bom em nós revela nossa fé.


A frase, ei\j Xristón [Eis Xriston]' pode ser traduzida: por Cristo, mas, se eu pudesse, preferiria traduzi-la no sentido de e\n Xrit%= [en Xristo]' em Cristo. Pois os dons de Deus nos são ministrados só quanto somos membros de Cristo; visto, porém, que em vós vem imediatamente a seguir, receio que a forma abrupta da expressão venha a ser inaceitável. Por isso não me aventurei a fazer qualquer mudança nas palavras, mas quis fazer tal menção aos meus leitores, para que possam ponderar bem e então decidir sua própria preferência.


7. Tive muita alegria e conforto. Ainda que os gregos prefiram a tradução, 'graça', entendo que faríamos melhor traduzindo-a por alegria. Pois há pouca diferença entre Xa\rin [xarin] e xa¢ran [xaran], e seria muito fácil mudar uma só letra equivocadamente. Além disso, esta não é a única passagem nos escritos de Paulo em que xa/rin [xarin] significa alegria, pelo menos se seguirmos Crisóstomo nesta matéria. Que conexão há entre graça e conforto? Seja como for, é bastante claro o que Paulo quer dizer, ou seja: que ele encontra grande alegria e conforto no fato de que Filemom tenha providenciado alívio para as necessidades dos santos. É um amor acima do comum aquele que leva alguém a encontrar alegria no bem praticado em favor de outrem. Alem disso, o apóstolo não está expressando apenas sua alegria pessoal, mas diz que muitos se tem regozijado diante da bondade e benevolência de Filemom, provendo socorro para os santos.


Visto que através de ti os corações dos santos tem se refrigerado. Refrigerar o coração é uma expressão usada por Paulo no sentido de prover alivio nas aflições ou socorrer aquele que jaz em miséria, de forma que, tendo as mentes apaziguadas e livres de toda e qualquer ansiedade e tristeza, possam encontrar repouso. Porque, pelo termo coração, o apóstolo quer dizer os sentimentos; e com anapusij; [anapausis], ele quer dizer tranqüilidade. Daí estarem equivocados os que fazem esta passagem referir-se ao estômago e sua nutrição, com base no fato de que a palavra grega significa, literalmente, entranhas.

(vv. 8-14)


Por isso, ainda que eu tenha toda a ousadia em Cristo para ordenar-te o que te convém, não obstante peço-te antes em nome do amor, sendo eu tal como sou, Paulo, o velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus. Rogo-te por meu filho, Onésimo, a quem gerei em minhas cadeias; o qual noutro tempo te foi inútil, mas agora é útil a mim e a ti; a quem envio de volta a ti, pessoalmente, ou seja meu próprio coração; A quem eu bem quisera conservar comigo, para que em teu interesse ele pudesse me servir nas cadeias do evangelho; sem o teu consentimento, porém, nada faria; para que a tua bondade não fosse como por necessidade, e, sim, de boa vontade.


8. Ainda que eu tenha toda a ousadia em Cristo, ou seja, ainda que eu tenha a autoridade de ordenar-te, em lugar disso o teu amor me leva a pedir-te. Ele reivindica o direito de ordenar sobre duas bases, a saber: primeiro, porque ele é um ancião ['O velho']; segundo, porque ele é um prisioneiro de Cristo. Ele declara que, por causa do amor de Filemom, prefere expressar na forma de solicitação, porque exercemos autoridade e emitimos ordens quando queremos extorquir das pessoas as coisas que não nos querem dar voluntariamente. Mas já que aqueles que se prontificam, e tem boa vontade em cumprir seu dever, ouvem com calma a explicação do que é exigido, mais voluntariamente do que quando se usa autoridade, Paulo tem boas razões em solicitar quando esta tratando com alguém obediente. Através de seu exemplo ele ensina aos pastores a tentarem orientar suas ovelhas mansamente, em vez de usar a força, pois quando condescende em solicitar e em ignorar seu direito de ordenar, ele tem maior força em obter o que deseja. Além do mais, ele nada reivindica para si senão somente em Cristo, ou seja, por conta do ofício que Cristo lhe conferiu; pois de forma alguma pressupõe com isso que falte autoridade aqueles a quem Cristo constituiu apóstolos.


Ao acrescentar, tò a¢nh¤kon [to anekon], o que convém, sua intenção é que os mestres não tem poder de ordenar o que bem desejam; sua autoridade está confinada dentro dos limites da conveniência, e, em outros aspectos, que seja também consistente com o dever de cada pessoa. E assim, como disse antes, os pastores São lembrados de que, sempre que este método é eficiente para produzir efeito positivo, o coração de seu povo deve ser conquistado com amabilidade, mas de tal maneira que as que são guiados em mansidão saibam que lhes esta sendo exigido menos do que realmente devem.


A palavra ancião, aqui, não se refere a idade, e, sim, ao ofício. Aqui ele não se denomina ele apóstolo, porque esta tratando com um colega no ministério da Palavra, e por isso se lhe dirige de maneira familiar.


10. Rogo-te por meu filho. Já que, geralmente, se dá menos importância as solicitações que não contam com a apoio de explicações persuasivas, Paulo, ao interceder por Onésimo, mostra que esta cumprindo um dever compulsório. Por conseguinte, é de muita importância observar os passos de sua condescendência, ao denominar alguém que e escravo, fugitivo e ladrão como sendo seu próprio filho.


Ao afirmar que Onésimo fora gerado por ele, a intenção do apóstolo não era afirmar que tal coisa era produto de seu próprio poder, senão que fora a instrumento [divino]; pais não e através de alguma obra do homem que a alma humana é reformada e renovada na imagem de Deus, e é com esse ato de regeneração espiritual que o apóstolo ora esta tratando. Vista, porém, que a regeneração de uma alma se dá pela fé, e visto que a fé vem pelo ouvir [Rm 10.17], aquele que ministra a doutrina desempenha o papel de pai. Além do mais, visto que a Palavra de Deus proclamada pela instrumentalidade do homem é a semente de vida eterna, não é de estranhar que aquele de cujos lábios recebemos essa bendita semente seja chamado nosso pai Ao mesmo tempo, e bom não esquecermos que, ainda que o ministério de um homem seja eficaz na regeneração de uma alma, estritamente falando é Deus quem a regenera pelo poder de seu Espírito. Essa forma de se expressar de maneira alguma implica alguma oposição entre Deus e o homem, senão que apenas mostra como Deus age através dos homens. Sua declaração, dizendo que gerou Onésimo em suas cadeias, adiciona peso a sua recomendação.


12. Ou seja, meu próprio coração. Ele não poderia ter dito algo mais eficaz para abrandar a indignação de Filemom. Porque, se ele porventura recusasse a perdoar Onésimo, estaria tratando o próprio coração de Paulo com crueldade. A benevolência de Paulo é grandiosa, não hesitando entregar seu coração para acolher um escravo comum que, além de tudo, era também um ladrão e fugitivo, a fim de protegê-lo da ira de seu senhor. Ora, se a conversão de um homem a Deus foi considerada de forma tão séria, nós, também, devemos da mesma forma acolher aqueles que demonstram estar sincera e genuinamente arrependido.


13. A quem eu bem quisera conservar comigo. Eis outra forma de abrandar Filemom, ou seja, que Paulo estaria enviando-lhe de volta o escravo de cujos serviços ele mesmo tinha a mais premente necessidade. Pois teria sido uma dolorosa descortesia [da parte de Filemom] rejeitar uma atenção [studium] tão especial da parte de Paulo. O apóstolo insinua que ser Onésimo enviado de volta a Filemom deveria resultar como uma dádiva bem-vinda, em lugar de ser ele maltratado em casa.


Para que em teu interesse ele pudesse me servir nas cadeias do evangelho. A seguir, o apóstolo adiciona mais considerações, ou seja: primeiramente, que Onésimo ocupasse o lugar de seu senhor em prestar esse serviço [ao apóstolo]; em segundo lugar, que, movido de humildade, ele não quis privar Filemom de seus direitos; e, em terceiro lugar, que Filemom mereceria maior encômio se, depois de ter recebido de volta o seu escravo, voluntariamente e de bom grado o enviasse de volta [a Paulo]. Deste último ponto devemos inferir que, quando os mártires de Cristo estão em campo pelo testemunho do evangelho, devemos ajudá-los de todas as formas que pudermos.


Pois se cremos no que Paulo diz aqui, ou seja, que o exílio, o encarceramento, os açoites, os insultos e a violenta confiscação de propriedade pertencente ao evangelho, e quem quer que se recuse a participar dessas coisas degreda-se de Cristo. E indubitável que a defesa do evangelho e uma responsabilidade comum a todos nos. Portanto, aquele que sofre perseguição por causa do evangelho não deve ser considerado como um indivíduo isolado, mas como alguém que publicamente representa toda a Igreja. Cuidar do evangelho é um dever comum a todos os crentes, de modo que eles não devem, como freqüentemente é o caso, deixar tal responsabilidade sobre apenas uma pessoa.


14. Para que a tua bondade não fosse como por necessidade. Aqui temos o exemplo da regra geral de que os únicos sacrifícios que agradam a Deus são aqueles oferecidos espontaneamente. Paulo diz a mesma coisa em 2 Coríntios 9.7, sobre as ofertas. To\ a)gaqo\n [to agathon] significa um ato de bondade, e a coação uma ação voluntária, pois sob o constrangimento não há oportunidade de se mostrar a vontade generosa de se fazer o que se requer, e o fato de que um dever voluntariamente desempenhado é o único título do genuíno louvor. É digno de nota que, ainda que Paulo reconhecesse a culpa anterior de Onésimo, ele declara que este está agora transformado; e no caso de Filemom alimentar alguma dúvida sobre se seu escravo voltaria para ele com uma nova disposição e conduta diferente, o apóstolo diz que comprovou pessoalmente que Onésimo realmente estava arrependido.

[vv. 15-19]

Porque, bem pode ser que ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que o recobrasses para sempre; não mais como um servo, e, sim, muito mais que um servo, um irmão amado, especialmente para mim, e quanto mais para ti tanto na carne como no Senhor. Se, pois, me consideras um companheiro; recebe-o como a mim mesmo. Mas se ele te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, lança-o na minha conta; eu, Paulo, de meu próprio punho o escrevo, o pagarei para não te dizer que me deves até mesmo a ti próprio.


15. Porque, bem pode ser que ele se tenha apartado de ti por algum tempo. Caso nos iremos ante as ofensas praticadas pelos homens, nossa ira deve amenizar-se ao vermos que as coisas feitas maliciosamente foram praticadas para servir a diferentes fins segundo os desígnios divinos. Um ditoso resultado pode ser considerado como a cura para muitos males, a qual a mão divina nos oferece com o fim de dissipar as ofensas. Assim foi com José (Gn 45.5], ao considerar como a portentosa providencia divina realizou quando, apesar de ser vendido como escravo, não obstante foi elevado a uma posição tal que daí pôde sustentar a seu pai e a seus irmãos, e. ainda pôde esquecer a traição e crueldade de seus irmãos, dizendo-lhes que fora enviado para ali por causa deles.


Semelhantemente, Paulo lembra a Filemom que não se sentisse por demais ofendido pela fuga de seu escravo, porque ela produziu algo positivo, sobre o quê não deve lastimar. Ppis sendo Onésimo essencialmente um trânsfuga, mesmo que Filemom o retivesse em casa, na realidade não haveria desfrutado de sua propriedade. Sendo ele perverso e desleal, não era de nenhuma valia ao seu senhor. O apostolo diz que Onésimo fora vagabundo por algum tempo, para que, mudando de lugar, fosse ele mesmo mudado, convertendo-se em novo homem. o apóstolo sabiamente ameniza toda a situa<;ao, denominando a fuga de Onésimo, uma partida, e acrescentando que ela fora apenas temporária, e finalmente ele contrasta a durabilidade da utilidade com a breve duração da perda.


16. Muito mais que um servo, um irmão amado. Ele prosseguiu, fazendo menção de outro resultado positivo da fuga de Onésimo - ele não só foi corrigido por ela, de modo a transformar-se num escravo útil, mas ainda se converteu em irmão de seu senhor.

Especialmente para mim. Mas no caso de Filemom ainda sentir-se abalado com uma ofensa ainda tão recente e sentir-se indeciso se aceitaria ou não a Onésimo como seu irmão o apóstolo de antemão o reconhece como seu próprio irmão. Desse fato ele infere que Filemom esta em relação muito mais estreita com ele; porque, embora Onésimo tivesse, no Senhor, segundo o Espírito, a mesma importância para ambos - Paulo e Filemom -'. não obstante,. segundo a carne, ele pertencia a família de Filemom. Aqui, uma vez mais, percebemos a inusitada humildade.de Paulo ao honrar a um escravo indigno com o título: irmão, ainda mais, chamando-o: meu mui querido irmão. Na verdade seria uma demonstração de gritante soberba, caso ele se envergonhasse em ter na conta de seus irmãos aqueles a quem Deus inclui no número de seus filhos.


Ao dizer, e quanto mais para ti, o apóstolo não esta insinuando que Filemom tivesse uma posição mais elevada segundo o Espírito; ao contrário, sua intenção é esta: "Visto que ele é um irmão especialmente para mim, então deve ser irmão muito mais para ti, porque tu e ele estais vinculados um ao outro por uma dupla relação."


Devemos assumir como um fato indiscutível que Paulo não recomenda precipitada e futilmente, como tantos o fazem, a alguém para ele insuficientemente conhecido, nem enaltece sua fé antes mesmo de fazer um teste completo ou uma avaliação racional dela. Temos, portanto, em Onésimo um notável exemplo de arrependimento. E bastante notório o mal caráter que tinham os escravos, de modo que raramente um em cem tinha algum valor real. Podemos conjecturar, a luz de sua fuga, que Onésimo se tornara por demais empedernido na iniqüidade ao longo de uma lenta e constante formação de costumes e hábitos. É, portanto, uma rara e maravilhosa excelência que tenha ele abandonado os vícios com os quais tanto corrompera sua natureza, a tal ponto que Paulo viesse a declarar com todas as veras de sua alma que agora ele é um outro homem. A luz desse caso podemos também deduzir a proveitosa doutrina de que os eleitos de Deus São as vezes conduzidos a salvação de formas incríveis, contra todas as expectativas gerais, por inúmeros meios e através de infindáveis labirintos. Onésimo vivia no seio de uma família piedosa e santa, e todavia, banido dela em virtude de suas próprias más ações, deliberadamente se afastara ainda mais de Deus e da vida eterna. Deus, porém, mediante sua secreta providencia, prodigiosamente dirigiu sua desastrosa fuga, pondo-o em contato com Paulo.


17. Se, pois, me consideras um companheiro. Aqui ele se humilha ainda mais, transferindo seus próprios direitos e dignidade para um trânsfuga, colocando-o em seu próprio lugar, justamente como logo depois se oferecer como seu fiador. Era da maior importância que o senhor de Onésimo se portasse bondosa e amavelmente para com ele, para que uma imoderada severidade [por parte de Filemom] não o levasse imediatamente ao desespero. Esse é o objetivo que laboriosamente Paulo tenta alcançar. Diante de seu exemplo somos lembrados com que afeição devemos estender a mão a um pecador que procura provar que realmente está arrependido. Pois se é nosso dever interceder juntamente com outros pelo perdão do penitente, quanto mais devemos nós tratá-lo com benevolência e simpatia.


18. Mas se ele te fez algum dano. A luz desta clausula podemos inferir que Onésimo havia furtado algo de seu senhor, segundo o hábito dos escravos fugitivos; O apóstolo, porém, ameniza a gravidade do ato, acrescentando: ou te deve alguma coisa. Não só havia uma obrigação entre ambos reconhecida pela lei civil, mas o escravo se fizera devedor de seu senhor pelo mal que lhe causara. Tão grande era, pois, a benevolência de Paulo, que estava até mesmo disposto a dar uma satisfação por esse crime.


19. Para não te dizer que me deves ate mesmo a ti próprio. Ao dizer isso, sua intenção era deixar em evidência quão seguro estava de que sua solicitação seria atendida; era como se dissesse: "Tu não poderias negar-me nada, mesmo que eu pedisse tua própria vida." o restante da matéria, acerca da hospitalidade, etc., tem o mesmo propósito, como veremos logo a seguir.

Paira uma pergunta: como é possível que Paulo prometa pagar em dinheiro, quando, afora o auxílio que as igrejas lhe davam, ele não tinha recursos nem mesmo para viver de forma parca e frugal? Diante das circunstâncias de necessidade e pobreza, sua promessa realmente parece ridícula; no entanto, não é difícil de perceber que, ao expressar-se dessa forma, Paulo está solicitando que Filemom não exigisse de seu escravo nenhum reembolso. Pois ainda que não haja qualquer laivo de ironia em suas palavras, mesmo assim, mediante uma expressão indireta, ele solicita a Filemom que apague e cancele essa conta. Eis sua intenção: "Não quero que suscites esse problema contra teu escravo, a menos que queiras considerar-me o devedor no lugar de Onésimo." Porque imediatamente acrescenta que Filemom lhe pertence inteiramente, e aquele que alegue ser uma pessoa, em sua totalidade, sua propriedade, não precisa ficar preocupado em ressarcir em moeda corrente.

[vv. 20-25]

Sim, irmão, eu me regozijo em ti no Senhor,' refrigera meu coração em Cristo. Escrevo-te confiado em tua obediência, sabendo que farás ainda mais do que te peço. E, ao mesmo tempo, prepara-me também pousada,' pois espero que, em resposta as vossas orações, vos hei de ser concedido. Epafras, meu companheiro de prisão em Cristo Jesus, te saúda; bem como Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com 0 vosso espírito. Amém.


20. Sim, irmão. Ele se expressa dessa forma para fazer seu apelo ainda mais convincente, como se dissesse: "Ficara claramente provado que entre ti e mim não há divergência alguma; ao contrário, tu estás sinceramente ligado a mim, e tudo quanto possuis esta à minha disposição, caso tu perdoes as ofensas passadas e recebas em teu favor aquele que esta tão intimamente ligado a mim."


Uma .vez mais, o apóstolo reitera a expressão que usara antes - refrigera meu coração. A luz desse fato inferimos que a fé evangélica não subverte a ordem civil nem cancela os direitos dos senhores sobre seus escravos, pois ainda que Filemom não fosse um dentre o povo comum, mas um colaborador do apóstolo no atendimento a vinha de Cristo, no entanto seu direito como senhor de escravos, o qual a lei lhe concedera, não podia ser-lhe usurpado. O que o apóstolo faz é apenas solicitar que o receba bondosamente, concedendo-lhe seu perdão; na verdade Paulo humildemente roga que Filemom restaurasse Onésimo a sua posição de origem.


Além do mais, a humilde solicitação de Paulo nos lembra quão longe do genuíno arrependimento estão aqueles que obstinadamente justificam seus vícios e confessam que não sentem por eles vergonha alguma, e nem dão sinal do menor resquício de humildade, de modo que deixam a entender que jamais pecaram real e irremediavelmente. Sem a menor sombra de dúvida, quando Onésimo viu esse extraordinário apóstolo de Cristo advogando sua causa de maneira tão exaustiva, com toda certeza deve ter-se humilhado ainda mais, procurando induzir seu senhor a estender-lhe sua clemência. Paulo, pela mesma razão, se justifica por haver escrito com tanta ousadia, visto que tinha certeza de que Filemom iria fazer mais do que ele pedia.


22. Prepara-me também pousada. Essa demonstração de confiança provavelmente injetou em Filemom um vigoroso estímulo; e manifesta ainda a esperança de deleitá-lo com sua chegada. Embora não saibamos se Paulo foi ou não libertado da prisão, esta declaração não contém nenhum absurdo, mesmo que sua esperança na benevolência temporária de Deus não se tenha cumprido. Sua confiança em seu livramento só tinha por base a condição: se era a vontade de Deus; pois ele estava sempre em prontidão, até que a vontade de Deus Fosse revelada mediante seu resultado.


Pois espero que, em resposta as vossas orações, vos serei concedido. É digno de nota o fato de ele dizer que tudo quanto os crentes pedem em suas orações lhes é 'concedido'. A luz desse fato inferimos que sempre que nossas orações obtém êxito, elas não prevalecem por serem meritórias, porquanto o que nos é concedido, mediante nossas orações, provem da graça soberana [de Deus]


24. Demas. Esta é a mesma pessoa que mais tarde abandonou o apóstolo, como ele mesmo diz com tristeza em II Timóteo 4.10. E se um dos assistentes do apostolo se cansou e perdeu o entusiasmo, e mais tarde foi arrebatado pelas vaidade do mundo, que nenhum de nós, pois, ponha em si demasiada confiança por haver sido fiel durante um ano; senão que recordando a extensão da jornada que ainda lhe resta a percorrer supliquemos a Deus que lhe conceda aquela firmeza de que carece.


Autor: João Calvino

Fonte: As Pastorais, pg. 365-379, editora Parakletos.

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Davi Barrozo de Carvalho

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Livre Arbítrio Refém


Ninguém pode roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se primeiro não manietar o valente; e então roubará a sua casa.

Marcos 3:27
O Diabo, ensinou o Senhor Jesus Cristo, só veio para matar, para roubar e para destruir enquanto Deus-Filho veio para dar vida e dar vida em abundância.
Tanto na passagem acima em Marcos como no capítulo referente a João 10:10, Jesus é acusado de ter demónio, blasfemando assim imperdoavelmente contra Deus. Ainda hoje, a mesma fúria possui os farisaicos religiosos quando confrontados com a verdade da eleição particular e soberania de Deus. Todo o homem é perverso totalmente e adverso a tudo o que expõe com verdade e realidade o Senhor Deus Forte e Poderoso em completa santidade e inacessível luz de glória eterna.
O homem está verdadeiramente refém de sua natureza pervertida pelo pecado. Sua casa é roubada pelo reino de Satanás. O homem gosta de disfarçar sua ruína e assim se cobre com trapos de imundícia. Imaginem, aparecer diante de vós um homem com manias de realeza, mas que o cheiro, as roupas imundas, as palavras ébrias e o andar cambaleante não condizem com suas afirmações.
Na verdade o homem foi manietado e não é livre a menos que Cristo o liberte. Está amarrado pelos seus pecados que nascem como mosquitos num charco de lodo. É preciso mover as águas paradas de sua alma, é preciso que Cristo os liberte e lhes dê vida e vida abundante, é preciso nascerem de novo espiritualmente pelo poder do Espírito Santo.
Enquanto isso, são reféns dentro de seus próprios corpos. Escravos de acções odiosas, pensamentos imundos, sentimentos indomáveis! Querem ser livres, mas enquanto não reconhecerem sua perdição, sentirem sua incapacidade, iludirem-se na sua liberdade e poder próprio, não serão jamais libertados do jugo do pecado e do ferrão da morte.
Por causa disto é que é detestável a pregação dos hipócritas farisaicos dos “evangélicos” modernos. Alimentam as moscas do lamaçal e lixeira dos corações dos irregenerados. Engordam as almas destes corações orgulhosamente perversos. Enquanto eles se enrolam, os farisaicos dão-lhes cordas para os atar ainda mais numa ilusão que conduz à perdição eterna.
Sem Cristo estais perdidos! Clamai a Deus que vos liberte! E se ouvirdes a Sua voz, sereis certamente ovelhas do Seu aprisco (João 10:16).
Vós portais, cabeças erguei,
Entradas eternas do Rei,
E entrará o Rei da Glória.
Quem é este Rei da Glória?
É o Deus forte, Rei dos Céus,
Poderoso na guerra é Deus!
(Saltério de Genebra, Salmo 24)

Autor: Nuno Pinheiro

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Olavo de Carvalho fala sobre Religião e Sociedades Secretas lado (A-B)


Neste sexto bate-papo (lado A) com o escritor Yuri Vieira, o filósofo Olavo de Carvalho discorre sobre os seguintes temas: Islã, Frithjof Schuon, religião comparada, judaísmo/hinduísmo/budismo, Conceito de religião, revelação e doutrina, Cristianismo, o indiví­duo, fé e crença, a filosofia perene


Olavo de Carvalho fala sobre Religião - lado B

Neste "lado B", Olavo discorre sobre os seguintes tópicos: pensamento epidérmico e pensamento profundo; diferença entre Deus e Alá; fraternidade; a conversão acentuadamente "civil" islâmica e a conversão estritamente espiritual cristã; o Verbo Divino; Fé e confiança; a conversão não é ...

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Charles H. Spurgeon 's Biblioteca Pessoal




foto original;

uma biblioteca privada do Rev. Charles Haddon Spurgeon de livros do século 16, 17 e 18. A coleção tem sido citado como sendo de valor superior a 100.000 dólares e, possivelmente, vale muito mais que isso. em Westwood, casa de sua família, continha mais de 12.000 volumes. A maioria destas foram adquiridas por um doador que deu a Biblioteca no Curry William Jewell College (perto de Kansas City).Livros, móveis, e todos foram para lá, onde residia em um quarto que era uma réplica do estudo pessoal de Spurgeon . O Pregador Não se limitou a leitura de Assuntos Teológicos. Seus Interesses eram tão amplo quanto o próprio mundo. Ele tinha livros sobre uma variedade de temas - as abelhas, diamantes, espécies de plantas, gigantes e anões, curiosidades, cachoeiras, arquitetura e arqueologia.Existem livros sobre piadas, anedotas, Composição e retórica. Livros de religião da geologia, pedras preciosas e Fairy Mitologia e Mistério Dreames. Ele estudou muitos tipos de Bíblias, poemas devocionais, livros sobre a oração, a história, os estilos de mulheres, profecia, filosofia, viagens, biografia, sociologia, educação, jardinagem, insetos, pássaros, música, arte, ciência e pregaçãoEntre os autores estão asso T Omer H, ORACE H, GoeThe, Shakespeare, CottS,ickens D, T ennyson rving I, Longfellow e muitos outros. Ele teve a autobiografia do Grand e Uma Noites com o Tio Remus.Quando o Dr. R ROWN B fez uma pesquisa para sua dissertação de médico na Coleção Spurgeon, descobriu cerca de 200 livros e hinários incluindo muito hinàrio raro.muitos livros forrado, Eles duram mais do que os livros de hoje impressas em papel feito de polpa de madeira.veja aqui,The Spurgeon Archive Uma lista completa dos puritanos obras da Colecção Spurgeon Um retrato da Biblioteca Spurgeon.

miguel silva

sábado, 9 de janeiro de 2010

Olavo de Carvalho A lei da mordaça gay


Talkshow do filósofo Olavo de Carvalho , fala sobre a lei da mordaça gay vs. a liberdade de consciência Duração: 09:02

miguel silva

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Arredondando os quadrados

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 8 de janeiro de 2010


Dentre as inumeráveis regras que governam a estupidez humana, estas duas, opostas e complementares, são de especial importância para elucidar a conduta de intelectuais, políticos e formadores de opinião em geral:

Regra no. 1: Se um sujeito está persuadido de que os quadrados são redondos, ele fará todo o possível para arredondá-los.

Regra no. 2: Se o mesmo indivíduo ou outro parecido tem algum interesse em arredondar os quadrados, ele jurará que eles são redondos por natureza.

O pragmatismo, uma modalidade especialmente elegante de estupidez, fundiu essas regras numa só e as erigiu em princípio fundamental do conhecimento: os conceitos das coisas não dizem o que elas são, mas o que planejamos fazer com elas.

Para justificar a afirmativa, que soava um tanto paradoxal e interesseira à primeira audição, essa mimosa escola filosófica argumentou que o pensamento é ação, que portanto pensar numa coisa já é fazer algo com ela. Todos os atos cognitivos tornavam-se assim uma forma de manipulação da realidade, o que resultava em suprimir toda possibilidade de conhecimento teorético e afirmar resolutamente que só existe conhecimento prático.

Enquanto na América Charles Peirce, William James e Josiah Royce se compraziam nessas reflexões tão agradáveis aos homens de indústria, para os quais tudo o que existe não passa de matéria-prima para a produção de outra coisa que também não existirá senão como projeção do que os consumidores pretendam fazer com ela, do outro lado do oceano um cidadão que odiava homens de indústria vinha inventando umas idéias bem parecidas.

Para Karl Marx, uma ciência que pretenda descrever o mundo como ele é não passa de uma ilusão burguesa, nascida da divisão do trabalho. Como os burgueses ficam no escritório ou em casa, sem sujar suas mãozinhas na luta direta com a matéria industrial, eles imaginam que há uma diferença entre conhecimento teórico e prático. Mas os proletários, que pegam no pesado para executar os planos dos burgueses, sabem que seus esforços de todos os dias são a materialização viva das idéias burguesas, as quais portanto não têm nenhuma existência em si mesmas e são apenas planos malignos de obrigar o proletariado a fazer isso ou aquilo. A verdadeira ciência, concluía Marx, não consiste em conhecer a realidade, mas em transformá-la. Os burgueses já praticavam essa ciência, mas não podiam confessar que faziam isso: para preservar sua auto-imagem de pessoas decentes enquanto sugavam o sangue dos proletários, tinham de se enganar a si mesmos imaginando que sua concepção do mundo era pura contemplação teorética, alheia a interesses menores. Daí o culto burguês da "ciência" como uma espécie de religião leiga, personificada no clero universitário que, da Idade das Luzes em diante, sobrepunha sua autoridade à dos padres e bispos medievais.

Não demorou muito para que essas duas correntes de idéias análogas, vindas de continentes distantes, se fundissem numa cabeça especialmente imaginativa, a do filósofo italiano Antonio Labriola, segundo o qual o marxismo é uma espécie de pragmatismo e vice-versa. Labriola repassou essa descoberta a seu discípulo Antonio Gramsci, que a transformou numa genial estratégia de propaganda revolucionária: já que as coisas não são nada em si mesmas, elas podem ser o que o Partido determine que elas sejam. Conseqüentemente, não existe conhecimento da verdade, mas "construção coletiva" da única realidade verdadeira: a conquista do poder, a glória final do partido revolucionário.

As idéias de Gramsci penetraram tão profundamente na alma do esquerdismo universal, que até o militante mais sonso, incapaz de atinar com qualquer sutileza, acaba se deixando conduzir por elas na prática, por uma espécie de mimetismo inconsciente. É com uma total naturalidade que essas pessoas falam a toda hora em "construção da verdade" e "construção da memória", sem ter a mínima suspeita de que esses giros de linguagem implicam de fato a negação de toda verdade objetiva, o intuito de transformar os fatos em vez de conhecê-los.

Num trabalho publicado em 2002, defendendo a criação de "centros de memória empresarial", a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, com aquela candura tocante, declarava que o objetivo dessas entidades era "acompanhar o trabalho permanente de construção da memória ao selecionar o que deve ser valorizado e o que deve ser esquecido" (“História, tempo presente e História Oral”. Topoi – Revista de História, Rio, dezembro 2002, p. 314-332).

Em 2007, no I Congresso de Ex-Presos e Perseguidos Políticos, falando em favor daquilo que viria a ser a malfadada "Comissão da Verdade", o promotor Marlon Weichert advogava bravamente a “construção da verdade, através da abertura dos arquivos". Quando a proposta tomou forma, tornando-se evidente aos olhos de todos que se tratava de investigar metade dos crimes e abafar a outra metade, ninguém se lembrou de observar que a seletividade deformante não era uma distorção da idéia original, mas a sua realização literal e exata, perfeitamente coerente com as doutrinas de Labriola e Gramsci. Não por coincidência, o mesmo evento no qual o promotor apresentou sua proposta encerrou-se com uma comovida homenagem aos assassinos Pedro Lobo e Carlos Lamarca, este último o nobre detentor do mérito de haver esmigalhado a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado.

Mas não foi só nos meios mais obviamente militantes que o espírito do marxismo pragmatista deixou suas marcas. Nas faculdades de letras, a crença de que os textos não têm nenhum significado em si mesmos, de que cada leitor "constrói sua leitura" conforme bem entenda, tornou-se uma cláusula pétrea dos estudos literários. Se o aluno protesta contra alguma interpretação cretina, alegando "Não foi isso o que o autor quis dizer", tem um zero garantido. Os autores não dizem nada, meu filho: você é que "constrói" as obras deles. Em educação infantil, a longa hegemonia das doutrinas "construtivistas" de Jean Piaget, Emilia Ferrero, Paulo Freire e tutti quanti consagrou a estupidificação geral da meninada como uma grande realização pedagógica: não se espante quando seu filho voltar da escola seguro de que o teorema de Pitágoras é uma imposição cultural arbitrária, de que Jesus Cristo era gay ou de que existem campos de concentração em Israel. Afinal, a realidade é pura construção.

As premissas do marxismo-pragmatismo são tolices sem sentido. Se uma coisa não é nada em si mesma, como poderíamos transformá-la em outra? Se os conceitos nada dizem sobre a realidade, também não podem dizer nada sobre o nosso conhecimento da realidade, o qual é também uma realidade. Se nossa apreensão das coisas não nos dá o conhecimento do que elas são, mas só do que planejamos fazer com elas, como poderíamos conhecer nosso próprio plano se não inventando algum outro plano a respeito dele, e outro, e outro mais, e assim por diante até o infinito. Como outras tantas modas intelectuais, o marxismo-pragmatismo é uma técnica de preencher o vazio com o vácuo.

Mas, quando uma doutrina idiota se impregna em toda uma cultura como essa se impregnou na cultura contemporânea, a própria idiotice se torna premissa fundante de inumeráveis argumentos em circulação, investida de força probatória automática, e toda resistência que se lhe ofereça toma ares de heterodoxia extravagante e abominável.

miguel silva