quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Você tem todo o direito de discordar...

"Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo."
(Voltaire)
Voltaire hoje seria considerado um homofóbico. Qualquer pessoa que defenda um posicionamento de liberdade de expressão quanto a questão da sexualidade será dado como homofóbico que impede as pessoas de viverem suas paixões. Para essas pessoas não é suficiente que você não se importe com o que elas fazem, você é obrigado a concordar com elas.
A pouco, estive debatendo no facebook na comunidade que foi feita contrária ao posicionamento do Chanceler do Mackenzie Dr. Augustus Nicodemus. Os integrantes pretendem fazer um ato de protesto na frente do Mackenzie dia 24 de Novembro, e para eles palavras como: Quanto à chamada LEI DA HOMOFOBIA, que parte do princípio que toda manifestação contrária ao homossexualismo é homofóbica, e que caracteriza como crime todas essas manifestações, a Igreja Presbiteriana do Brasil repudia a caracterização da expressão do ensino bíblico sobre o homossexualismo como sendo homofobia, ao mesmo tempo em que repudia qualquer forma de violência contra o ser humano criado à imagem de Deus, o que inclui homossexuais e quaisquer outros cidadãos. São consideradas como violência e ódio aos homossexuais. Não conseguem aceitar o contrário e qualquer discurso que vá de encontro a eles é caracterizado como medieval, arcaico, odioso e ignorante. É uma espécie de ditadura que se impôs sobre nós, e que estamos todos afundados.
Eu, assim como o Dr. Augustus, defendo a liberdade de expressão, acredito que todos têm o direito de expressar sua opinião, e como Voltaire luto por isso até o fim. Porém, assim como tenho o direito de dar minha opinião, não posso tolher a dos outros, como se as minhas palavras fossem as únicas que pudessem ser aceitas, como se o meu modo de pensar fosse o único que pudesse ser verdadeiro, como se eu fosse um deus contra os meros mortais. Isso é um absurdo, e qualquer pessoa deveria ser contrária a esse pensamento. Mesmo um homossexual deveria ser contrário a isso, pois assim como eles querem impedir o Dr. Augustus de falar, alguém pode impedi-los de fazer o mesmo, e portanto, é um tiro no pé.
E como se não bastasse toda essa celeuma, a imprensa faz o que sabe fazer de melhor: distorcer. A cada veiculo que tentar tratar sobre o tema uma coisa é modificada, alguns disseram que o texto foi publicado na semana passada, outros que foi ontem, a verdade é que desde 2007 o texto está disponível no site da chancelaria do Mackenzie. Para quem não entendeu ainda, eu explico. Em 2007 o Rev. Augustus escreveu uma homilia baseada na decisão da IPB sobre a PLC 122, depois publicou no site do Mackenzie na parte que é da chancelaria. Semana passada alguém descobriu isso e começou por meio de Twitter e Facebook a divulgar que o Mackenzie queria ter o direito de ser homofóbico. Depois alguns blogs começaram a divulgar a nota e o fim foi que alguns jornais online já estavam publicando a matéria.
É claro que o Mackenzie não é homofóbico nem discrimina ninguém por conta da sua sexualidade, muito pelo contrário, há um grande número de professores e alunos homossexuais, e nunca foram forçados a nada por conta disso. No entanto, a Universidade Mackenzie, que é presbiteriana desde o princípio, e portanto, cristã, tem princípios que regem, e assim, um deles foi explicitado na homilia do Dr. Augustus, a liberdade de expressão sobre sexualidade, a Bíblia tem um conceito sobre isso muito bem fundamentado, mas não diz que o cristão tem que forçar as pessoas a aceitarem, a verdade não deixa de ser verdade por conta das pessoas não aceitarem. Desta forma, o texto do Rev. Augustus está totalmente coerente com a lei e com a Bíblia, e também com os princípios acadêmicos.
É triste ver que as pessoas não conseguem conviver com o diferente. A esperança se encontra, não em outro lugar, mas na própria Escritura:
Mateus 5.10-12  Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.
O Rev. Augustus agora tem motivo para alegrar-se em dobro, a perseguição, a mentira e a injuria, tudo aquilo que aconteceu com os profetas antigos agora acontece com ele. Deus seja grandioso por isso. A Graça e a Misericórdia de Deus se mostram em meio a toda essa confusão, e no meio do deserto há motivos para alegria.
Eu me coloco totalmente em favor do Rev. Augustus e do seu posicionamento, e declaro que vou lutar até o fim para que todos tenham direito de se expressar e dizer o que pensam.
Àquele que é poderoso para fazer o morto ressuscitar e o vivo morrer,
Ronaldo Barboza de Vasconcelos.
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Leia a íntegra da carta do chanceler do Mackenzie:
Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia
Leitura: salmo 1
O Salmo 1, juntamente com outras passagens da Bíblia, mostra que a ética da tradição judaico-cristã distingue entre comportamentos aceitáveis e não aceitáveis para o cristão. A nossa cultura está mais e mais permeada pelo relativismo moral e cada vez mais distante de referenciais que mostram o certo e o errado. Todavia, os cristãos se guiam pelos referenciais morais da Bíblia e não pelas mudanças de valores que ocorrem em todas as culturas.
Uma das questões que tem chamado a atenção do povo brasileiro é o projeto de lei em tramitação na Câmara que pretende tornar crime manifestações contrárias à homossexualidade. A Igreja Presbiteriana do Brasil, a Associada Vitalícia do Mackenzie, pronunciou-se recentemente sobre esse assunto. O pronunciamento afirma por um lado o respeito devido a todas as pessoas, independentemente de suas escolhas sexuais; por outro, afirma o direito da livre expressão, garantido pela Constituição, direito esse que será tolhido caso a chamada lei da homofobia seja aprovada.
A Universidade Presbiteriana Mackenzie, sendo de natureza confessional, cristã e reformada, guia-se em sua ética pelos valores presbiterianos. O manifesto presbiteriano sobre a homofobia, reproduzido abaixo, serve de orientação à comunidade acadêmica, quanto ao que pensa a Associada Vitalícia sobre esse assunto:
"Quanto à chamada LEI DA HOMOFOBIA, que parte do princípio que toda manifestação contrária ao homossexualismo é homofóbica, e que caracteriza como crime todas essas manifestações, a Igreja Presbiteriana do Brasil repudia a caracterização da expressão do ensino bíblico sobre o homossexualismo como sendo homofobia, ao mesmo tempo em que repudia qualquer forma de violência contra o ser humano criado à imagem de Deus, o que inclui homossexuais e quaisquer outros cidadãos.
Visto que: (1) a promulgação da nossa Carta Magna em 1988 já previa direitos e garantias individuais para todos os cidadãos brasileiros; (2) as medidas legais que surgiram visando beneficiar homossexuais, como o reconhecimento da sua união estável, a adoção por homossexuais, o direito patrimonial e a previsão de benefícios por parte do INSS foram tomadas buscando resolver casos concretos sem, contudo, observar o interesse público, o bem comum e a legislação pátria vigente; (3) a liberdade religiosa assegura a todo cidadão brasileiro a exposição de sua fé sem a interferência do Estado, sendo a este vedada a interferência nas formas de culto, na subvenção de quaisquer cultos e ainda na própria opção pela inexistência de fé e culto; (4) a liberdade de expressão, como direito individual e coletivo, corrobora com a mãe das liberdades, a liberdade de consciência, mantendo o Estado eqüidistante das manifestações cúlticas em todas as culturas e expressões religiosas do nosso País; (5) as Escrituras Sagradas, sobre as quais a Igreja Presbiteriana do Brasil firma suas crenças e práticas, ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com propósitos heterossexuais específicos que envolvem o casamento, a unidade sexual e a procriação; e que Jesus Cristo ratificou esse entendimento ao dizer, "desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher" (Marcos 10.6); e que os apóstolos de Cristo entendiam que a prática homossexual era pecaminosa e contrária aos planos originais de Deus (Romanos 1.24-27; 1Coríntios 6:9-11).
A Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada lei da homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna e pela Declaração Universal de Direitos Humanos; e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.
Portanto, a Igreja Presbiteriana do Brasil reafirma seu direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo".
Rev. Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie

domingo, 14 de novembro de 2010

O que é “Responsabilidade”?



Embora muitos calvinistas não usem o termo livre-arbítrio, a crítica abaixo não se aplica somente a Carson, mas também a teólogos igualmente famosos como Joel Beeke, John Piper, James Boice e muitos outros. Eles afirmam, sem base bíblica ou filosófica, que responsabilidade pressupõe liberdade, e que por causa disso existe uma contradição entre a soberania divina e a responsabilidade humana.

Eu devo ter em minha biblioteca uns 50 livros que dizem respeito à suposta relação entre livre-arbítrio e responsabilidade, mas somente um deles faz algum esforço para questionar se há qualquer conexão lógica entre esses dois conceitos. No último capítulo do seu livro Religion, Reason and Revelation, Gordon Clark observa que ninguém jamais demonstrou que o conceito de responsabilidade é, de alguma forma, dependente de um estado anterior do livre-arbítrio. Esses dois termos aparecem frequentemente no mesmo contexto, e é frequentemente afirmado que “se nós não temos o livre-arbítrio, não podemos ser responsáveis por nossas ações”, mas ninguém se importa em provar isso.

Uma típica expressão erudita dessa afirmação é feita por D. A. Carson, em sua tese de doutorado, publicada como Divine Sovereignty and Human Responsibility (1981), um excelente estudo de como a literatura do período helenístico trata o problema. Carson conclui com uma explicação da descrição joanina de ambas, a soberania divina e a responsabilidade humana pelo pecado, observando que nenhuma tentativa é feita por João para produzir qualquer explicação especulativa de como as duas coisas operam juntas, de um modo diferente da literatura helenística na qual este assunto é tratado. Carson fica devidamente impressionado em como esses dois tópicos podem coexistir lado a lado por todo o Evangelho de João sem qualquer reconciliação filosófica. Não passou pela cabeça de Carson, contudo, que o próprio João não tivesse notado nenhuma tensão ou conflito pelo simples fato de não haver nenhum.

Uma chave para o fato de Carson estar sob a impressão de que a soberania de Deus não pode ser reconciliada com a responsabilidade humana pode ser encontrada no capítulo intitulado “Os Limites do Livre-Arbítrio”. Logo no começo, a primeira sentença reza: “Responsabilidade é a certeza ligada ao ‘livre-arbítrio’ de algum modo” (p.206). Mas, a despeito de uma discussão subsequente de vários tipos de calvinismo inconsistente, Carson em algum lugar mostra que sua suposição primeira é correta. Ele simplesmente junta a longa fila de calvinistas inconsistentes que assumem que o livre-arbítrio “em alguma medida” fortalece a realidade da responsabilidade. Mas em qual medida?

eu simplesmente repetirei aqui o desafio que Gordon Clark faz aos arminianos de escreverem uma prova de que a responsabilidade é, de algum modo, dependente ou que pode ser derivada do conceito deles de livre-arbítrio. Naturalmente, eles podem definir o livre-arbítrio de qualquer modo que vá ao encontro da necessidade teológica deles, mas os cristãos deveriam tirar suas premissas da Bíblia. Carson reconhece o livro de Gordon Clark, Biblical Predestination (1969), mas não menciona Religion, Reason and Revelation, onde o assunto de seu próprio capítulo final intitulado “The Formulation of the Tension” é discutido em detalhes. É simplesmente assumido que há uma tensão.Teria sido útil se Carson tivesse explicado por que a literatura helenista é tão corrompida pelas tentativas especulativas de reconciliar o conceito de responsabilidade com a soberania de Deus e, então, teria explorado por que a Bíblia não trata, de forma alguma, as duas coisas como estando em tensão ou conflito. Talvez ele simplesmente tenha decidido não incluir essas questões adicionais no escopo do estudo. (Deveria também ser considerado que eles podem somente parecer estar em conflito porque o pensamento não-cristão impôs pressuposições falsas e contraditórias sobre o tópico como condição para discussão. Isto é, a mente natural pressupõe que a visão cristã é impossível antes que ela comece sua consideração “objetiva” do assunto). Contudo, a tese de Carson não torna disponível ao leitor uma análise excelente de como a literatura (na sua maioria de origem judaica) da era helenística lida com esse dilema importante da incredulidade. Ela deveria ser lida por todo cristão interessado na história do debate sobre o livre-arbítrio.

, permanece o fato de que não somente não há nenhuma conexão demonstrável entre o livre-arbítrio e a responsabilidade, mas também que a ideia arminiana de liberdade da indiferença é totalmente destituída de qualquer senso de responsabilidade. Pode ser difícil para alguns entender a relação entre a responsabilidade humana e a soberania de Deus — eles são perfeitamente honestos em dizer que “não veem como podemos ser considerados responsáveis se não temos o livre-arbítrio”. Mas para o cristão que crê na Bíblia, em nenhum lugar na Bíblia a responsabilidade está vinculada ao livre-arbítrio. Ela nunca usa o livre-arbítrio como uma categoria de explicação, nem uma só vez sequer.

Leia esse texto também e a continuação do texto boa leitura.

Responsabilidade Bíblica Link »

  • Por: R. K. McGregor Wright

Fonte: A Soberania Banida, Editora Cultura Cristã, págs. 59-60.

por R. K. McGregor Wright

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BAHIANA NA IGREJA UNIVERSAL



um pouco humor


tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar.eclesiate 3,8

Uma bahiana comenta sua situação aflitiva com um amigo, crédulo da Igreja Universal:

- Estou numa maré braba fio. Estou sem crédito na praça, devendo pra todo mundo. Não vejo solução. Já pensei em me matar. Estou desempregada e sem dinheiro, cheia de contas e carnês atrasados. Não há nada que dê jeito nessa situação.Já perdi a esperança! Acho que já estou doente e vou morrer mesmo... religioso:

Calma! Não é nada disso... Você precisa de ajuda espiritual. Você conhece a minha igreja? É pertinho da rodoviária, quase em frente ao Iguatemi , fia. Pois é, na quarta-feira, tem uma Sessão de Descarrego, onde todos são curados ou aliviados, com uns 318 pastores e muita fé. Vai lá ... Vamos te salvar!Na quarta-feira, a bahiana vai. No meio do culto é chamada ao palco e um pastor a agarra pelos cabelos e pergunta: - Qual é o seu problema?!!Ela diz:

- Dívida, meu santo, dívida ... pastor começa a gritar:

- Sai desse corpo, demônio! 'Disaloja!' Esse corpo não te pertence! Em nome de Jesus , te afasta desta alma boa!!! E colocando a mão em sua testa e segurando pelos cabelos , GRITA:

- Estou ordenando: Em nome de Jesus , 'Disaloja!'... 'Disaloja!'... 'DISALOOOOOJAAAA!!!!!!!!'

E a bahiana aflita grita:

- Casas Bahia!!! Lojas Americanas!!! Ponto Frio!!! Magazine Luiza, Cartão Visa, C&A!!! Marisa!!! Fininvest!!! Ibis !!! Losango!!! Casa&Vídeo!!! Bloco Camaleão!!! Camarote da Ivete!!! Precaju!!!! Me acuda meu Deus antes que quebrem meu pescoço !!!!!

sábado, 6 de novembro de 2010

O Problema do Um e os Muitos

A Natureza do Problema

Um dos problemas mais básicos e contínuos da história do homem é a questão do um e os muitos e a sua relação. O fato que em anos recentes os homens têm evitado a discussão desse assunto não deixou de fazer suas pressuposições não declaradas com respeito ao mesmo determinante do seu pensamento.

Grande parte da preocupação presente sobre as tendências desses tempos é literalmente gasta em esforço inútil porque aqueles que guiam as atividades não podem resolver, com as ferramentas filosóficas disponíveis a eles, o problema da autoridade. Isso está no cerne do problema da função apropriada do governo, o poder de tributar, de recrutar, de executar criminosos e travar uma guerra. A questão da autoridade é novamente básica para a educação, para a religião e a família. Onde a autoridade reside, na democracia ou em uma elite, na igreja ou em alguma instituição secular, em Deus ou na razão? As implicações do problema são religiosas, como será demonstrado, mas o fato que ele não é discutido permite uma equalização ignorante de várias religiões e diversas teologias. As diferenças entre cristianismo e ateísmo são básicas, assim como as diferenças entre budismo e cristianismo. A ortodoxia russa, o catolicismo romano, o anglicanismo, luteranismo e o calvinismo, cada um deles tem sua cultura característica de consequência na ação política e social de sua própria pressuposição. O fracasso em reconhecer o fato que todos os caminhos para Deus não são igualmente válidos ou relevantes para a manutenção da cultura ocidental, especialmente nos Estados Unidos, tem extensivamente obscurecido a possibilidade de uma resposta inteligível. A alegação que esta é uma cultura pluralista é meramente o reconhecimento do problema, não uma resposta. O problema da autoridade não pode ser respondido pela razão somente, e básico para a própria razão são as suposições pré-teóricas ou axiomas[1] – que representam essencialmente os comprometimentos religiosos. E um desses comprometimentos básicos diz respeito à questão do um e os muitos.[2] O fato que os estudantes podem se graduar em nossas universidades como bacharéis em filosofia sem qualquer ciência da importância ou centralidade dessa questão não torna o um e os muitos menos básico para o nosso pensamento. A diferença entre Oriente e Ocidente, e entre vários aspectos da história e cultura ocidental, reside em respostas a esse problema que têm sido feitas consciente ou inconscientemente. Quer reconhecido ou não, todo argumento e qualquer exposição teológica, filosófica, política, ou qualquer outra exposição é baseada numa pressuposição sobre o homem, Deus e a sociedade – sobre a realidade. Essa pressuposição governa e determina a conclusão; o efeito é o resultado de uma causa. E tal pressuposição básica refere-se ao um e os muitos.

Essa evitação do problema torna necessário umas poucas definições elementares como um prelúdio para uma discussão. O um refere-se não a um número, mas à unidade e unicidade; em metafísica, ele geralmente significa o absoluto, a suprema Ideia para Platão, o universo para Parmênides, o Ser como Tal para Plotino, e assim por diante. O um pode ser um todo separado, ou pode ser a soma de coisas em sua inteireza analítica ou sintética; isto é, ele pode ser algo transcendente, que é o fundamento de todo ser, ou pode ser algo imanente. O muitos referente-se à particularidade ou individualidade das coisas; o universo é cheio de uma multidão de seres; a verdade concernente a eles é inerente em sua individualidade, ou em sua unicidade básica? Se for em sua individualidade, então o muitos é fundamental e a fonte apropriada de autoridade, e temos o Nominalismo filosófico. Se for em sua unicidade, então o um é fundamental, e temos o Realismo. De acordo com o Realismo, os universais, que são termos aplicados a todo o universo e podem ser chamados “substâncias secundárias” reais, são aspectos da Ideia única e existem dentro dela. O pensamento egípcio, muito do pensamento grego, e o pensamento escolástico medieval tem sido “realista”. Para o “Nominalismo”, termos abstratos ou gerais não têm nenhuma existência real e são meros nomes aplicados a aspectos da realidade; a realidade pertence aos particulares, particulares físicos reais, de forma que a verdade do ser é simplesmente que coisas individuais existem. A verdade não é alguma abstração com respeito a coisas particulares, mas é simplesmente o fato da particularidade.

A Resposta Trinitariana

O cristianismo ortodoxo tem afirmado outra resposta ao problema, e para tornar clara essa resposta, certas distinções elementares são necessárias. A teologia e a filosofia distinguem entre a trindade ontológica e a trindade econômica ao falar de Deus. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são cada um deles uma personalidade, e juntos eles constituem o Deus trino e exaustivamente pessoal, totalmente auto-consciente. Deus é totalmente auto-consciente, significando que ele não tem nenhum aspecto oculto ou desconhecido de seu ser, nenhuma potencialidade não explorada. Ele é realmente auto-consciente e pessoal. Cada uma das pessoas da trindade é igualmente Deus.

Visto que tanto o um como o muitos são igualmente fundamentais em Deus, torna-se imediatamente aparente que esses dois aspectos aparentemente contraditórios do ser não cancelam um ao outro, mas são igualmente básicos para a trindade ontológica: um Deus, três pessoas. Novamente, visto que a unidade e pluralidade temporal são os produtos e a criação deste Deus trino, nem a unidade nem a pluralidade podem exigir o sacrifício do outro em prol de si mesma. Dessa forma, o homem e o governo são igualmente aspectos da realidade criada. O locus do cristianismo é tanto o crente como a igreja; eles não são independentes ou anteriores um ao outro. Os desejos do marido e da esposa não têm prioridade sobre o casamento, nem a instituição do casamento têm primazia sobre os parceiros dele; o casamento é de fato um protótipo de uma realidade eterna (Ef 5.22-25), mas o homem é ele mesmo criado à imagem de Deus (Gn 1.26-27). A educação deve ser voltada tanto para o indivíduo como para a sociedade, mas acima de tudo, a Deus.

[1] Suposições pré-teóricas ou axiomas são proposições religiosamente sustentadas e não provadas que são assumidas como sendo tão verdadeiras numa cultura que é ridículo questioná-las ou tentar prová-las. Elas existem como o próprio fundamento e premissa do pensamento. Eles são religiosamente sustentadas, mas são anteriores a qualquer pensamento religioso formal, bem como a qualquer especulação filosófica.

[2] O um e os muitos é talvez a questão básica da filosofia. A unidade ou a pluralidade, o um ou os muitos, é o fato básico da vida, a verdade fundamental sobre o ser? Se unidade é a realidade, e a natureza básica da realidade, então unicidade e unidade devem ganhar prioridade sobre o individualismo, os particulares ou os muitos. Se os muitos, ou a pluralidade, descrevem melhor a realidade fundamental, então a unidade não pode ganhar prioridade sobre os muitos; então o Estado, a igreja e a sociedade devem ser subordinados à vontade do cidadão, do crente e do homem em particular. Se o um é fundamental, então os indivíduos são sacrificados pelo grupo. Se os muitos é fundamental, então a unidade é sacrificada à vontade dos muitos, e a anarquia prevalece.

Publicado em 5 de novembro de 2010 – 22:48 por Rousas J. Rushdoony

Fonte: Adaptado do livro The One and the Many: Studies in the Philosophy of Order and Ultimacy, futuro lançamento da Editora Monergismo.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. 05 de novembro de 2010.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Roma e a Reforma

210. Qual foi a razão para a Reforma?

Roma, mediante o seu domínio, tinha corrompido a Igreja, e aqueles que eram fieis à Palavra de Deus procuraram restaurar a Igreja às suas verdadeiras doutrinas.

211. Como Roma reagiu?

Roma se opôs violentamente à Reforma em todos os lugares, e todas as igrejas da Reforma eram consideradas como heréticas porque buscavam abolir as corrupções de Roma e rejeitavam as reivindicações do Papado.

212. A Reforma envolveu como afirma Roma, heresia e cima?

Certamente não. Os Reformadores, pelo contrário, consideravam que a Igreja de Roma tinha se apartado de Cristo e da Igreja Apostólica, e o objetivo deles era o retorno ao Evangelho puro e às práticas e princípios do Novo Testamento.

213. O termo ‘protestante’ tem um aspecto positivo e negativo?

Sim. O protestantismo envolve protesto contra o erro, mas também a propagação da Verdade. Um protestante, portanto, no sentido verdadeiro, é aquele que não somente protesta contra as corrupções, abusos e apostasia do romanismo, mas também dá testemunho fiel dos princípios fundamentais do Evangelho como apresentados na Palavra de Deus.

Fonte: Dr. Ian R. K. Paisley, A Concise Guide to Bible Christianity and Romanism.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (31 de outubro de 2010).

domingo, 31 de outubro de 2010

O Evangelho da Reforma







Vivemos numa época em que a mensagem do evangelho está sendo implacavelmente assaltada por dois grandes inimigos: legalismo e antinomianismo. Esses dois erros têm confundido e enganado a muitos, causando estragos espirituais tanto no catolicismo romano como no protestantismo evangélico.


O século dezesseis testemunhou um dos maiores reavivamentos na história da igreja: a Reforma. A igreja protestante nasceu de um protesto contra o legalismo impregnado do catolicismo romano. Os Reformadores pregaram corajosamente o evangelho, testemunhando a mensagem bíblica da suficiência da obra de Cristo, a graça de Deus e a autoridade plena e final da Escritura. Eles trouxeram a igreja de volta à mensagem essencial e libertadora da justificação pela fé como definida pela Palavra de Deus. Desde o século dezesseis o evangelho da Reforma tem sido o padrão de ortodoxia para os protestantes. Hoje, contudo, encontramos um novo interesse no catolicismo romano em todos os lugares do protestantismo conservador, e uma disposição acrítica de abraçar os ensinos da Igreja de Roma. Isso é devido em parte à natureza fraturada do evangelicalismo e a uma ênfase antinomiana que está se tornando mais e mais prevalecente nos círculos evangélicos.

Isso tem desencadeado um debate contínuo dentro do evangelicalismo quanto à natureza da fé salvífica e o significado da salvação. Mas o interesse renovado no catolicismo romano é motivado por mais do que uma reação contra uma forma liberal e antinomista de evangelicalismo. Dado o estado da cultura de hoje há aqueles que desejam que todas as forças conservadoras dentro do cristianismo professante unam-se numa batalha comum na guerra cultural por valores morais. Unidade é o toque de clarim desse movimento, mas uma unidade conseguida à custa da verdade – em particular as grandes verdades do evangelho que foram articuladas pelos Reformadores protestantes. Aqueles evangélicos que promovem tal agenda são míopes. Eles têm esquecido que a Escritura declara que os meios ordenados por Deus para mudar uma cultura é por meio da pregação clara do evangelho de Cristo. Mas é nesse ponto que existe tanta confusão.

Há uma necessidade desesperada hoje de um esclarecimento do evangelho bíblico. Precisamos retornar a uma proclamação corajosa e inflexível da plenitude da verdade do evangelho como revelada na Escritura. Isso é o que caracterizou a pregação e o ensino dos Reformadores. A mensagem do evangelho deles estava fundamentada na autoridade suprema da Palavra de Deus e Deus abençoou os esforços deles com um derramamento do seu Espírito em grande poder e conversão. A resposta para os evangélicos que estão preocupados com a superficialidade do evangelicalismo e o estado da cultura não é a união ou a tolerância com o evangelho legalista de Roma, mas um retorno ao evangelho bíblico da Reforma. É esse evangelho que a grande parte do evangelicalismo abandonou.

Fonte: William Webster, The Gospel of the Reformation (Battle Ground, Washington: Christian Resources, 1997), págs. 12-13. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (31 de outubro de 2010).


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miguel silva